• Capítulo 17 •

1260 Palavras
Uma hora exata foi o tempo que Alencar levou para ficar pronta. Quando saiu do minúsculo banheiro, precisei prender o ar em meus pulmões. Ela estava linda, ou perfeita; não sabia ao certo qual adjetivo escolher. Os cabelos, quase sempre soltos, estavam presos em um r**o de cavalo frouxo. Seus cachos pareciam uma cascata de água vermelha, caindo até a metade de suas costas, sem perder o comprimento, mesmo presos. Seus olhos castanhos estavam ainda mais evidentes graças à maquiagem com sombra vermelha. Um batom da mesma cor delineava seus lábios carnudos. O vestido longo moldava cada maldïta curva de seu corpo: o quadril largo, a b***a empinada, a cintura fina, apesar de ela estar com um peso diferente das atrizes e modelos. Os s***s volumosos quase transbordavam do decote em formato de V. Ela usava um colar de prata e brincos longos. Essa imagem ficou gravada em minha mente durante todo o caminho. O motorista que nos levava ao destino era devagar demais; eu precisava respirar. O ar sem a toxicidade do perfume dela, que hoje não era doce, mas um cheiro forte de rosas com algo mais que eu ainda não havia identificado. — Chegamos, senhor — o motorista disse, parando em frente à enorme mansão de festas. O tapete vermelho indicava a entrada. Saí do carro ao mesmo tempo que Ana. Ajeitei meu terno azul, fazendo um lembrete mental de que precisava visitar a costureira. Estava apertado, provavelmente porque eu vinha correndo mais ultimamente. — Lembra de tudo? — ouvi a voz de Ana, enquanto ela se aproximava, ficando na altura do meu ombro, graças aos saltos. — Relaxa, não vou ferrar com seu alvo — respondi, caminhando ao lado dela para dentro da festa. Alencar odįava trabalhar em equipe. Gostava de trabalhar sozinha e era extremamente sistemática. Assim que entramos, reparei no ambiente luxuoso. Logo na entrada, uma pirâmide de taças com champanhe. Mesas espalhadas, onde grupos de pessoas conversavam. Estávamos prestes a entrar, mas assim que o senador notou Alencar, ele não nos deixou ir além da porta, chamando atenção para nós. — Não acreditei quando disse que estaria aqui, Patrícia! — Ele a puxou pela cintura sem cerimônia. Sua voz arrastada indicava que não estava tão sóbrio. Deu-lhe um beijo molhado, demorado demais, próximo aos lábios. — Olá, André — ela respondeu, e eu ergui uma sobrancelha. André? Quanta i********e. — Este é o meu chefe, Marcos. Tive que interromper minhas férias. — Prazer, rapaz — ele finalmente me notou, desviando os olhos do decote dela. — Se eu tivesse uma secretária assim, a arrastaria para todos os eventos comigo. — O trabalho dela é bem eficaz — forcei um sorriso, apertando sua mão com mais força do que deveria. — Pati me comentou que o senhor é sócio de uma imobiliária, certo? — Pati? Olhei rapidamente para Júlia, tentando entender tanta i********e. Eles não ficaram, não é? A missão dela não envolvia sęxo, pōrra. — Sim, estou há um tempo nesse ramo — respondi calmamente. — Herdei a sociedade do meu pai. Nossos nomes sempre estavam vinculados a alguma empresa ou algo do tipo, uma famosa fachada para lavagem de dinheiro. Precisávamos ter argumentos sólidos para justificar tanto dinheiro em nossos nomes, tanto na identidade legal quanto na falsa. Precisávamos de meios legais para realizar nossas transações bancárias. Ana Júlia, por exemplo, era sócia de uma indústria farmacêutica. Ela era formada em química, e eu, em arquitetura. Todos nós que crescemos na sede tínhamos o colegial completo e ao menos uma faculdade. — Me passe os dados depois. Estou pensando em comprar alguns prédios comerciais — apenas assenti em confirmação. — Vou roubar sua secretária por um tempo. — Fique à vontade — respondi