POV Robert Miller
Estava sentado em meu escritório, afogado em pilhas intermináveis de trabalho, o peso da responsabilidade apertando cada vez mais o meu peito. Foi então que o som de uma batida na porta interrompe minha concentração. Era ela. Eu sabia. O aroma inconfundível de bolo de chocolate recém-assado invadiu o ambiente, despertando em mim uma saudade de tempos mais simples, mais tranquilos.
– Amor, posso entrar? – A voz dela, suave, mas com um tom de algo não dito, de algo escondido.
Respondi através da nossa ligação mental, algo comum entre lobisomens:
– Claro, Matilda. Não precisa pedir permissão, você sempre teve um lugar aqui, no meu coração e neste espaço, digo em um tom brincalhão.
Um sorriso bobo se formou nos meus lábios, sem querer, como sempre acontece quando penso nela. Mas algo estava errado. O tom em sua voz, aquele toque de incerteza, me fez levantar a guarda.
– Robert, temos visita. Soraia veio nos visitar. – Ela me disse, o olhar sério, carregado de um peso que me deixou inquieto, como se o ar tivesse ficado mais denso ao redor de nós.
– Bom dia, Soraia, – falei, tentando manter a calma, escondendo o turbilhão de sentimentos que começava a crescer dentro de mim. – Que bom vê-la. Como está? O que a trouxe até aqui, tão cedo?
Meu sorriso era apenas um disfarce. Uma tentativa vã de esconder a preocupação que já tomava conta de mim.
– Bom dia, Alfa, – Soraia respondeu, sua voz profunda e grave, como se cada palavra carregasse o peso de uma revelação que eu não estava preparado para ouvir. – Vim retribuir o favor que me fez há muitos anos. Quando me acolheu e cuidou de minha filha, mesmo sabendo que eu era uma bruxa.
Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago. Eu sabia o que ela queria dizer. O que me fazia agir não era a dívida, mas a compaixão. Eu tinha ajudado porque enxerguei a necessidade dela, não por esperar algo em troca. Mas as coisas, às vezes, não são tão simples.
– Soraia, – respondi, com a voz controlada, – a senhora não me deve nada. O que fiz foi por escolha, porque sabia que você precisava de ajuda, não porque esperasse retribuição.
Ela me olhou profundamente, seus olhos escuros refletindo uma sombra de algo que não podia traduzir em palavras.
– Eu sei disso, – ela disse, pausadamente, como se ponderasse cada sílaba. – Mas o que vim dizer hoje… não cabe a mim decidir.
Meu coração começou a acelerar, uma sensação de que algo grande e iminente estava prestes a acontecer. A tensão no ar era palpável.
– O que houve, Soraia? – perguntei, a voz escapando com uma preocupação que não consegui esconder. – Você viu algo?
Soraia fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como se as palavras que estava prestes a dizer fossem carregadas de um peso insuportável.
– Faz uma semana que sonho com Brian, – ela começou, e a cada palavra eu sentia o gelo se espalhar em minhas veias. – Vejo tristeza e morte em seu futuro. Ontem justo quando a data do festival bateu à meia-noite, tive outro sonho… Ele sorria, triunfante, segurando a mão de uma mulher que não era Cadênce. Presumi que ele encontraria sua companheira hoje. Você precisa decidir, Robert. Você deve decidir se ele participará ou não do festival. A deusa da lua nos deu a oportunidade de escolher, mas o que eu posso fazer é apenas alertá-lo.
O ar ao redor parecia ter congelado. A informação que ela me trazia tinha o poder de destruir tudo que eu pensava saber. A visão de Soraia era clara, e não havia como ignorá-la.
– Fico grato, Soraia, – respondi, tentando controlar a tensão em minha voz. – Sei que os sonhos das bruxas podem mudar o destino. E você teve coragem de me avisar… isso, de alguma forma, significa muito para mim.
Matilda, que até então estava ao meu lado, colocou uma mão sobre o coração e outra na boca, visivelmente afetada pela conversa, pelos mistérios que estavam se desenrolando diante de nós.
– Nunca me pediram nada, – disse Soraia, com um olhar de sinceridade profunda, enquanto caminhava em direção à porta. – Eu precisava retribuir. Precisava fazer algo por vocês.
Ela fechou a porta suavemente atrás de si, e eu fiquei em silêncio por um momento, tentando processar tudo o que acabara de ouvir.
Matilda me olhou, seu olhar profundo, cheio de perguntas não ditas.
– Não se preocupe, – respondi, a voz agora mais grave, tomada pela determinação que emergia dentro de mim. – Eu sei o que deve ser feito.
Mas, no fundo, sabia que o caminho à frente seria sombrio, cheio de escolhas que iriam me definir para sempre.
