5- DIGÃO

1197 Palavras
CAPÍTULO 5 DIGÃO NARRANDO Saí da boca já era madrugada. A cabeça cheia, o corpo ligado no automático. Resolvi coisa demais naquela noite, cobrança, ordem, aviso… mas no meio disso tudo, a imagem da mina voltou do nada. Gabriela. Lembrei do jeito que ela tremia, do choro preso, do olhar perdido. Não por pena. Pena não paga dívida. Mas porque agora ela fazia parte do que era meu. Peguei o rádio e mandei curto: — Leva um lanche pra menina lá no barraco da sete. Desliguei sem esperar resposta. Era ordem. Subi o morro de moto, acelerando forte. O vento batendo no rosto ajudava a esfriar a cabeça. Luzes espalhadas, som longe de baile, cheiro de madrugada que só quem vive aqui conhece. Cheguei no meu barraco. Estacionei a moto, cumprimentei os segurança com um aceno de cabeça. — Fica ligado. Qualquer coisa me chama — avisei. Entrei. A luz da cozinha tava acesa. E, como sempre, a Karina tava lá. Sentada na bancada, comendo pizza direto da caixa, largada como se fosse dona do mundo. — E aí, mana — falei, largando a chave em cima da mesa. Ela levantou os olhos, mastigando. — Fala, Rodrigo. Quer pizza? — disse, empurrando a caixa na minha direção. Peguei um pedaço e mordi sem nem sentir o gosto. — Movimento foi pesado hoje — comentei, encostando na pia. — Sempre é — ela respondeu, dando de ombros. — Tu tá com essa cara desde que saiu mais cedo. Olhei pra ela de lado. — Teu radar tá funcionando demais. Ela riu de canto. — Te conheço, né? Quando tu chega calado assim, é porque trouxe problema novo pra dentro de casa. Dei uma risada curta. — Não é problema. É consequência. Karina arqueou a sobrancelha, interessada. — Ih… isso tem nome, rosto ou os dois? Encostei as costas na geladeira, cruzando os braços. — Tem nome. Gabriela. Ela ficou em silêncio por um segundo, me analisando. — E quem é a Gabriela? — perguntou, num tom mais sério agora. — Dívida — respondi simples. — Dívida do pai. Karina suspirou, fechando a caixa da pizza. — Mais uma que vai pagar erro de homem que não vale nada — murmurou. — Aqui em cima é assim — falei, sem emoção. — Ninguém deve sozinho. Ela me encarou por alguns segundos, depois desviou o olhar. — Só espero que tu saiba o que tá fazendo. Olhei pra frente, sentindo o peso da madrugada cair de vez. — Eu sempre sei — respondi. — Cadê a menina? — a Karina perguntou de repente, me encarando por cima da bancada. Peguei mais um pedaço de pizza, dei de ombros. — Mandei trancar num barraco — respondi simples, como se estivesse falando de qualquer coisa. Ela franziu a testa na hora. — Ela não é do morro? — Não — falei, dando outra mordida. — É do asfalto. Mina novinha… assustada. Karina bateu a mão na bancada com força. — Rodrigo, solta essa menina. Não é justo. Ela pagar dívida de pai cuzão? Tu não pode fazer isso. Olhei pra ela devagar, mastigando com calma. — Ah tá… — falei. — E eu fico no prejuízo? — Tu não tem direito de prender a mina — ela rebateu, cheia de marra. — Gente não é mercadoria. Ela não pode ser dada como dívida. Apoiei a pizza de lado e encarei minha irmã de verdade agora. — Se o pai dela não tivesse vendido ela pra mim, ia vender pro Teteu — falei, firme. — E tu sabe muito bem como ele é. O nome pesou no ar. Karina ficou em silêncio por um segundo. — Teteu é dono do Dendê… — murmurou. — E não vale nada. Com certeza ia colocar ela em algum dos bordel dela. — Pois é — confirmei. — E o pai da mina deve pra ele também. Ela passou a mão no rosto, nervosa. — Mesmo assim… isso não te faz melhor que ele. Respirei fundo, sentindo a paciência ir embora. — Eu não tô tentando ser melhor que ninguém — falei. — Tô tentando manter o morro em pé. Dívida não some. Ou paga… ou vira guerra. — Mas ela não tem culpa — insistiu. — Culpa não importa aqui em cima — respondi seco. — Importa consequência. Karina me encarou com os olhos cheios de raiva… e preocupação. — Tu vai destruir a vida dessa menina. Desviei o olhar por um instante, coisa rara. — A vida dela já foi destruída quando nasceu filha daquele cara — falei baixo. — Eu só virei o destino que ia chegar de qualquer jeito. O silêncio caiu pesado entre a gente. — Só te peço uma coisa — ela disse por fim. — Não encosta nela. Não deixa ninguém encostar. Olhei de novo pra minha irmã. — Ninguém toca nela sem minha ordem — garanti. — Isso eu já deixei claro. Ela assentiu devagar, ainda contrariada. — Tomara que tu não se arrependa disso, Rodrigo. Joguei a caixa da pizza no lixo e passei a mão no rosto. — Arrependimento é luxo — respondi. — E eu não tenho esse direito. Subi pro quarto com a cabeça cheia demais pra dormir. Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim. O silêncio ali dentro era diferente do da rua. Mais pesado. Mais cheio de coisa que a cabeça insiste em jogar na tua cara quando o corpo para. Tirei a roupa sem pressa, jogando tudo no chão mesmo. Fui pro banheiro e liguei o chuveiro. A água caiu forte, quente, batendo nos ombros, escorrendo pelo rosto. Fiquei ali parado alguns minutos, deixando o barulho da água abafar os pensamentos. Não adiantou. A imagem dela vinha de novo. Encolhida. Olho arregalado. Medo puro. Fechei os olhos, passei a mão pelo rosto. — Foco, Rodrigo — murmurei pra mim mesmo. Terminei o banho rápido, me sequei e vesti só uma cueca e uma bermuda. Voltei pro quarto, apaguei a luz principal e me joguei na cama. Peguei o celular, rolei a tela sem prestar atenção em nada. Mensagem de cobrança. Aviso dos caras. Movimento normal. Tudo normal demais. Mas minha cabeça insistia em voltar pro barraco da sete. Se ela tinha comido. Se ainda tava chorando. Se tava tentando fugir mesmo sabendo que não tinha chance. Bufei baixo, bloqueando a tela do celular. Virei de lado, encarando o teto no escuro. Eu já tinha feito coisa pior. Já tinha tomado decisão mais pesada. Já tinha passado por cima de muita gente pra manter o Santa Marta em pé. Mesmo assim, aquilo tava diferente. Talvez porque ela não tivesse cara de quem nasceu pra esse mundo. Talvez porque o medo dela não era fingido. Ou talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, uma dívida tinha rosto… e isso complicava tudo. Passei a mão pela nuca, inquieto. — Isso não muda nada — falei baixo, como se alguém estivesse ali pra ouvir. Mas o silêncio não respondeu. E eu fiquei ali, deitado, esperando o sono vir… sabendo que, quando amanhecesse, aquela mina ainda ia estar lá embaixo. E que, gostando ou não, o destino dela estava nas minhas mãos. Continua.....
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