CAPÍTULO 4
GABRIELA NARRANDO
Ele mandou todo mundo sair.
Um por um, os homens foram deixando a sala. O barulho das botas se afastando, a porta fechando atrás deles, até sobrar só eu… e ele.
O silêncio ficou pesado demais.
Dava pra ouvir minha própria respiração falhando.
Ele não disse nada de imediato.
Só ficou ali, encostado na mesa, me olhando.
Não era um olhar de curiosidade.
Era de posse.
Como se eu fosse algo que ele precisava avaliar.
Meu estômago embrulhou.
— Como é o seu nome? — ele perguntou, por fim.
A voz grave. Fria. Sem paciência.
— G… Gabriela — respondi, gaguejando. A palavra quase não saiu.
Ele assentiu devagar, sem desviar os olhos.
— Eu sou o Digão — falou. — Dono desse morro.
Fez uma pausa curta. — E é pra mim que teu pai devia.
Senti o chão sumir.
— Eu… eu não devo nada — falei rápido, a voz embargada. — Isso não é justo. Eles não podiam ter me trazido assim… em troca.
Ele soltou um riso curto. Sem humor nenhum.
— Justo? — repetiu, como se a palavra fosse estranha. — Quem falou em justo?
Se aproximou um passo.
Meu corpo inteiro travou.
— Foi teu pai que te ofereceu — ele continuou, seco. — Ninguém botou arma na cabeça dele pra isso.
— Não… — balancei a cabeça, sentindo as lágrimas escorrerem. — Me dá um tempo… por favor. Eu trabalho, eu posso pagar… eu junto o dinheiro…
Ele deu uma risada mais alta agora. c***l.
— E da onde tu acha que vai tirar essa grana toda? — perguntou. — Do nada?
Engoli seco.
Não tinha resposta.
— Eu não tenho nada a ver com essa dívida — chorei. — Eu não escolhi isso. Ele é meu pai… ele não podia…
— Podia — ele cortou, grosso. — E fez.
As palavras bateram em mim como tapa.
— Aqui em cima, dívida não some — ele continuou. — Alguém sempre paga.
As minhas pernas começaram a tremer. Sentei na cadeira sem perceber.
— Eu não fiz nada — sussurrei, derrotada.
Ele me encarou por mais alguns segundos. Longos. Pesados.
— Agora fez — disse por fim. — Porque a dívida não é mais só dele.
Meu coração disparou.
— Tu vai pagar — ele completou. — De um jeito… ou de outro.
O choro saiu de uma vez. Alto. Descontrolado. Não consegui segurar.
Ele não se mexeu.
Não se aproximou.
Não tentou consolar.
Só virou o rosto um pouco, como quem já tinha tomado a decisão.
— Leva ela pro barraco da sete — disse, alto, chamando alguém do lado de fora. — E ninguém encosta sem minha ordem.
A porta abriu.
Levantei cambaleando, com a sensação de que minha vida tinha acabado ali.
Quando fui passando por ele, ouvi a última coisa que ele disse, num tom baixo, firme, que gelou minha alma:
— Aqui em cima, Gabriela… ninguém deve e sai ileso.
E eu entendi.
Eu não tinha sido só trazida.
Eu tinha sido entregue ao verdadeiro d***o.
O cara que saiu pra fora comigo me segurou pelo braço com força.
Não foi empurrão.
Foi domínio.
Tentei puxar, mas minhas pernas m*l respondiam. Ele me levou praticamente arrastada até o carro. Ninguém falou nada. Ninguém olhou nos meus olhos. Era como se eu já tivesse deixado de ser gente.
O carro desceu o morro rápido. As luzes passando pelas vielas pareciam borrões. Eu tremia inteira no banco de trás, abraçando a mim mesma, tentando entender como minha vida tinha virado aquilo em questão de minutos.
Entramos numa viela estreita, escura, onde o carro quase não passava. Parou de repente, em frente a um barraco velho, de madeira torta, com tábuas comidas pelo tempo. A porta pendia torta na dobradiça.
— Desce — ele falou, seco.