As horas arrastam-se de forma insuportável, e minha mente se recusa a se concentrar. Sei que é a hora de ele decidir, mas as sombras do passado, com sua força insidiosa, ameaçam me puxar para trás. Se a mãe de Cadênce não tivesse se empenhado tanto em ajudar Matilda durante o parto e em sua recuperação, os dois não teriam sobrevivido. E ela... ela perdeu seu filho, sacrificado por um esforço que ultrapassou seus limites. Como se não bastasse, ela me fez uma promessa amarga, uma promessa que eu aceitei com o peso da culpa me esmagando. Se ela engravidasse de uma menina, seu filho deveria se casar com ela. Eu aceitei, acatando aquela exigência que, no fundo, sabia ser uma prisão silenciosa, uma dívida de honra.
Depois que Matilda se recuperou, confessei a ela o que havia prometido, e a reação dela foi como um golpe no peito. Ficou furiosa, magoada. Dizia que seu filho nunca saberia o que era ter o amor verdadeiro de uma companheira. E, no silêncio que se seguiu, fiquei perdido, consumido por dúvidas que eu não sabia como resolver.
Sempre temi o momento em que Brian completaria 18 anos, o dia em que ele poderia encontrar sua companheira. O medo de ele não se casar com Cadênce me atormentava, e mais ainda, via nos olhos dela, o vazio em seus olhos, a falta de humildade, a busca incessante por poder. Será que eu poderia privá-lo da mesma felicidade que eu vivi com Matilda? Isso seria justo? Enquanto essas questões me corroíam, meus passos, automáticos, me levaram até o quarto de Brian. Depois da traição de Cadênce, mudei tudo. A mobília, as pinturas no corredor, tudo. Nada poderia mais permanecer igual.
Bati na porta, mas não houve resposta. Uma das ômegas, com vários lençóis no braço, passava pelo corredor e, ao me ver, fez uma leve pausa.
– Está procurando seu filho, Alfa? – perguntou, com um olhar curioso.
Acenei afirmativamente, e ela respondeu sem hesitar:
– Ele está no jardim.
Segui seu gesto e, ao chegar ao jardim, o vi. Brian estava sentado no balanço, com as costas voltadas para mim, mas mesmo assim, sentia sua inquietação, sua tristeza invadindo o ar ao nosso redor.
– Brian, está tudo bem? – perguntei, tentando esconder a preocupação, disfarçando minha percepção da dor que ele carregava.
Ele virou lentamente a cabeça, tentando esconder a dor atrás de um sorriso forçado.
– Claro, pai. Cadênce acabou de sair daqui, dizendo que já escolheu o vestido de noiva e que amanhã preciso acompanhá-la para decidir o que vamos servir no jantar – respondeu com uma alegria forçada que me cortou o coração.
Sentei-me ao seu lado, o peso do mundo sobre mim. Olhei para ele com mais intensidade, as palavras saindo quase como um suspiro.
– Filho, você sabe que te amo mais do que tudo, não é? – Ele me olhou surpreso, o olhar confuso, quase desconfiado. – Se você tivesse a chance de encontrar sua companheira, o que faria?
Ele suspirou profundamente, sua expressão fechada, como se estivesse pronto para defender a honra de um juramento feito.
– Não aceitaria, pai. Não posso. Eu já sou comprometido com uma companheira escolhida, que salvou a vida de minha mãe. Não posso deixar isso passar. – Sua voz, firme e convicta, era uma tentativa de encobrir a insegurança que eu via em seus olhos.
Eu respirei fundo, meu coração apertado. Levantei a mão, tocando seu ombro com suavidade.
– A ligação entre companheiros, meu filho, não é algo que se possa controlar. É uma sensação que vai além do que conseguimos entender. Você não pode viver sem o outro, não pode sorrir se o outro estiver triste, não pode dormir se o outro estiver preocupado. O amor entre companheiros é indescritível, é uma chama que queima forte. E ao me permitir forçá-lo a casar contra a sua vontade, eu te privei de tudo isso… – Minha voz quebrou, e eu senti a dor profunda das palavras não ditas. – Sinto muito, filho.
Ele me olhou, tentando manter a compostura, mas os olhos denunciavam a tristeza que ele estava forçando a esconder.
– Está tudo bem, pai. Eu sou forte. Sei que será o certo a fazer... – Ele tentou sorrir, mas os cantos de seus lábios vacilaram, e eu vi a tristeza refletida em seu olhar, mais forte do que qualquer palavra.
Eu me levantei, meu peito apertado com a necessidade de corrigir os erros do passado.
– Quero que participe do festival hoje, meu filho. Se vista da melhor forma, impecável. Tenho uma surpresa para você. – Meu sorriso foi uma tentativa de suavizar o peso do momento. – Sua mãe está me procurando. Vou indo agora, mas até daqui a pouco, tudo bem?
Antes que ele pudesse fazer mais perguntas, me afastei, o coração pesado, a mente turvada. Eu sabia que o destino estava à minha porta, mas o que fazer quando o amor é uma escolha entre dever e desejo?