Assim que entrei na sala nove, vi Makyson se levantar e Ramon sair na mesma hora. Foram três passos em minha direção e, quando estava perto o suficiente, recebi um soco tão forte que meu corpo cambaleou para o lado. Passei a língua no canto da boca, sentindo meu próprio sanguę. Minha vista escureceu e senti minhas mãos formigarem; queria revidar, pois, depois de anos apanhando, não admitia que ninguém me tocasse mais. Perdia a linha, saía de mim, mas só havia uma pessoa com liberdade para tal ação:
Makyson Mancini.
Dono da máfia russa, da mesma altura que eu, porém com músculos largos e ombros bem maiores. Olhos pretos como a noite, cabelo preto na altura da orelha, igual ao meu; sua barba rala começava a aparecer e sua mão fechava e abria em punho. Sabia que ele queria me bater novamente, mas não poderia. Essa era a segunda vez na minha vida inteira que Makyson tocava em mim dessa forma. A primeira foi quando quase fui preso por uma idiotice de adolescente.
— Você está ficando maluco! — ele gritou alto o suficiente para qualquer um ouvir, e teriam ouvido se o corredor pelo qual passei não estivesse vazio. — Nunca mais levante uma arma para Felipe por conta de uma būceta qualquer!
A raiva borbulhava em meu sanguę. Ódįo por ter enfrentado Felipe e, consequentemente, Makyson.
Ódįo pelo jeito que ele falava de Ana.
Ódįo por ter perdido o meu controle e quase ter feito algo com a ruiva em um hotel à beira da estrada.
Ódįo por termos sido atacados diretamente.
— E se for ela? — sabia que ele se referia ao traidor que sabíamos que havia. Desde a mortę de Caim, sabíamos que havia pessoas que queriam derrubar Makyson; este ataque era prova disso. — Ham? O que foi agora? Você perdeu a língua?
Parei de encarar a parede e me virei para o meu chefe, encarando seu olhar raivoso.
— Não é ela — disse de forma grosseira.
— Por que está comendo ela? — Mancini riu, praticamente cuspindo as palavras.
— Não, Makyson. — continuei sem desviar os olhos do seu. — Desde a noite que cuidei daquela pirralha, eu segui cada passo dela. A perseguia pelas câmeras da casa; sabia e sei de cada missão que você designou a ela. Sei o horário que ela almoça, o horário que toma banho, onde faz suas compras e seu restaurante favorito. Sei por onde passa seu cartão, graças à notificação que chega no meu celular.
— Você hackeou os dados dela? — ele perguntou em choque.
— É o meu trabalho, não é? — perguntei sem humor, ainda sentindo o gosto amargo do ódįo. — No único ano que me afastei totalmente dela, olha a merdå que estamos. — Ri, sentindo meu lado escuro me abraçar. Fazia anos que não caçava alguém por prazer, mas isso iria mudar.
— Ela vai pra prisão — no instante em que o olhei, ele suspirou. — Ou para o seu apartamento, que vai ficar com segurança vinte e quatro por quarenta e oito nas saídas do prédio.
Respondi um total "faz" em questão dos seguranças e peguei a caixa de acrílico, já ciente do meu trabalho. Enquanto caminhava na direção da sala principal, sentia minha cabeça doer.
Victor Zezito Alencar havia cometido um erro. Um enorme erro.
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Ana Júlia Alencar ❦
Rubens voltou com a notícia de que teria que ficar em sua casa; era isso ou a prisão do arsenal. Até terminaram de investigar meu celular. Sabia que quem iria fazer isso não era ele, já que meus aparelhos não estavam dentro da caixa de acrílico entregue a ele. A julgar pelo sanguę em alguns, isso era dos invasores na sede.
Não achei que a casa dele seria uma péssima ideia, até perceber, no caminho para cá, que ele não falou uma palavra sequer. Ele me colocou sentada no banquinho da cozinha, fez o curativo na minha testa e depois pegou a caixa e subiu.
Antes, apenas apontou para a porta no final da escada, e descobri ser um quarto. Pequeno, e de visita, mas confortável para duas pessoas. Nenhum de nós iria passar as noites no arsenal. Silas foi para sua casa, acompanhado dos irmãos Sanchez, e Lisa com Lotte para a casa de Ramon. Não pude ir com elas... Makyson não autorizou.
A julgar pelo jeito que Rubens entrou na sala, me puxando para pelo braço e me jogando dentro do meu quarto, mandando pegar o máximo de coisas que precisasse, deduzi que a conversa deles não foi boa. Resumindo, estava presa. Mas pelo menos tinha uma cama macia e um quarto cheirando a limpeza. Minha cabeça doía, mas já chorei tanto que agora... bem, zero lágrimas.
Levantei, tirando as roupas que cobriam meu corpo, e liguei o chuveiro. Como isso saiu do meu controle... me lembro como se fosse ontem, a voz de Victor em meu ouvido. “— Para, criança, eu sei que você quer — sentia sua língua em meu pescoço e tentava me esquivar de seu aperto. — O titio vai te ensinar uma brincadeira.” Nesse dia, chutei o meio das suas pernas com tanta força e corri.
Corri como se minha vida dependesse disso. Não esperei o elevador e desci vinte lances de escadas correndo em completo desespero. No último degrau, pisei em falso e caí, quebrando meu pé naquela noite e sendo socorrida pelo porteiro que ouviu meus gritos.