Maria José
Da estação de metrô, pude ver a torre Marlow, um imponente edifício de vidro e aço que se erguia sobre o restante do horizonte financeiro de Toronto. Quarenta e cinco andares de poder e prestígio. Era tão alto que tive que inclinar a cabeça para trás para ver onde terminava, e por um momento senti vertigem.
Cheguei vinte minutos antes das nove. Queria ser pontual, mas não parecer desesperada. Parei em frente à entrada principal, observando o meu reflexo nas enormes janelas. Eu tinha escolhido meu melhor conjunto: uma saia preta na altura do joelho, uma blusa branca que eu tinha passado três vezes e um blazer azul marinho que eu tinha comprado em uma loja de segunda mão, mas que parecia quase novo. Meu cabelo castanho, que normalmente usava em uma trança simples, hoje caía liso até a cintura, recém-lavado e escovado com esmero.
— Você pertence a esse lugar. Eu disse para mim mesma, tentando me convencer. — Você é tão capaz quanto qualquer pessoa.
Respirei fundo e atravessei as portas giratórias.
O saguão era uma sinfonia de mármore, cristal e luz. Que só tinha visto em filmes. Executivos com ternos impecáveis e mulheres com saltos que custavam mais do que o meu aluguel mensal cruzavam-se em todas as direções, falando ao telefone ou entre si com aquela confiança que só o privilégio pode dar.
Aproximei-me do balcão da recepção, onde uma mulher loira com um fone de ouvido me olhou com expressão neutra.
— Bom dia. Tenho uma reunião às nove com Recursos Humanos. Eu disse, tentando que o meu sotaque fosse o menos perceptível possível. — A senhorita Martina Marlow me enviou.
Ao ouvir o sobrenome Marlow, a sua atitude mudou sutilmente. Endireitou-se no assento e o seu sorriso tornou-se mais gentil.
— Claro. O seu nome?
— Maria José Ramírez.
Ela digitou algo no computador enquanto continuava a olhar tudo com absoluto espanto.
— Perfeito, senhorita Ramírez. O senhor Carson está esperando-a no 30º andar, escritório 3005. Ela me entregou um cartão de acesso temporário. — Este elevador a levará diretamente.
Ela apontou para um dos elevadores no fundo, separado dos outros. Um elevador de funcionários, supus.
— Obrigado.
— E bem-vinda à Marlow Industries. Ela acrescentou com um sorriso profissional.
O elevador era como uma cápsula do tempo. Em menos de trinta segundos, ele me transportou da minha realidade de estudante bolsista para um mundo de oportunidades que eu só tinha visto em filmes. As portas abriam-se diretamente para um corredor elegante com paredes de madeira escura e fotografias a preto e branco de aviões, automóveis e barcos.
A sala 3005 tinha uma placa dourada que dizia "Philippe Carson - Diretor de Recursos Humanos". Bati suavemente.
— Entre. Respondeu uma voz masculina do interior.
Entrei num escritório espaçoso com vistas panorâmicas da cidade. Atrás de uma escrivaninha de carvalho estava um homem de cerca de cinquenta anos, cabelos grisalhos e óculos de armação fina. Ele se levantou para me receber com um aperto de mão firme.
— Senhorita Ramírez, bem-vinda. Sou Philippe Carson.
— Muito prazer, senhor Carson. Obrigado por me receber.
— Sente-se, por favor. Ele apontou para uma cadeira em frente à sua escrivaninha. — A senhorita Martina falou muito bem de você.
Sentei-me, tentando manter as costas retas e as mãos paradas no meu colo.
— É muito gentil da sua parte.
Carson me observou por cima dos óculos enquanto abria uma pasta.
— Conte-me sobre a sua experiência e formação.
Durante os próximos vinte minutos, expliquei a minha trajetória acadêmica, os meus trabalhos anteriores e os meus conhecimentos em contabilidade e administração. Ele fazia anotações ocasionais e assentia, mas sua expressão não revelava muito.
