CAPÍTULO CINCO — ANGELINE

2657 Palavras
Ando a passos mais longos e rápidos do que ensinam que a Princesa deveria dar, mas eu necessito sair dessa sala de jantar o mais rápido possível. O olhar do Príncipe George já me inquieta de uma maneira que é bem difícil de entender, e ele faz questão de olhar para mim a cada cinco segundos. Mesmo assim, não foi isso que me fez sair quase correndo de lá, mas sim, quando o Príncipe pediu autorização ao meu pai para caminhar comigo no jardim ao pôr do sol. Para o meu desespero, meu pai permitiu. — Angeline, pelos céus, se acalme. Está me deixando tonta. — Rose comenta, eu caminho pelos meus aposentos de um lado para o outro. — Como eu vou me acalmar? Esse homem é um impróprio! Quem se senta no trono do rei e descaradamente flerta com a filha dele? As três gargalham. Rose, está sentada na cadeira da minha penteadeira. Jan e Cate estão jogadas na minha cama, com os pés para cima balançando e se divertindo com a minha tragédia. — Oh, minha doce e bela Princesa... — Eu lanço um olhar furioso para Cate parar de zombar de mim e ela levanta as mãos em sinal de rendição. — Alteza, tem que concordar que um dia esse trono será dele e bom... Você será sua esposa, então o que o pobre Príncipe fez de tão errado além de conhecer seu futuro lar e se aproximar da futura esposa? — De que lado vocês estão? — Cruzo os braços e franzo o cenho, parando de costas para as portas de vidro da varanda. — Se existem lados, sempre estaremos do seu, Angel. — É a vez de Jan comentar. — Mas tenho que concordar com a Caterine... Dê uma chance a ele. — Eu não posso recusar esse casamento, mas ele sim. Ele é homem e poderoso, apenas uma palavra dele e esse casamento... — Faço sinal de desaparecer no ar com as mãos. — Mas não. George é como qualquer monarca que não se importa com quem vai estar ao seu lado, ele não liga se eu quero ou não esse casamento, ou se quero caminhar ou passar tempo com ele. — É assim que você se sente? — Rose se preocupa. Ela é a mais velha de nós mas ainda assim não é velha, tem vinte e sete anos. A Cate tem dezenove afoitos anos, e a Jan, vinte e dois. — Não sei como me sinto. — Cedo as lágrimas, sentindo meu corpo tremer como se eu estivesse tendo um ataque epiléptico. Todas se levantam com os rostos assombrados e me direcionam até minha cama, sento com elas ao meu lado. Venho tentando ser forte, pelo menos na frente delas mas agora tudo se acumula dentro de mim e explode como uma granada. — O que podemos fazer por você? Diga e eu farei, qualquer coisa. — Cate joga sua cabeça no meu ombro e me abraça, as outras meninas também me rodeiam. — Mesmo que seja considerado traição, eu juro que farei. — Minha maluquinha... — Sorrio entre as lágrimas e olho para baixo, podendo notar o rosto dela ficando vermelho. — Não há nada que vocês possam fazer, nada que ninguém possa. Ninguém além... — Do Príncipe George. — Jan entende. — Por isso toda essa raiva dele? Você esperava que ele cancelasse a união? — Rose questiona, aceno positivamente com a cabeça, ganhando um incômodo olhar de pena.— Oh Angel... Não tenho certeza se isso é possível para ele também. — O que quer dizer? — Sou curiosa. Todas esperamos a explicação de Rose, que respira fundo. — O Príncipe é um homem... vivido... Por assim dizer. — Jan, Cate e eu nos entreolhamos tentando entender. — Quero dizer... ele é viajado, conhece o mundo inteiro, já se divertiu com mulheres e amigos... Digamos que os princípios e leis em Bulmond não são tão conservadoras quanto são em Hyperion. — ELE É UM p********o! — Grito. — IREI ME CASAR COM UM p********o! — Talvez isso não seja tão ruim... — Caterine sussurra baixinho, ganhando a reprovação de Rose e Jan. — O Príncipe não é p********o, Angeline. É um rapaz de um reino liberal que gosta de se divertir. E bom, os países que não vivem na monarquia também não tem leis tão machistas e conservadoras. Apenas Hyperion parece ter permanecido em décadas atrás, com nossos ancestrais. — Explica. — O ponto é... Não acredito que esse casamento também seja o sonho do Príncipe. Ele é jovem e perdoe-me dizer mas... muito belo... Ele poderia continuar correndo o mundo, sem leis, sem compromisso, sem a responsabilidade de comandar dois reinos ao lado de uma mulher que não o ama. — Então porque ele está fazendo isso? — Seco minha lágrimas. — Isso não sou eu que posso responde-la. Mas talvez... Angel, eu preciso concordar com a Jan. Talvez deva dar uma chance ao Príncipe. — Acham que ele também não quer esse casamento? — Questiono, elas dão de ombros me deixando pensativa. — Talvez eu possa convencer o Príncipe a desistir do casamento! — Não foi bem isso que eu quis dizer. — Rose avisa. — Me pergunto o que você quis dizer então... — Que ele também tem uma responsabilidade, assim como você. — Explica. — Você