Mal tive tempo de reagir. Me puxou de novo pelo braço, me arrastando até a porta. Abriu com força e me empurrou pra dentro. Eu tropecei e caí no chão.
— Fica aí por enquanto — ele disse, já do lado de fora. — E nem tenta fugir.
Levantei o rosto, assustada.
— Tem segurança lá fora — continuou. — Ordem é clara. Tentou correr… atiram. Sem conversa.
Meu coração quase saiu pela boca.
Ele bateu a porta com força.
O barulho ecoou dentro do barraco, vazio.
Fiquei alguns segundos parada, tentando processar. O lugar era pequeno, sujo, cheiro de mofo e abandono. O chão de cimento rachado, uma janela minúscula tapada com um pano velho, um colchão fino jogado num canto.
Nada mais.
Me abaixei devagar, encostando as costas na parede fria. Puxei as pernas contra o peito e enfiei o rosto entre os joelhos. O choro veio pesado, do fundo do peito, daqueles que doem o corpo inteiro.
Chorei pelo meu pai.
Chorei pelo que ele tinha feito comigo.
Chorei por mim.
Cada soluço parecia arrancar um pedaço de quem eu era antes. Eu não sabia quanto tempo ia ficar ali. Não sabia o que ele ia fazer comigo. Não sabia se ia sair viva daquele morro.
Só sabia de uma coisa:
Eu estava sozinha.
Preso num lugar que não perdoa.
Entregue a um homem que mandava na vida e na morte.
Depois de um tempo que eu nem sei medir, o choro foi diminuindo. Não porque a dor passou… mas porque o corpo cansa até de sofrer.
Levantei devagar, com as pernas ainda bambas, e comecei a andar pelo barraco. Cada passo parecia estranho, como se eu não estivesse mais dentro da minha própria vida.
Cheguei perto da janela. Afastei o pano velho só um pouco, o suficiente pra espiar.
Tinha homem lá fora, sim. Dois, encostados na parede da casa ao lado. Um deles fumava, o outro mexia no celular, mas os olhos… os olhos não paravam. Vigiavam tudo.
Voltei o pano pro lugar na hora. Meu coração batia forte demais.
Fui até a outra fresta, uma a******a entre duas tábuas m*l pregadas. Dava pra ver o beco inteiro. Mais dois homens. Um deles com rádio preso no cinto.
Não tinha saída. Nem chance. Nem ilusão.
Sentei de novo no colchão fino, abraçando os joelhos. Fiquei ali, quieta, prestando atenção em qualquer som. Passos. Vozes. Motor passando longe. O tempo parecia se arrastar de propósito, só pra me torturar mais.
Em alguns momentos, eu me pegava pensando se meu pai tava vivo. Se ele dormia tranquilo sabendo onde eu tava. Se em algum canto do mundo alguém sentia minha falta.
A fome começou a aparecer, junto com um nó no estômago que não era só de fome. Eu não sabia se comer ia me fazer melhor ou pior. Tudo parecia errado.
Já devia estar tarde da noite quando ouvi o barulho da fechadura.
Meu corpo inteiro travou.
A porta abriu devagar, e outro cara entrou. Não era o mesmo de antes. Esse parecia mais novo, menos bruto no olhar. Ele carregava um saco de papel numa mão e uma garrafa de Coca na outra.
— Come — falou, simples, colocando as coisas em cima de uma caixinha velha que servia de mesa. — O patrão mandou.
“Patrão.”
A palavra me arrepiou inteira.
— Eu… — minha voz saiu baixa, fraca. — Ele… ele falou mais alguma coisa?
O cara me olhou por dois segundos, como se estivesse decidindo se respondia ou não.
— Só pra tu ficar tranquila. — deu de ombros. — Por enquanto.
Por enquanto.
Ele saiu sem esperar resposta e fechou a porta de novo.
Fiquei olhando pro lanche por um tempo. Um sanduíche simples. Nada demais. Mas naquele momento parecia a única coisa concreta num mundo que tinha virado pesadelo.
Peguei o sanduíche com as mãos tremendo e dei uma mordida pequena. O gosto quase não desceu. Engoli com dificuldade, mais por necessidade do que por vontade.
Continua ......