POV de Yani
Me afasto de Brian com o coração apertado, carregado de segredos não revelados, e uma pergunta martelando em minha mente: será que ele me aceitará quando souber de tudo? As palavras que nunca disse, os medos que escondi, tudo parece ameaçar nosso vínculo. Caminho lentamente em direção à minha casa, com a mente turva, perdida em pensamentos, quando, de repente, ouço alguém me chamar. Olho para o lado e vejo Rosa, uma das ômegas que trabalha na casa da matilha, segurando um copo de suco nas mãos. Ela sorri de forma gentil.
- Olá, Rosa, como está? – Pergunto, tentando soar tranquila.
- Estou bem, vi você passando e resolvi trazer um copo de suco e um pedaço de torta. Percebi que não comeu nada no festival... – Ela fala, mas há algo em seu tom que me faz desconfiar, algo que não consigo identificar de imediato.
Eu me dou conta de que, de fato, não havia comido nada a noite toda, e o som da minha barriga roncando só confirma isso. Sorrio envergonhada e aceito o lanche, tentando não pensar muito sobre o que ela disse. Quando começo a me virar para seguir meu caminho, ela me interrompe, sua voz um pouco hesitante.
- Preciso levar o copo de volta para a cozinha… – Ela diz, sua expressão ligeiramente desconfortável.
Um calafrio percorre minha espinha, um pressentimento de que algo não está certo. Olho ao redor e vejo algumas pessoas indo embora, mas nada que pareça relevante. Contudo, há uma sensação no ar, algo no comportamento de Rosa que não se encaixa. Olho para ela mais uma vez, e sua alma parece tranquila, como se nada estivesse acontecendo, como se tudo fosse normal.
Engulo rapidamente o lanche, tentando afastar o desconforto crescente, e sigo em direção à minha casa. Mas a sensação de que algo está errado não desaparece.
Falo com minha loba, Yvy, tentando encontrar respostas.
- O que você acha que aconteceu? Não vi nada de tão suspeito.
- Devemos ficar de olhos bem abertos – ela responde, com uma seriedade que me deixa alerta. – Nosso companheiro é um alfa. Alguém provavelmente já tinha planos para ele.
Sinto um arrepio, e minha mente começa a trabalhar mais rápido, tentando entender o que pode estar acontecendo. Olho para trás, mas Rosa já se afastou, e não posso deixar de sentir que algo sombrio está prestes a acontecer.
- Vamos ficar mais atenta – afirmo, decidida a não deixar passar nenhum detalhe.
A caminhada em direção à minha casa era uma jornada silenciosa e aconchegante, envolta pelo manto da noite. O vento fresco das árvores sussurrava suavemente, tentando acalmar meus nervos em alerta. Mas a tranquilidade era uma ilusão passageira.
À medida que avançava, sentia meu corpo pesar, como se as próprias sombras estivessem me puxando para baixo. Minha língua estava presa, incapaz de articular uma palavra, uma súplica desesperada por ajuda. Estava sozinha, completamente à mercê do desconhecido. Sem contato com minha lobo.
E então, sem aviso, o chão some debaixo dos meus pés. Caí, impotente, enquanto duas figuras emergiam das sombras. Os passos deles ecoavam na noite, um ritmo sinistro que anunciava minha desgraça.
Seus rostos eram desconhecidos, mas as intenções, claras. Uma voz, dura e implacável, fala de dívidas e dinheiro, me deferindo um chute brutal. O outro, hesitante, ficava apenas de longe em silêncio.
Estava paralisada, mas meu cérebro gritava por socorro. Estava à mercê desses estranhos, sem defesa, sem voz. O mundo ao meu redor era uma névoa de medo e desespero. E eu estava presa no centro, incapaz de escapar.
A voz do homem ecoou na noite, uma ameaça c***l e implacável: "Quero meu dinheiro, agora!" O outro hesitou, mas foi silenciado por um grito feroz: "Cala a boca e ajuda-me!"
E então, o inferno se desatou. Um chute violento me atingiu, e uma dor agonizante explodiu em meu corpo. Senti ossos quebrando, meus olhos lacrimejavam, e sangue jorrou de minha boca e ouvido. Estava sendo espancada, torturada, meu corpo despedaçado por golpes brutais.
Meu mundo se reduziu a uma agonia infinita, um suplício que não cessava. Senti meu corpo fraquejar, minhas forças se esvaindo. Não podia me defender, não podia escapar.
