Jogue os dados,
Se você for tentar, vá até o fim, ou então, nem comece.
Uma vez me disseram isso. Uma vez, disseram isso, para uma garota com medo. Essa garota era eu.
E eu mergulhei, mergulhei de cabeça, mergulhei sem medir a profundidade do perigo, mergulhei sem saber a proporção das consequências.
O barulho do aço enferrujado grunhi às minhas costas, deduzo a dizer que nunca mais esquecerei esse som perturbador. Vez ou outra, eu juro escutá-lo na calada da noite ou de manhã cedo, quando posso tomar um pouco de sol e fingir que estou na praia, mas quando não escuto o som do mar, lembro que estou no inferno. As algemas apertam meus pulsos me lembrando que não tenho tanta mobilidade depois das grades, lembrando-me o quão inútil sou, por não poder fazer nada em prol da minha pessoa. Já não sou aquela garotinha com medo, há muito tempo tive que me tornar uma mulher, apesar de que, o medo ainda habitava em mim, eu só não tinha a opção de mostrá-lo, de deixá-lo me consumir como o fogo consome um cigarro aceso, pouco a pouco.
Faz muitos dias que não me sinto bem, mas também não me sinto m*l, e é esse meio termo que me apavora.
Eu deveria estar feliz, deveria mesmo ansiar pelo o que me espera aqui fora, mas não sinto, eu não sinto absolutamente, nada.
— Hanna Elizabeth...? — a mulher com olhos pretos e farda cinza me encarava, esperando que eu completasse com meu sobrenome final.
Odeio o Elizabeth, na minha opinião, que de nada vale, esse nome não combina nada com o primeiro e se eu pudesse o extinguiria e usaria apenas o meu primeiro nome junto com o último sobrenome, mas a questão é que, ele não existe. O sobrenome da minha mãe era Elizabeth e hoje, ele é tudo que tenho.
— Apenas Hanna Elizabeth.
Seus olhos demoram nos meus, ela possui a típica expressão que todos tem quando eu explico isso: ela é uma garota sem pai. E sou. Por alguns anos, isso me maltratou, mas hoje não mais, acredite, não dá para ter saudade de alguém que você nem sequer já viu ou teve um certo tipo de vínculo, agora sofrer pela partida de alguém que você amou, é bem mais doloroso. É quase intragável.
Respiro de maneira impaciente, quando escorrego minha atenção ao seu crachá, Eliza, tem escrito nele com mais dois sobrenomes acompanhando, bem... além da coincidência de nomes parecidos, têm algo diferente de mim, ela aparentemente tem um pai. Seus dedos voltam a preencher a ficha na sua escrivaninha, isso me deixa inquieta, quase que ansiosa. Receio ouvir da sua boca que não vou ter o que tanto quis ter um dia, minha liberdade, por isso quando ela me manda seguir em frente, penso ter ouvido alguma piada.
— Ande, garota. — ela aponta com a caneta para a terceira porta que preciso cruzar, depois jogando um saco, com todos os meus pertences antigos dentro, nas minhas mãos que, por pouco não amparam. Eu nem lembro mais de ter alguma coisa, além de uma mesma roupa velha e laranja que vestia todo santo o dia. — Se demorar mais, vou entender que quer ficar.
Quero? Não sei. O mundo lá fora me parece mais medonho do que garotas disputando absorventes e liderança dentro da cadeia.
Pego o que ela me deu e vou ao banheiro me trocar. