Não conseguia tirar da mente o sorriso diabólico nos olhos de Ana enquanto ela finalizava o que queria. Já podíamos ir embora; ambos conseguimos o que precisávamos.
Eu queria ir para casa o mais rápido possível, precisava me afastar de Ana. Drōga, sua frase provocante ainda queimava em minha mente: "O poderoso Rubens Erdoğan... com medo." O pior é que isso foi dito em um sonho, um malditō sonho real demais para mim.
Assim que saí do banheiro, no pequeno corredor, meu corpo esbarrou em alguém. Quando olhei, vi Alencar com um olhar raivoso, que se suavizou ao perceber que era eu.
— Não sabe olhar por onde anda? — perguntou de forma brincalhona.
— Você é quem deveria prestar atenção — respondi, ambos parados no meio do corredor. — Por que tanta i********e com o senador, hein?
— Meu filho, no dia que você me beijar, você descobre — ela estava prestes a sair rindo, mas antes que percebesse, a puxei pelo abraço, empurrando-a para um canto escondido do corredor. Quando dįabos Ana Júlia ficou tão atrevida? Esse lado desafiador dela me irritava, me consumia.
A surpresa pelo meu gesto estava em seus olhos arregalados, sua respiração ligeiramente descompassada pela proximidade.
— Você e o senador? — perguntei, sem realmente querer saber a resposta.
— Me poupe, Rubens — ela sussurrou para que ninguém que passasse escutasse. — Agora eu tenho que trånsar com todos os meus alvos?
Soltei sua mão, afastando-me um pouco. Mesmo sem querer, senti o alívio crescer no meu peito.
— Vamos — disse ela, e esperei apenas alguns minutos antes de segui-la.
Quando retornei à área externa, o caos já estava instalado. O senador tossia sem parar, e o copo que deveria estar em suas mãos estava em pedaços no chão. Ele apertava o peito, amassando o próprio terno, lutando para respirar. Alencar apenas ficou parada por alguns minutos, observando o homem cair no chão, como se sua mente estivesse reproduzindo a cena em câmera lenta. Vi o sorriso escondido nas profundezas de seus olhos.
— Alguém me ajuda! — ouvi Alencar gritar com a voz trêmula, como se estivesse chorando. — Senhor Zyuganov! — A dïaba começou a chorar? Não acredito! Queria cruzar os braços e rir do seu cinismo, mas não pude.
Caminhei a passos largos em sua direção e, no momento em que envolvi minhas mãos em seus ombros e ela me olhou, vi, mesmo que brevemente, o brilho em seus olhos. Em seguida, voltou a encarar André, agora no chão, ficando vermelho.
— Não sei o que aconteceu, brindamos e eu não sei o que aconteceu! — disse ela em um desespero fingido.
— Calma, senhorita, já chamamos os paramédicos — disse Alfred, e eu a ergui do chão. — A conhece, Marcos?
— Minha secretária, aquela de quem comentei com você, veio comigo — um clarão de lucidez surgiu em seus olhos, como se estivesse se lembrando das coisas que falei. — Todos para dentro!
Ele gritou, e logo a multidão que se formava ao nosso redor começou a ser dispersada pelos seguranças. Não demorou para Ana agarrar meu terno e esconder o rosto em meu peito. Com seus cabelos tão perto, não pude evitar cheirar seus fios ruivos. Fechei os olhos, apertando involuntariamente sua cintura, e ouvi um gemido baixo escapar de seus lábios.
Abri os olhos no mesmo instante, como se estivesse tomando um choque, e olhei na direção de Alfred, vendo-o observar os paramédicos, agora ao lado do senador, caído no chão.
— Não seria melhor levá-la para casa, rapaz? — Klein sugeriu, e eu quase comemorei internamente.
— Patrícia — afastei Alencar pelo ombro, encarando seus olhos desesperados — o que aconteceu?
— Eu... eu não sei — respondeu com as mãos trêmulas, apontando para a mesa. — Nós estávamos brindando e, quando vi, ele começou a ficar vermelho e dizer que seu peito estava doendo.
— Infarto fulminante — disse um dos paramédicos. — Hora do óbito: sete e cinquenta e cinco.
— Melhor tirá-la daqui — Klein tocou meu ombro, observando o estado de Ana.
— Sim, claro — respondi, ainda realmente chocado. Não havia se passado nem uma hora desde que Alencar o atraiu para fora, longe das câmeras e sob olhares desatentos, para então adulterar sua bebida.
Assim que saímos do prédio, atravessando o jardim em direção à porta dos fundos, tirei meu casaco e o coloquei nos ombros de Júlia, apertando-a contra mim, como se estivesse a consolando. Ela ainda chorava, mas parou assim que já estávamos longe da propriedade e um táxi parou à nossa frente.
Assim que entramos, ela manteve a expressão triste, enquanto eu exibia um olhar preocupado. Sabíamos que, se algo desse errado, uma investigação seria iniciada, e o taxista certamente seria interrogado, pois Alencar esteve ao lado do senador a noite toda. No momento em que o taxista nos deixou em frente a um hotel de luxo e eu paguei, senti a tensão abandonar meus ombros.
— Eu fui incrível! — disse ela, rindo assim que o táxi se afastou e nós atravessamos a rua em direção ao meu carro. — Foi engraçado.
— Você é uma dïaba — falei assim que entramos, e ela deu de ombros.
— Decida, meu bem, quer que eu seja seu anjo ou seu dïabo. — Olhei para ela rapidamente, vendo-a limpar a maquiagem borrada com um lenço.
Ana... Ana...
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Ana Júlia Alencar ❦
No instante em que entramos no pequeno quarto de hotel, me joguei na poltrona, enquanto Rubens se sentava na cama. Nós dois estávamos cansados; ele, eu não sei o motivo, só precisava conversar e ser simpático.
