CAPÍTULO 44 GABRIELA NARRANDO Quando eu cheguei no camarote, eu senti o peso do olhar de todo mundo. Mas principalmente o dele. Eu parei na frente do Digão com o queixo erguido, sustentando o personagem que eu mesma criei pra não tremer na base. — Dez minutos. — Eu sei contar — ele respondeu, calmo demais. Calmo por fora. Por dentro eu sabia que ele tava pegando fogo. O som batia forte lá embaixo, a luz piscando vermelha e azul no rosto dele, marcando ainda mais aquele maxilar travado. Ele não desviava o olhar. Nem eu. — Satisfeito agora? — perguntei. — Ainda não. Meu estômago deu um nó. — Eu tava trabalhando. — Eu sei. — Então por que me mandou subir? Ele deu um passo na minha direção. Devagar. Sem encostar. Mas perto o suficiente pra me tirar o ar. — Porque eu não gostei.

