Episódio 5

1430 Palavras
Ao sair do prédio, Bill me alcançou no saguão. — Você impressionou a todos hoje. Ele disse, caminhando ao meu lado em direção à saída. — Especialmente o Anderson. E ele não é fácil de impressionar. — Só fiz o meu trabalho. — Não, você fez muito mais do que isso. Ele parou e olhou para mim fixamente. — A maioria vem aqui, recebe o cheque e vai embora. Você... você entende realmente os números, você os sente. A sua intensidade me deixou nervosa. — Obrigado, suponho. — Alguns de nós vamos tomar alguma coisa na sexta-feira depois do trabalho. Para celebrar se sobrevivermos à reunião com os diretores. Você gostaria de vir? Era a primeira vez em quatro anos que alguém do trabalho me convidava para sair socialmente. Sempre fui a estrangeira, a que não se encaixava, a que comia sozinha no intervalo.‌ — Adoraria. Obrigado. Ele sorriu para mim, e notei que tinha uma pequena covinha na bochecha direita. — Genial. Nos vemos amanhã então. Enquanto esperava o metrô para voltar para casa, revisei o meu telefone. Tinha três mensagens: uma do Paulo perguntando como tinha corrido tudo, outra da Martina com emojis de comemoração e uma terceira da minha avó perguntando se eu estava bem porque não tinha ligado no dia anterior. Respondi a todos, guardando para o final a melhor notícia: não só tinha trabalho, mas finalmente havia encontrado um lugar onde o meu talento era apreciado. Onde importava mais o que eu podia fazer do que de onde vinha. Ao chegar na minha casinha, encontrei uma goteira nova no teto. Mas em vez de ficar deprimida, sorri. Logo eu poderia me permitir um lugar melhor. E o mais importante, este mês haveria remessa para os meus avós, mais generosa do que nunca. Adormeci pensando na satisfação de ver Anderson impressionado com o meu trabalho e na estranha sensação de que, pela primeira vez, as peças da minha vida estavam começando a se encaixar. O que eu não sabia era que em poucos dias conheceria o verdadeiro chefe, o homem que mudaria o meu destino para sempre. ****** Quase uma semana eu já trabalhava para a Marlow Industries e nunca me senti tão feliz e útil num emprego. Meus colegas já me tinham feito parte da equipe, como se eu estivesse com eles há anos e não apenas há alguns dias. Rachel sempre me trazia café de manhã, Mike dividia os seus doces comigo, e Bill... Bill sempre encontrava desculpas para passar pela minha mesa. Anderson, meu chefe, não parava de se surpreender com o meu trabalho. "Vejo muito potencial em você", ele me disse na quarta-feira enquanto revisava como eu havia resolvido quase 50% dos erros nos relatórios anteriores. Sentia-me orgulhosa de mim mesma, embora tentasse não mostrar demais a minha satisfação. Finalmente chegou a tão esperada sexta-feira, dia em que Anderson deveria apresentar um novo relatório a Julian Marlow, o implacável CEO da empresa, a quem todos chamavam de "o tubarão". A tensão pairava no ar enquanto todos revisávamos os números pela última vez. — Maria José. Chamou-me Anderson ao seu escritório naquela manhã. — Estou impressionado com o seu trabalho nesses relatórios. O meu coração deu um salto, pensando que ele me pediria para acompanhá-lo na apresentação. — Obrigado, coloquei todo o meu empenho nisso. Respondi com um sorriso. — Inicialmente pensei em te levar comigo para a reunião com Marlow, já que foi você quem resolveu a maioria dos erros... Senti um formigamento de emoção, mas sua expressão me advertiu que havia um "mas" a caminho. — No entanto. Ele continuou. — Você é muito nova e não quero chamar a atenção dos chefes ainda. Marlow poderia... interpretar as coisas de forma errada. Então levarei o Bill, que é mais antigo. Concordei compreensivamente. Não me importava realmente. Estar trabalhando tão à vontade numa empresa tão prestigiada como a Marlow Industries era mais do que suficiente para mim. Além disso, eu entendia o que Anderson queria dizer: uma mulher jovem ascendendo rapidamente sempre despertava suspeitas em certos ambientes. — Entendo