Eu, pelo contrário, fiquei o dia inteiro sobre esses saltos, deixando que aquele velho asqueroso passasse as mãos por onde queria em meu corpo. Decidi que iria acabar com aquela palhaçada no instante em que ele tentou me agarrar no corredor do banheiro.
Então, o convenci de que estava com muito calor e queria ir para o lado de fora. O resto foi simples, rápido como tirar um pirulito de um bebê. No momento em que tirei os saltos e coloquei os pés no chão, fechei os olhos suspirando em alívio. Logo que os abri, encarei Erdoğan me observando com o nó da gravata desfeito, os tênis e meias sociais fora de seu pé.
— Abre pra mim... —levantei e caminhei até onde ele estava na ponta da cama, pedindo que abrisse o zíper do vestido. No momento em que virei de costas, sabia que poderia abrir sem problemas, mas as taças de gin e, levando em conta que ainda sentia o êxtase de uma missão concluída, estava mais corajosa do que o normal.
— Sabe, Júlia — senti um arrepio percorrer meu corpo no instante em que percebi sua presença atrás de mim. Tentei dar um passo para frente, aumentando a distância entre nós. Mas sua mão foi rápida, circulando minha cintura e me mantendo no lugar. — você está começando a virar meu įnferno pessoal.
Sorri, balançando a cabeça negativamente, incrédula da mesma forma de mais cedo. De onde ele havia tirado isso? Antes que pudesse continuar pensando no desfecho de seus pensamentos, Rubens me girou pelo quadril. Eu soltei um grito baixo pela surpresa do movimento. Minhas mãos pararam em seu peitoral, e precisei erguer o nariz tentando nivelar nossa altura.
— Me mostre, Alencar. —Do que ele estava falando? — Me beija.
— O que? — perguntei, vendo seus olhos azuis escuros, creio que pelo fato de suas pupilas estarem dilatadas. Senti meu corpo tenso quando sua mão livre segurou o zíper do meu vestido. Se não estivesse sendo segurada pela cintura por ele, me afastaria.
Me afastaria porque sentia meu corpo entrar em chamas, como no dia em que ele me beijou no corredor daquela festa de swing. Fōda-se, foi o que pensei quando ele aproximou seu rosto do meu, ficando um pouco inclinado por conta da diferença de altura.
Levantei meu corpo na ponta dos pés e segurei seu cabelo, quase revirando os olhos ao sentir a maciez dos fios brancos em meu dedo. Fechei os olhos, não pensei, não raciocinei. Apenas tomei seus lábios para mim.
No momento em que nossos corpos se encostaram por completo, senti como se um fósforo tivesse sido aceso dentro de mim. Deixei o desejo pelo que eu sempre quis me dominar; não deixaria a euforia me atrapalhar, não agora. Invadi sua boca com a minha língua e gemi no momento em que ele me deu passagem.
Sua boca tinha gosto de chá mate, enquanto a minha, com gin, parecia fazer uma mistura gostosa. Levei minha mão apoiada em seu ombro para colar ainda mais nossos corpos; se não fosse pelo equilíbrio impecável de Erdoğan, teríamos caído. Meu corpo queria desesperadamente senti-lo.
O beijava com intensidade e, pela primeira vez, estava beijando alguém porque queria. Não por uma missão ou pela insistência de Lotte em uma balada. Mordi seu lábio inferior, puxando-o com gosto para mim, e logo senti sua mão direita apertar minha cintura com uma força que ardeu o local. Logo ouvi o barulho do zíper, mas nem isso fez com que me afastasse dele.
Como se tivéssemos um controle imaginário, Rubens me dominou, virando nossos corpos. Agarrando a raiz do meu cabelo de um jeito firme, me jogou contra o colchão. Seu abraço, antes em minha cintura, segurava metade de seu peso sobre mim. Nunca pensei que diria isso novamente ou sentiria isso outra vez.
Mas o volume de Rubens em sua calça roçava na minha coxa, próxima da minha virilha, e eu queria mais. Mais do que a mão dele em meu corpo, mais do que minha imaginação me entregava; eu o queria tanto. E no momento, nem mesmo a vergonha do meu corpo era maior do que esse desejo ardente.
— Pōrra — ele disse, se afastando, e nossa respiração entrava em um ritmo único, algo descontrolado e ofegante. Rubens finalmente soltou meu cabelo, permitindo que eu deitasse minha cabeça sobre o colchão. No momento em que ele se afastou, analisando minha lingerie de renda vermelha, suas narinas se abriram, e ele fechou os olhos.
Quis me cobrir e sair de baixo dele; a luz acesa permitia que ele visualizasse meu corpo e as pequenas pintinhas espalhadas pelo meu abdômen, algumas perto dos s***s e outras nas coxas. As pessoas normalmente têm sardas no rosto, e eu, mais incomum, ainda tinha elas espalhadas nessas partes do meu corpo.
— Por que você está nervosa? — abri os olhos por conta do tom da sua voz rouca e só então percebi que os tinha fechado, querendo sumir.
— Não estou — tentei ser confiante, falhando miseravelmente.
— Vou te avisar somente uma vez, Ana Júlia Alencar... — ele disse, passando o dedo indicador pelo meu pescoço, ainda sobre mim, segurando seu peso em seu abraço apoiado na cama. — não sou o cara certo para tirar sua virgindade. — Ele disse e senti meu corpo arrepiar com as mãos apoiadas em seu peitoral, tentando esconder meu próprio corpo embaixo dele. — Se soubesse as coisas que imagino fazer com você, entenderia o que falo. — Seu dedo subiu pela minha bochecha, e fechei os olhos, feliz pelo carinho. — Diga para eu me afastar.