está abrindo mão de seu coração por Hyperion, ele está abrindo mão da sua liberdade. Os dois estão no mesmo barco, então talvez possam aprender a conviver em paz. — Prefiro a minha opção. — Aviso. Todas gargalhamos, mas na verdade, eu falei sério. As minhas damas me prepararam bem para meu primeiro encontro oficial com o Príncipe. O belo vestido cor de rosa tem um ar romântico, ombro a ombro, bem ajustado por cima do espartilho e saias que arrastam ao chão, também contando com alguns fios de ouro bordados a mão. Rose fez uma bela trança embutida em toda a extensão dos meus fios castanhos e cheios. Os brilhos são delicados pontinhos de diamantes, combinando com a minha tiara coberta pela mesma pedra preciosa. Não sei bem como me comportar com o s**o oposto, visto que meu contato com homens não foi nada vasto, pelo contrário, quase nulo. Por isso, meu coração sempre saltita perto de George, as responsabilidades que temos, meu medo a cada gesto, é inquietante e terrível ter que repensar cada frase ou ato. Nesse momento volto a pensar em Tristan, estranhamente aquecendo meu coração e um sorriso bobo se forma em meus lábios. Foi diferente com ele. Me lembro do sorriso dele e de como tudo foi leve, descontraído. Com ele eu não precisei ser nada além de mim mesma, não a Princesa, mas a Angeline. Não quem querem que eu seja ou quem as minhas responsabilidades para com meu reino me forçam a ser, mas quem eu queria ser. Por onde ele anda? Eu ainda estou em seus pensamentos, mesmo que por um estante? Ou o meu belo e livre entregador de cabelos castanhos e covinhas adoráveis já se esqueceu de mim? Meu coração se aperta. — Alteza? — Ouço batidas na porta, reconheço a voz de Caterine. — Está na hora. Fico de pé, respiro fundo recobrando meus sentidos e volto para a realidade. Caterine me acompanha até os pátios do palácio, cada passo é uma nova tortura. Quantos malditos minutos eu terei que ficar ao lado desse filhote de Rei metido? Pensei estar em agonia, mas tudo só piora quando avisto George parado frente as portas que levam ao jardim. — É aqui que nos despedimos, Alteza. — Avisa Caterine, meus olhos crescem. — Por tudo que é mais sagrado, não me deixe aqui sozinha. Por favor, acompanhe-me no passeio. — Imploro, me controlando para não me ajoelhar aos pés dela e causar um estardalhaço por a Princesa se ajoelhar perante sua dama de companhia. — Infelizmente, não tenho permissão para isso. Você consegue, Angel. O pior já passou, lembre-se. — Princesa? — Fecho os olhos em desespero ao ouvir a voz firme me cumprimentar. Caterine vai se afastando e decido me virar com um sorriso falso no rosto. — Eu sempre ouvi os comentários sobre a Princesa escondida, a pérola de Hyperion e o quanto a beleza da senhorita é um pecado aos olhos e impossível de ser descrita em palavras. Mas... Definitivamente nada me preparou para isso. Que diabos eu devo dizer agora? Eu coro. Um simples “Obrigada” seria suficiente para suas palavras? Eu o encaro surpresa, não era algo assim que eu esperava. Na verdade, estava pronta para escutar alguma brincadeira ou algo sarcástico, mas a sinceridade nos olhos azuis e no sorriso cortês me assusta. É exatamente esse o meu medo. Não fui ensinada a agir perto de homens e muito menos a receber tais elogios deles. Odeio me sentir uma i****a como me sinto agora. — Vossa Alteza é muito gentil, obrigada pelas palavras. — Desço os olhos evitando seu olhar e torcendo para que minha voz não falhe no momento errado. — Mas “escondida” não é bem a palavra certa. — A mim parece que sim. Não esconderam você nesse lugar? — George começa a andar tranquilamente e eu o acompanho para fora do palácio, em direção ao jardim. Os raios alaranjados do sol da tardinha fazem muito bem a ele, os olhos tão bonitos que deviam ser proibidos de serem olhados refletindo na claridade natural, os fios também tomam um tom mais claro e a pele parece ainda mais saudável. George veste uma calça social simples de cor preta e uma camisa branca, sem gravata e os punhos puxados até os cotovelos. Apesar dos tecidos caros e o relógio visivelmente inalcançável para muitos, ele parece uma pessoa “normal”. Quero dizer, poderia ser um empresário, ou apenas alguém indo a um bar ou festa chique. Ele não usa uma coroa ou algo do tipo. Isso me faz sentir desconfortável com a forma que fui preparada. — Não fui exatamente escondida como dizem e me apelidaram. O fato de não terem visto meu rosto foi uma mera coincidência e quanto mais tempo passava mais as pessoas ficavam curiosas. — Explico. — Todo esse frisson ao redor de mim é apenas curiosidade. — Mera coincidência? — Aí está a ironia. — Exatamente. Não fui necessária nos eventos fora do palácio e eu não saio para o reino por p******o. Já nas festas, meu pai decidiu me preservar após os comentários sobre