— Com a sua permissão, preciso fazer algumas ligações para verificar referências. Ele disse finalmente. — Importa esperar alguns minutos?
— De jeito nenhum. Respondi, tentando controlar o movimento exagerado das minhas pernas, um gesto que eu fazia quando estava extremamente nervosa.
Saiu do escritório, deixando-me sozinha com os meus pensamentos e nervos. Pela janela, eu podia ver toda a cidade, minúscula daquela altura. Em algum lugar, lá embaixo, estava a minha casinha, minha vida. Eu realmente poderia pertencer a este mundo?
Carson voltou quinze minutos depois com uma expressão diferente. Mais relaxada, quase satisfeita.
— Bem, senhorita Ramírez. Falei com o reitor da sua faculdade. Ele disse que você é uma estudante excepcional, está dentro do 1% superior da sua turma.
Senti que as minhas bochechas esquentavam.
— Tento dar o meu melhor.
— Também entrei em contato com os seus empregadores anteriores. Todos concordam que você é responsável, eficiente e honesta. Ele fechou a pasta e olhou diretamente para mim. — A posição que temos disponível é de Auxiliar Contábil no nosso departamento contábil. Estaria sob a supervisão direta do Sr. Anderson, nosso Contador Geral. Interessa-lhe?
O meu coração batia tão forte que eu temia que pudessem ouvi-lo.
— Claro, senhor Carson. É exatamente o que eu estava procurando.
— Excelente. Ele tirou um contrato da gaveta da escrivaninha dele. — O salário inicial é de 55.000 dólares anuais, com revisão a cada seis meses. Jornada completa, de segunda a sexta-feira, com seguro médico completo e duas semanas de férias pagas por ano. Parece-lhe aceitável?
Tive que fazer um esforço para não ofegar. Cinquenta e cinco mil dólares. Seriam 4.500 dólares mensais. Era mais do que o triplo do que eu ganhava no supermercado. Com esse dinheiro eu poderia enviar mais para meus avós, talvez até para um apartamento melhor.
— É mais do que aceitável, Sr. Carson. Obrigado.
— Não me agradeça a mim, mas sim ao seu talento e à Martina. Ele sorriu levemente. — Agora, se me permite, vou levá-la ao departamento de contabilidade para apresentá-la à sua nova equipe.
Assinei o contrato com as mãos trêmulas e segui Carson por um labirinto de corredores até chegar a uma área ampla com cubículos e escritórios fechados. Na entrada havia uma placa que dizia "Departamento Contábil".
Carson me conduziu até um escritório com paredes de vidro onde um homem de uns quarenta anos revisava alguns documentos com expressão concentrada.
— Anderson? Trago para você a sua nova auxiliar.
O homem levantou os olhos e sorriu. Ele tinha um rosto amigável, com pequenas rugas nos cantos dos olhos que revelavam que ele sorria com frequência.
— Na hora certa. Estamos até o pescoço de trabalho. Levantou-se e estendeu-me a mão. — Robert Anderson. Bem-vinda ao caos organizado.
— Maria José Ramírez. É um prazer conhecê-lo.
— O prazer é meu. Especialmente se você puder nos ajudar com toda essa montanha de relatórios que precisamos terminar até sexta-feira.
Carson se despediu, deixando-me nas mãos de Anderson, que imediatamente começou a me explicar a estrutura do departamento.
— Temos cinco auxiliares contábeis além de você. Três mulheres, dois homens, todos jovens e bastante capazes. Você se dará bem com eles. Guiou-me pelo escritório aberto. — Vou te designar para a equipe que está preparando os relatórios trimestrais para a reunião de sexta-feira. É prioridade absoluta.
Ele me apresentou aos meus novos colegas um por um: Lisa e Rachel, duas garotas canadenses que pareciam ter saído de um catálogo de moda. Yvonne, uma mulher de origem asiática com expressão séria. Michael, um jovem afro-americano com um sorriso permanente. E Bill, um homem alto, de ombros largos e olhos verdes intensos, que me olhou de uma maneira que me fez sentir de repente consciente de cada centímetro do meu corpo.
