• Capítulo 16 •

1602 Palavras
Meu terno estava pendurado no cabide no banco de trás, e deixei outro espaço para que Júlia colocasse suas coisas. Usava óculos escuros para esconder minha falta de sono da noite anterior. Não consegui pregar os olhos e, quando vi, já eram seis e vinte. Mandei uma mensagem para Ramon, dizendo que não estava bem, e aproveitei para informá-lo sobre Alfred Klein, sabendo que isso ajudaria a justificar minha ausência. Logo, a porta do banco de trás se abriu, e através dos óculos vi Ana Júlia. Ela ajeitou seu vestido, assim como minhas roupas, e depois colocou uma maleta de maquiagem no chão. Abri o porta-malas, deixando que ela colocasse sua pequena mochila lá dentro. Me ajeitei no banco, pronto para dar partida assim que ela entrasse. – Boa tarde. Achei que não viria, você não me respondeu o dia todo! – A ignorei, como fiz mais cedo ao tomar banho e me preparar para enfrentar o dia. Aparentemente, não tinha me preparado o suficiente. – Rubens? Travei o maxilar, sentindo um frio na barriga ao ouvir ela falar meu nome. Segurei o volante com tanta força que minhas mãos começaram a doer. – Boa tarde, Júlia – respondi, vendo-a se encolher no banco. Ela ficava nervosa quando eu a chamava de Ana, mas sempre que a chamava pelo nome que ela queria ser vista pela máfia, ela reagia assim. Era meu jeito de avisá-la que não estava num dia bom, a forma mais educada que eu conseguia encontrar. Dei partida, ignorando sua presença no carro. Eu estava completamente exausto e precisava urgentemente chegar ao nosso destino. Notei no painel que precisava abastecer, então segui por um caminho que sabia ter um posto de gasolina. Não demorou muito para chegar onde precisava, perto da sede. – Fica no carro – disse, tirando o cinto e saindo do veículo como se estivesse fugindo de uma praga. – Completa o tanque. Disse ao primeiro frentista que vi e logo entrei na loja de conveniência. Peguei dois energéticos e um chocolate, Diamante n***o, e passei rapidamente pelo caixa, tirando meu cartão de débito da carteira. Não demorou muito para estar com a sacola em mãos e, assim que saí da loja, revirei os olhos. Alencar estava encostada na porta do motorista, com os braços cruzados. Ela nunca me obedecia. – Se vamos fazer essa merdå de roubo dar certo, não quero que você fique agindo assim comigo! – Ela disse alto, e eu logo olhei para o frentista. Puxei a manga da minha camisa cinza, deixando a tatuagem da máfia visível para ele. A minha ficava no antebraço, grande o suficiente para ser vista de longe por qualquer um. – Que jeito, Alencar? – perguntei, realmente cansado, com a cabeça doendo. – Você é impossível! – ela respondeu, abrindo a porta do motorista e entrando sem aviso. Não me opus. Apenas dei a volta no carro e me sentei no banco do passageiro. Assim que coloquei o cinto, ela deu partida, focada no trânsito. Suspirei, exausto, e tirei o chocolate de dentro da sacola. Joguei no colo dela e coloquei a sacola no chão, aos meus pés. Desci um pouco o banco e me ajeitei, cruzando os braços. – Estou cansado – avisei, fechando os olhos, querendo dormir, nem que fosse por trinta minutos. – Primeiro me ignora, depois me dá chocolate – ouvi ela murmurar, e sorri de lado rapidamente. Sim, o malditō chocolate era o favorito dela, e eu sabia disso. Não pensei muito, só comprei quando vi. Fechei os olhos, ignorando o comentário dela, e contei até três enquanto respirava fundo. Precisava dormir. $$ – Preciso que fique quieto, meu amor – via minha mãe perfeitamente bem. Com seus cabelos lisos e brancos, sobrancelhas claras demais e o rosto que deveria expressar alegria. Estava roxo pela surra da semana passada. – Não saia debaixo da cama, meu Rubi. No instante em que a porta foi aberta, me enfiei embaixo da enorme cama de casal, agarrei o urso de dinossauro e fechei os olhos, como se isso pudesse me deixar invisível. Ouvi minha mãe gritar. Por mais que ela tentasse não emitir sons, havia dias em que era impossível. Logo depois, seu corpo foi arremessado contra a parede. – Foi fazer o quê na mercearia?! – gritou Wagner, um homem alto, de cabelos pretos e barba por fazer. Metade da minha genética vinha dele, por isso eu era um menino que constantemente sofria bullying. Cabelos brancos e sobrancelhas pretas não eram comuns. – Comprar leite... – minha mãe respondeu com a voz trêmula, levantando-se do chão. – Mentira! Você está fodęndo com aquele homem do caixa, não é, sua pūta?! – E, novamente, minha mãe recebeu um tapa, caindo no chão. – Cadê aquele moleque?! Meus dentes tremiam, não