perfeitamente. Assegurei a ele. — Bill conhece bem os procedimentos. Quando Anderson e Bill saíram do andar para subir até a presidência, onde seria a reunião, todos nós ficamos esperando, continuando o nosso trabalho, mas com a mente focada naquela reunião. Eu não conseguia me concentrar. Roía as unhas e os lábios, um gesto que sempre me delatava quando eu estava muito nervosa. — O CEO é tão ru*im assim? Perguntei de repente, quebrando o silêncio. Rachel, que estava na empresa há mais tempo, fechou os olhos por segundos, e esse simples gesto revirou ainda mais o meu estômago. Não precisava de palavras para entender a sua resposta. — Dizem que ele é um tirano. Respondeu Lisa da sua mesa, sem levantar os olhos do monitor, como se temesse que mencionar o CEO pudesse invocá-lo. — Vocês o conhecem? Ele sempre vem por aqui? Perguntei, roendo a unha do polegar até quase me machucar. Ivone, a garota asiática que sentava na minha frente, balançou a cabeça negativamente. — Nunca jamais veio ao departamento, ele não desce da presidência jamais a não ser que seja de vida ou morte, tudo ordena com apenas um estalar de dedos e tem na frente dele. Ela afirmou com segurança. — Oh não, espera, sim, uma vez... só uma vez em todos esses cinco anos eu o vi cruzar o corredor da contabilidade. Ela corrigiu depois, como se lembrasse de algo. — Eu nunca o vi. Interveio Lisa. — Estou aqui há um ano e nunca o encontrei. Rachel, que pelo que sabia estava na Marlow Industries há dez anos, fez um gesto peculiar com a boca, entre divertido e assustado. — Eu fui com o antigo contador às reuniões, a poucas, mas ele me levou. Ela comentou, e automaticamente todas paramos o que estávamos fazendo para prestar atenção. — E então? Perguntamos quase em uníssono. — É verdade que é um tubarão. Começou Rachel, baixando um pouco a voz. — É implacável, audaz, qualquer um que o vê se levantar treme, é alto e intimidador, olha fixamente para cada detalhe do rosto de quem está explicando algo. Nem pisca. O seu cenho sempre ligeiramente franzido. Inclinei-me sobre a minha mesa para ouvir melhor. — Nunca o vi sorrir, na verdade, quase ninguém tem esse "privilégio". Ela continuou, fazendo aspas com os dedos. — Ele tem um olhar tão frio que arrepia cada pelo da sua pele. Senti uma sensação estranha no peito ao ouvir o que Rachel explicava. Uma mistura de medo e curiosidade inexplicável. — É jovem? Perguntei. — Eu tentei procurá-lo nas redes, mas não tem nada, nem fotos, nada. É como se fosse um fantasma. Acrescentei porque era verdade, não havia nada dele. — Só dos seus irmãos. — E você nunca o verá. Respondeu Ivone, girando a sua cadeira para nós. — Dizem que ele odeia fotos, odeia aparecer em público, nem mesmo tem um bom relacionamento com a mãe e a imprensa tem um acordo tácito, é estritamente proibido tirar fotos e postar algo sem o consentimento dele. Já processou uma revista uma vez e a revista perdeu milhões. Desde então, ninguém nunca mais publicou nada sobre ele. — Uau, ele parece ser um ogro de verdade. — Mas a fraqueza dele é a irmã mais nova e os dois irmãos, Thomas e Sam. Continuou Rachel, como quem compartilha um segredo de estado. Mordi o lábio enquanto ouvia tudo o que diziam sobre ele. Este misterioso Julian Marlow parecia mais uma lenda urbana do que uma pessoa real. — Ele é jovem e muito atraente. Acrescentou Rachel com um brilho nos olhos. — Teria os seus 35 anos mais ou menos, tem o cabelo preto com pequenas mechas brancas nas têmporas que o fazem parecer muito atraente. Juro a vocês que o que ele tem de tirano, ele tem de lindo, o infeliz. Todas rimos sem poder evitar, aliviando momentaneamente a tensão. — Dizem que ele tem problemas de saúde por causa do estresse. Continuou Rachel, já em pleno modo fofoca. — Há quatro anos, ele quase morreu, segundo contam, mas ninguém sabe o que aconteceu, só a família dele. A sua vida é tão privada que ninguém sabe nada sobre ele. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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