— Bill te colocará a par com os procedimentos. Disse Anderson. — Ele tem mais experiência do que os outros.
Bill assentiu e me indicou que o seguisse até seu cubículo.
— Então você é a amiga de Martina Marlow. Ele comentou, oferecendo-me uma cadeira ao lado da sua escrivaninha. — Você deve ser especial. Nem todo mundo recebe o apoio da princesa da família.
Detectei um leve tom zombeteiro na sua voz.
— Eu m*al a conheço, na verdade. Estudamos na mesma universidade.
— Bom, de qualquer forma, você caiu no momento perfeito. Estamos tentando reconstruir os relatórios financeiros dos últimos três trimestres porque o nosso contador-chefe anterior era... digamos, criativo com os números.
Ele me mostrou os arquivos no seu computador, explicando a estrutura de dados e os procedimentos da empresa. Era um sistema complexo, mas não muito diferente do que eu havia estudado na universidade.
— Você se sente confortável com isso? Ele perguntou ao terminar a sua explicação. — Sei que pode ser avassalador no primeiro dia.
— De jeito nenhum. É bastante lógico uma vez que você entende a estrutura.
Comecei a trabalhar imediatamente, revisando colunas de números e detectando discrepâncias nos relatórios anteriores. O tempo passou voando enquanto eu me aprofundava nos dados.
Na hora do almoço, eu já havia identificado três erros significativos nos relatórios do trimestre anterior e preparado uma planilha corrigida com as projeções atualizadas.
— Isso é... impressionante. Disse Bill, revisando o meu trabalho. — A maioria dos novos leva semanas para entender o nosso sistema.
Dei de ombros, tentando não mostrar o quão orgulhosa eu estava.
— Gosto de números. Sempre contam uma história se você souber ouvi-los.
Bill me olhou com uma expressão nova, com surpresa e algo que parecia ser admiração.
— Definitivamente você é especial. Ele murmurou, mais para si mesmo do que para mim. — Vamos, a equipe costuma almoçar junta no refeitório do 15º andar. Você vai se juntar a nós, não é?
Durante o almoço, os meus colegas me bombardearam com perguntas sobre a minha origem, meus estudos, como conheci Martina. Bill, sentado em frente a mim, m*al participava da conversa, mas não desviava os olhos de mim.
— O seu cabelo é lindo. Comentou Rachel. — Nunca tinha visto uma cor tão intensa e brilhante.
— E os seus olhos são fascinantes. Acrescentou Michael. — São pardos ou dourados? Mudam com a luz.
Me senti desconfortável com tanta atenção. Na universidade, a minha aparência "exótica" (como alguns a chamavam) tinha sido mais motivo de exclusão do que de admiração.
— São simplesmente olhos de colombiana mestiça. Respondi com um sorriso nervoso.
— São lindos. Disse Bill, e a sua voz soou diferente, mais suave.
À tarde, Anderson passou pelo meu cubículo para verificar o meu progresso e ficou de boca aberta ao ver as correções que eu tinha feito.
— Você detectou essas inconsistências? Ele perguntou, apontando para a tela.
— Sim, senhor. Os números não batiam com as projeções de vendas do departamento de marketing. Parece que alguém inflou a receita esperada para o último trimestre.
Anderson tirou os óculos e esfregou os olhos.
— Maria José, você acabou de me poupar semanas de trabalho. Ele me olhou com entusiasmo. — Não sei como não vimos isso antes.
— Às vezes é mais fácil detectar erros quando se olha para tudo com olhos novos. Respondi, tentando não soar pretensiosa.
No final do dia, eu havia revisado e corrigido dois relatórios completos e começado um terceiro. As minhas costas doíam de tanto tempo sentada, mas eu me sentia mais viva do que nunca. Pela primeira vez desde que cheguei ao Canadá, senti que estava realmente utilizando o meu potencial.