mais seco do que pretendia. Ele não disse mais nada, segurando a cintura de Júlia e a puxando para longe de mim. Não queria, mas fiquei parado vendo-o colar o corpo no dela, com a mão perigosamente próxima à sua b***a. Fechei os olhos e me dirigi ao bar. Enquanto caminhava com as mãos nos bolsos, analisava o ambiente. Duas, três, seis. Seis câmeras estavam visíveis ao meu olhar, espalhadas pelo local. Precisava encontrar o servidor do prédio. Observei rapidamente as pessoas ao redor, a maioria senadores, políticos e indivíduos de alto escalão. O evento tratava-se apenas de negócios, nada fora do normal. Uma festa para conversar, negociar e conseguir convites exclusivos. — Vai querer algo, senhor? — ouvi uma voz feminina atrás de mim. Quando me virei, notei uma mulher loira, com o cabelo preso em um coque, vestindo um uniforme preto e branco. Seus olhos azuis me devoraram. — Ou talvez alguém? Ri de seu atrevimento, balançando a cabeça negativamente. — Pode me ajudar com uma coisa, princesa? — ela sorriu largamente, apoiando-se no balcão. — Por duzentos reais, consegue me servir chá todas as vezes que eu pedir uísque? — Sim, senhor — boa menina. — Então, um uísque, por favor — ela saiu rapidamente, provavelmente para a cozinha. Olhei de relance para o jardim e senti meu sanguę ferver de excitação. Alvo localizado. Alfred Klein, cercado por um grupo de homens, como uma carne sendo oferecida aos leões. Senti minhas pupilas dilatarem e minhas mãos formigarem. — Aqui está, senhor, seu uísque com gelo — voltei a encarar a bartender. — Obrigado, princesa. $$ Soltei uma gargalhada forçada enquanto analisava os homens ao meu redor. Não foi nem um pouco difícil chegar à mesa de Alfred Klein. Ele não conhecia ninguém da máfia, exceto Felipe e o próprio Mancini. — Passo o contato da construtora depois para o senhor — disse, terminando meu chá. — Você vai adorar! — Me passa seu número, moleque! Tão novo e genial. — Odįava quando me chamavam de moleque, mas no meio de várias gerações era impossível evitar. Foi tão fácil ter acesso ao aparelho dele, infelizmente. Soltei uma risada e aproximei o aparelho do meu relógio, digitando meu número. Pela quantidade de copos sobre a mesa, era evidente que essa facilidade vinha do álcool. É por isso que eu nunca bebia em público, exceto em lugares ou com pessoas em quem confiava. A bebida nos deixava levemente desligados, perdendo a noção do básico. Diferente da minha parceira de trabalho, que já estava na sua segunda taça de gim. Como eu sabia disso? André Zyuganov a havia levado para fora. No jardim, nas mesas externas, não havia câmeras. Foi então que vi o alvo dela vindo em nossa direção, rindo com os amigos. No momento em que ele deu um tapinha no ombro de um dos caras ao meu lado, vi Júlia mexer no decote com delicadeza e tirar um pequeno frasco de lá. Observei enquanto ela despejava o líquido no copo de uísque e mexia. Depois, fingiu beber, levando o copo aos lábios. Assim que ela colocou o copo na mesa e olhou na direção de seu alvo, seus olhos encontraram os meus. Mesmo à distância, eu podia ver, sob a luz da lua, o brilho intenso de seus olhos. Era um brilho diferente, algo que eu nunca tinha presenciado antes. Uma áurea escura parecia envolver tudo ao redor dela. Passei a língua nos lábios como se estivesse provando um pedaço de carne. Era a primeira vez que atuávamos diretamente como dupla, e a primeira vez que eu via os olhos assassïnos de Alencar. Sentia meu corpo inteiro se arrepiar, o sanguę correndo rápido para uma parte específica. Saí da mesa em que estava sem dar explicações. Caminhei em direção ao banheiro, precisando urgentemente jogar água no rosto.
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