a minha beleza começarem. — Então você está presa por ser muito bonita? — Na verdade... Por causa de um futuro casamento. — Ele para de andar por alguns segundos, me encara surpreso e torna a andar esperando que eu continue. — Para evitar os inúmeros pedidos de casamento, ou ao menos diminui-lo, minhas participações em bailes e recepções foi restrita. Mas sim, eu participava de algumas ocasiões importantes. — Sempre sem nenhum fotógrafo presente, até... — Até minha maior idade e a confirmação do nosso compromisso. — Sinto-o desconfortável e contorcer a cabeça para o lado, é minha vez de parar de caminhar. Quando ele nota, para frente a mim. — Perdoe-me, Alteza, mas algo o incomoda? — Angel, eu ... Princesa Angeline. — Se retrata como se tivesse feito algo errado. — Eu sou um pouco mais velho que a senhorita, tenho vinte e oito anos. Também venho de um reino diferente e bom... Você é só uma garota. — Não é minha intenção te deixar desconfortável, me perdoe. — Abaixo a cabeça, mas sinto meu coração gelar quando ele toca meu queixo e me faz olhar para ele. — Pare de pedir tanto perdão, você é uma Princesa. — E você será meu Rei. — As palavras escapam sem que eu possa conter, ou pensar. Nesse momento eu percebo, George pode não ser tão r**m e eu não estou mais repensando cada passo ou palavras. Noto um brilho estranho em seus olhos e um sorriso satisfeito em seus lábios, que me deixa com frio desconhecido na barriga. Tento abaixar novamente minha cabeça na esperança de fugir de seu olhar, mas seus dedos ainda seguram meu queixo erguido. — E você a minha Rainha. Deve saber que eu nunca esconderia você em nenhum palácio, ou propriedade. — Suas palavras saem doces dos lábios bem feitos. — E com certeza, ao meu lado você sempre seria necessária. — Por favor, Alteza... Não diga coisas assim para mim... — Viro de costas para ele, buscando ar e um alento para meu coração que dispara como um furacão. — “Assim...”? — Sinto ele próximo a mim, alguns centímetros de tocar seu corpo ao meu e penso se me virar foi uma boa ideia. — Quando me elogia dessa maneira, ou diz coisas tão bonitas... Não me ensinaram a como reagir. — Ouço seu riso, não zombando, mas como que com uma espécie de encantamento. — Como eu disse, somos muito diferentes. Eu sei que a senhorita deve ter muitos sonhos e um casamento assim não faz parte deles. Mas, nós dois temos responsabilidades a cumprir. — Eu sei. — Busco forças e bruscamente viro e o encaro. — Alteza, se desejar, pode impedir este casamento. Quero dizer, se nós dois não queremos isso, você é quem pode impedir. — Sinto muito. Também nunca foi meu desejo forçar uma mulher a se casar comigo, mas esse tipo de aliança faz parte do nosso modo de vida. — Há outras Princesas, outros reinos, mais poderosos que Hyperion. — Uso minhas últimas forças. — Se desejar seguir em frente com este casamento eu cumprirei meu dever para com meu Rei e o meu reino, mas se disser que não, devo dizer que não seria r**m para mim romper o compromisso. Você teria mais tempo antes de escolher uma esposa para viver a vida que deseja, e eu... Talvez eu consiga convencer meu pai que Hyperion não precisa de um Rei de outro reino. — A ideia de viver ao meu lado é tão h******l assim para a senhorita? — Há uma certa decepção nos olhos dele. — Per... — Paro antes de completar minhas desculpas ao ver o olhar repreensor nos olhos dele e lembrar do que ele me disse há alguns instantes atrás. — Eu apenas tinha sonhado em me casar com quem já tivesse conquistado meu coração. Encaro o chão novamente enquanto espero que ele me repreenda por estar sendo egoísta e pensar em mim e meu coração, ao invés de pôr o meu reino em primeiro lugar. Ou espero uma risada, ele caçoar da menina tola que acredita em amor. — Então que assim seja. — Volto a encara-lo que está com uma expressão tranquila agora. — O que disse? — Meu queixo cai. — Será como deseja. — Está... Desistindo do compromisso? — Também não. — Sorri de canto. — Eu não sou de fugir de um bom desafio. — Pode ser mais claro, Alteza? — Irei conquistar seu coração, Princesa, antes de tomar sua mão. — Respiro fundo. — Caso eu não consiga, tem o direito de me dizer para ir embora. Se disser que devo ir, eu irei. — Está me dando o poder de desfazer esse casamento? — Ele concorda com a cabeça. — Apenas me dê um pouco de tempo e uma chance. Se eu conquistar seu coração, você será minha esposa. Se não, uma palavra sua e eu desmancho o compromisso. — Me estende a mão, como que fechando um simples acordo. Mas na verdade, é um acordo que pode mudar totalmente as nossas vidas.— E então? Concorda? — Ainda incrédula, sentindo que as palavras fugiram da minha boca, coloco minha mão na dele. — Mas me prometa que vai tentar comigo. — Eu prometo...
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