de frio, mas de medo. Se ele me encontrasse, como da última vez em que me escondi no armário, iria me bater. E ele não parava, porque, quanto mais me mandava parar de chorar, mais eu chorava, e mais ele me batia. Eu tinha que ficar quieto, sem fazer nenhum som, ou ele me encontraria... Senti alguém tocar meu ombro, e, sem distinguir o que era realidade ou sonho, agarrei o pescoço da pessoa com tanta força que sentia meu sangue fluir pelos braços. Estava pronto para quebrar o pescoço do infeliz, até que senti mãos delicadas baterem no meu braço, como se rendendo. Fechei os olhos com força e, quando os abri, vi Ana Júlia, vermelha pela falta de ar. Eu a soltei como se estivesse segurando cacos de vidro, e ela caiu no chão, tossindo e me olhando assustada. Isso me fez lembrar da última vez em que ela me deu parabéns no meu aniversário . Mais uma vez, eu estava preso nos meus maldįtos sonhos e só percebi onde estava quando bati a cabeça dela contra a parede, fazendo-a gemer de dor e me soltar. – Caralhö, Alencar! – gritei, notando que a porta do passageiro estava aberta e o carro, estacionado em um lugar meio isolado. – Quantas vezes já falei para não chegar perto de mim quando estou dormindo?! – Meus dedos estavam perfeitamente marcados no pescoço dela. – Da próxima vez, te deixo no carro! – ela gritou, levantando-se com os olhos marejados. – Chegamos. Esfreguei as mãos no rosto e baguncei o cabelo, tentando me puxar de volta para a realidade. Meu coração ainda batia acelerado, e eu sentia o gosto amargo do medo na ponta da língua. Peguei a sacola que ainda estava aos meus pés, tirando o cinto e saindo do carro. Logo percebi que estávamos em um hotel de beira de estrada e caminhei até o porta-malas, puxando minha bolsa e fechando-o. – Já levei seu terno para dentro – ouvi a voz de Ana enquanto a seguia. – Achei melhor um lugar qualquer do que um hotel de luxo, porque se... – Se algo der errado, é o último lugar que vão procurar. – Estávamos em uma missão. Primeiro, ela tinha algo particular para finalizar hoje e, depois, Klein. Fomos ensinados a agir e pensar como criminosos, a mesma cartilha que ela seguia era a minha. Passei pela porta de número dois, no térreo mesmo. Coloquei minha bolsa no chão com cuidado, já que meu notebook estava ali, e tranquei a porta. Analisei o cômodo. Pequeno, como um quarto de motel barato. Havia uma cama de casal e uma poltrona voltada para ela. Uma televisão pequena e um frigobar perto da cama. Nem precisava ir ao banheiro para saber que seria pequeno. – Achei melhor pedir um quarto só... – ela disse, sentando-se na cama. – Mas estou começando a repensar. – Deixa eu ver – falei, e ela me olhou confusa. Logo, me sentei na ponta da cama ao seu lado e puxei seu queixo, fazendo-a erguer o pescoço. – Tô bem – ela tentou puxar o rosto, mas mantive uma certa pressão. Estava vermelho, e provavelmente ficaria roxo. – Dói quando mexe o pescoço? – Fiz com que ela movimentasse a cabeça, analisando seu olhar. Seu silêncio foi minha resposta, e comecei a ficar inquieto. – Está sentindo dor, Ana? – Eu estou bem, Rubens – ela segurou minha mão e afastou-a do rosto. – Temos uma hora para nos arrumar. Vai tomar banho, eu vou depois. Quis socar minha própria cara. Tínhamos sessões de terapia com uma psicóloga uma vez por mês, algo que Makyson obrigava todos os membros de sua equipe a fazer. Claro, os mais antigos, vindos da hierarquia do pai dele, odįava isso. Eu também não gostava, mas seguia as ordens. Quando pequeno, foi o psicólogo que me fez voltar a falar. Agora, era uma mulher que nos atendia, Gislaine. Podia ouvi-la perfeitamente me dizer que não podia passar noites em claro sem dormir, senão os episódios de TCSR ficariam mais agressivos. Não bastava toda a merdå que já tinha vivido, isso ainda me causou problemas pós-traumáticos. Transtorno Comportamental do Sono REM. Uma condição em que as pessoas agem fisicamente seus sonhos vívidos durante a fase de sono REM. Normalmente, durante o sono, os músculos do corpo ficam em um estado de paralisia temporária, impedindo movimentos físicos enquanto sonhamos. No entanto, em pessoas com TCSR, essa paralisia não ocorre, permitindo que a pessoa execute movimentos, muitas vezes violentos ou dramáticos, em resposta aos seus sonhos. Uma merdå que convive comigo desde que minha mãe foi mortå. Senti a água quente nas costas e só então relaxei os ombros. O banheiro era pequeno, como eu havia imaginado, sem box, apenas uma pia. Mas pelo menos tinha água quente.
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