• Capítulo 21•

1834 Palavras
Rubens Erdoğan ☠ Balançava minhas pernas embaixo da mesa enquanto mordia a ponta do meu dedão. Makyson mandou chamar Ana Júlia, enquanto Felipe, sentado na ponta da mesa, encarava a parede branca sem piscar. Não podia mentir; primeiro, seria pego na mentira; segundo, respeitava demais Makyson Mancini para fazer isso. No total, tivemos três ataques simultâneos: aqui na sede, na casa de Asimov, onde estavam ele, Felipe, dona Vanessa e Ariel, e na loja, onde estavam Giulia, Gabriela e Gael. Caralhö, fechei a mão em punho, sentindo o cano gelado da minha ärma na cintura. A essa hora, já tinha erguido a manga da blusa marinha social. Além da mulher do Felipe ter sido sequestrada, Ariel passou m*l. As coisas dentro dessa sala não estavam boas. No instante em que vi Alencar passar pela porta, meu coração veio na garganta. Seu rosto estava vermelho, provavelmente de choro, e seu cabelo, preso em um choque. Minha camisa branca social ainda estava em seu corpo, mas agora acompanhada de um shorts jeans. O sanguę seco ainda em sua testa. Ela se sentou do meu lado, e Makyson voltou a se sentar ao lado de Felipe. Asimov me preocupava; o moreno alto, de cabelos cacheados e porte físico perfeito, tinha um olhar distante e frio pra caralhō. — Alencar — Mancini disse, passando a mão no rosto, tentando encontrar calma. — Quem é Victor Zezito Alencar? — Meu tio — respondeu, com a voz firme. — O que ele está fazendo nas filmagens da loja, sorrindo e olhando o estrago que fez? — Senti meu corpo arrepiar com a respiração dela atrás de mim. — Não sei, senhor. — Como ele sabe onde fica a sede, a loja, sem contar a casa da mãe da minha esposa? — Makyson seguiu com as perguntas, enquanto Felipe abria e fechava a mão. — Não sei, senhor. — Como ele soube onde você morava? — Caralhö, Makyson. — Não sei, senhor. — Olhei rapidamente, vendo-a de cabeça baixa. Não, anjo... levanta a cabeça. — Por que existe uma filmagem de vocês dois conversando algumas semanas atrás na frente do prédio? — Voltei a olhar para meu chefe. — Porque ele descobriu quem eu era e pra quem trabalhava. Começou a me ameaçar, pedindo mais dinheiro do que eu já havia lhe entregado. Nesse dia, ele estava ameaçando entregar tudo à polícia. — Ela respondeu, com a voz firme novamente. — Pronto, ela assumiu. — Em câmera lenta, vi Felipe Asimov levantar e puxar a arma; com o som do clique, me levantei, tirando a minha da cintura e puxando Ana Júlia para trás de mim. Segurava firmemente a pistola, mirando no peito do conselheiro da máfia russa. — Abaixa essa pōrra — disse, mordendo os dentes e travando o maxilar para não gritar. Felipe riu descrente. — Você acha que só porque o Makyson te tirou da merdå que era sua vida, você tem algum poder de fala aqui dentro? — Asimov disse, pausadamente, cada palavra, e perigosamente baixo. — Você acha que, só porque considero Makyson meu pai e você parte da família, não atirarei em você se ousar tocar em um fio de cabelo dela? — Perguntei no mesmo tom da sua voz. — Rubens! — Ouvi Mancini gritar, mas não conseguia desviar os olhos de Felipe, sentindo o corpo de Ana tremer atrás de mim. Suas unhas afundavam em meu abraço. Não, não, não. Eles não iriam måtar ela por uma suspeita de traição! Caralhö! Ela estava aqui, não estava? Não fugiu e estava a pōrra do dia inteiro comigo. Como pode ter participado disso?! — Felipe... abaixa a arma. — Mancini disse, entendendo que eu não faria isso enquanto ele não o fizesse. — É uma ordem, pōrra! Os dois, abaixem as armas! — O tapa na mesa fez Ana pular atrás de mim, e, assim como Felipe, piscamos e abaixamos as armas. Mas ainda assim, mantinha-a atrás de mim. — O que garante que ela não está nisso? — Eu. — Respondi seco, ganhando uma risada sem humor de Felipe. — E como garante isso? — Encarei Makyson, sabendo que meu olhar carregava a mesma frieza deles. Afinal, os dois homens na minha frente me ensinaram a ser quem eu era hoje. — Porque, às oito e cinquenta da noite, estava com a būceta dela enterrada na minha cara. — Eu disse, e Mancini fechou os olhos, passando a mão no rosto, nitidamente nervoso. Ele socou a mesa uma, duas, três vezes seguidas. E na terceira, ouvi um soluço escapar dos lábios de Júlia. — Você arrisca a sua vida por ela?! — Felipe perguntou, em pé, com as mãos na cintura, ainda segurando a pistola. — Sim. — Respondi. — Rubens, não. — Ouvi seu sussurro e ignorei. Eu tinha ciência do que estava acontecendo; se fosse comprovado seu envolvimento nisso, eu iria morręr pelas mãos dos homens que me criaram, um fim aceitável. — Júlia, seu celular — Makyson disse, e senti sua movimentação. Logo, seu celular apareceu sobre meu ombro. Peguei e entreguei a ele, que se levantou me encarando. — Se ela estiver traindo a máfia, você mesma vai måtar essa vadïa, entendeu? — Ele mais ordenou do que perguntou, enquanto via uma tristeza escondida em seu olhar. — Sim. — Respondi firmemente. — Seu tablet, notebook e computador do laboratório. — Felipe disse. — Tudo foi entregue nas mãos do Ramon; eu mesma entreguei logo que entrei. — O