E então, ouvi as palavras que selaram meu destino: "Agora é hora de me deliciar nesse seu corpo lindo." O homem se preparou para me violar, e eu senti meu espírito se quebrar.
Mas, num último momento, uma voz gritou meu nome. Era uma voz desesperada, uma voz que buscava me salvar. Mas era tarde demais. A escuridão me envolveu, e eu me deixei levar, minha consciência se apagando num mar de dor e terror.
Aos poucos, volto à realidade, sentindo aquele cheiro maravilhoso que preenche o ar, uma brisa suave do mar acariciando meu nariz. Então, percebo uma mão segurando a minha direita. Tenho a certeza de que é Brian, a sensação das faiscas elétricas são inconfundíveis. O som dos aparelhos ecoa ao meu redor, como se eu estivesse em um hospital. Será que morri? Penso comigo mesma, incapaz de encontrar forças para abrir os olhos.
Ouço sua voz, suave como um sussurro, quase desesperada: "Volta para mim, meu amor, por favor." O calor de suas palavras aquece meu coração, mas algo dentro de mim se revira. "Não terei piedade de quem fez isso com você," ele diz, com uma ferocidade que não combina com a suavidade do momento.
A escuridão me envolve novamente, levando-me de volta ao vazio.
Com esforço, abro os olhos devagar. Vejo um teto branco, e o som familiar dos aparelhos de um hospital. Quando meus olhos se ajustam, percebo onde estou – o hospital da alcateia. Olho ao redor, e vejo todos ali: Brian, seus pais, Sueli, Anderson, Tina – minha melhor amiga –, Cadênce e sua mãe, e outras pessoas que não reconheço. Algo está estranho, e não consigo ver suas almas, como se algo estivesse faltando.
De repente, uma voz interrompe meus pensamentos: "Ela acordou, Brian!" Ele, que estava segurando a minha mão com tanta força, se vira automaticamente, seus olhos fixos nos meus.
"Está tudo bem, meu amor. Estou aqui com você," ele diz, e suas palavras são como um abrigo, uma promessa de que nada pode nos separar. Meus olhos se enchem de lágrimas. "Você sabe quem fez isso com você?" Sua pergunta me pega de surpresa, mas antes que eu possa responder, uma sombra escura se aproxima de nós, e algo dentro de mim diz que preciso falar com Brian a sós.
Com uma voz fraca, quase impercetível, como um suspiro, tento pedir: "Quero falar a sós com você." Eu sei que todos ouvem, porque somos lobisomens, e nossa audição é muito mais aguçada que a dos humanos. Brian me olha, como se estivesse lendo meu pedido silencioso em meus olhos.
"Todos para fora!" Ele ordena, com uma autoridade inconfundível, e vejo o orgulho nos olhos de seu pai. Todos saem sem hesitar. Brian se aproxima de mim, pegando minha mão com mais suavidade, e diz: "Apenas diga o que preciso saber. Vou estar sempre com você."
Com um suspiro, e uma dor que aperta meu peito, digo, quase sem voz: "Lembra que eu precisava te contar algo sobre mim?" Uma lágrima escapa dos meus olhos, e o medo da rejeição me consome. Ele acena com a cabeça, demonstrando que se lembra, e então, com uma coragem que ainda não sei de onde veio, continuo:
"Então... sou mestiça. Minha mãe era uma bruxa, e meu pai, um lobisomem." Brian me olha nos olhos, seus lábios tocam os meus com uma ternura que só ele sabe dar. Ele sussurra: "Não vejo isso como um problema, eu te amo do jeito que você é." As palavras dele aliviam a dor em meu peito e me dão força para compartilhar mais.
"Encoste sua testa na minha e olhe nos meus olhos." Ele me olha com um olhar confuso, mas segue o que peço, e seu toque na minha testa me dá a sensação de que estamos conectados, de que nada mais pode nos separar. Fecho os olhos, e me concentro na situação, abro os olhos e digo:
"Eu, Yani Evans, quero compartilhar com você, Brian Miller, o acontecimento que vivi. Você, Brian Miller, meu companheiro, aceita ver o que vi e sentir a dor que senti?" Digo as palavras de forma solene, quase me entregando novamente à escuridão que se aproxima, mas ainda espero. Seus olhos brilham com uma intensidade que me atravessa.
"Eu, Brian Miller, seu companheiro, aceito sentir o que você sentiu e ver o que você viu." Ele diz, sem piscar, com uma firmeza que me traz paz. O mundo ao nosso redor se dissolve, e sinto a escuridão me abraçar mais uma vez.