olhar de Makyson foi para trás de mim e depois voltou em minha direção. Ele repetiu esse gesto por um longo momento até suspirar e sair da sala. Felipe me olhou de cima a baixo e vi um sorriso, mesmo que invisível, sair de seus lábios, e acompanhou seu amigo. Queria xingar, destruir essa sala inteira, socar a parede até sentir o ódįo sair de dentro de mim por completo. Mas a única coisa que fiz foi me virar e abraçar Ana, que começou a chorar compulsivamente. Senti suas pernas perderem a força e ajustei seu peso no meu corpo. Ela soluçava enquanto repetia, perdida em pensamento: "juro". Era a única coisa que ela dizia, e o gosto amargo que veio à minha língua quando ela me contou sobre Victor voltou. Fechei os olhos e estalei a língua, tentando manter meu controle mental. — Rubens! — Ela afastou meu corpo, limpando as lágrimas. — O que você fez? Não vou me perdoar se alguma coisa acontecer com você. Eles podiam ter te matådo, sabia?! Você pode ser o privilegiado que for! Makyson måtou o irmão e Felipe, o próprio tio! O que acha que irão fazer com você? — Me enterrar em uma cova rasa — eu ri, lembrando de uma piada idïota que nós três fizemos em um dia de bebedeira. — Você ainda ri! — Ela me empurrou irritada, arrancando os cabelos. — Pōrra... Iria responder para ela ficar calma, mas logo ouvi batidas na porta. Minutos depois, Ramon entrou na sala. — Rubens, por favor. — Olhei na direção de Ana, não querendo deixá-la sozinha. Se Felipe mudasse de ideia, imaginar Alencar pálida, gelada e com a boca roxa me dava um desespero sobre-humano no peito. — Está tudo bem. — Ela respondeu, forçando um sorriso, e eu mordi os dentes, travando meu maxilar e saindo da sala. Aguardei a arma de volta na cintura enquanto saia da sala. Enquanto seguia Ramon pelos corredores da sede, minha mente não parava nem por um segundo. Ver o pingo de decepção e tristeza no olhar de Makyson pela minha ação me deixava angustiado. Eu devia literalmente minha vida a ele, e faria isso com gratidão. Mancini me ensinou muitas coisas e, principalmente, me fez encontrar sentido na vida quando estava perdido. Felipe, em contrapartida, me fez ver graça nas coisas, voltar a ser leve, brincalhão... Voltar a ser criança. Eu fui o primeiro... fui a primeira criança a chegar na sede. Por isso, meu vínculo com Felipe e Makyson era forte; por isso, sabia de coisas que nem mesmo Ramon sonhava. Por isso, os dois confiavam em mim. Eu não os trairia nem se minha vida dependesse disso. Depois de mim, chegaram Charlotte, Silas, Lisa e, por último, a pirralha. Ana. Por ela, eu matarįa Felipe sem hesitar, mentiria para Makyson sem pensar duas vezes. Porque no instante em que meus olhos focaram em suas mãos pequenas segurando o colar de sua falecida mãe, em seus olhos grandes e cheios de lágrimas, no corpo pequeno e frágil de uma criança, Ana Júlia Alencar roubou meu mundo. Fui seu amigo, seu inimigo e, agora, até amante, se ela quisesse. O fato é que decidi cuidar de Ana no dia em que a vi chorando na porta. “Saia da porta de incêndio, pronto para tomar uma água. Não conseguia dormir e não iria conseguir. Mas no instante em que olhei o visor do elevador, por puro reflexo, já que era a única luz acesa, vi ele parado no térreo. Mesmo sabendo que o certo era chamar Ramon, peguei uma faca de cozinha e logo entrei na mesma porta que saí, descendo em passos lentos para o térreo. Assim que abri brevemente a porta de emergência, não encontre nada suspeito. Estava voltando quando ouvi um choro e uma fungada de nariz. Deixei a faca na ponta da escada e saí, encarando os carros estacionados. Mas logo que cheguei na porta de entrada, travei. A pirralha estava sentada de costas para a porta, descalça e com o pijama rosa no corpo. Olhei em volta, não encontrando ninguém. Assim que cheguei perto dela, a luz automática se acendeu. Ana me olhou assustada, com os olhos brilhando em lágrimas, e um colar com um pingente de lua em mãos. — Quero minha mãe — ela disse, se levantando e tentando ficar na ponta dos pés para alcançar a maçaneta. — Eu quero a minha mãe! — Ela repetiu, chorando ainda mais alto. — Sua mãe não está aqui — eu disse, encarando a figura. — Aonde ela está? — Os pais da pirralha mōrreram em um tiroteio entre facções; por isso, agora ela estava órfã. Como o tiro veio da arma de Felipe, eles não a entregaram ao conselho, e sim a trouxeram para nós, como se estivessem reparando o seu pecado. — No céu agora. — Você parece o Jack Frost... — ela disse, fungando e limpando os olhos. — Já me falaram que minha mãe está lá. Quero ir pra lá... quero minha mãe. — Vamos ver a origem dos guardiões? — me ofereci, querendo que ela parasse de chorar. — Depois você me leva até a minha mãe? — ela perguntou, fazendo biquinho. — Sim, juro. ” E naquele momento, percebi que, por mais que o mundo ao nosso redor estivesse desmoronando, eu não poderia deixar Ana se perder. A promessa que fiz a ela se tornaria meu norte, a razão pela qual eu lutaria, mesmo quando tudo parecesse estar contra nós.
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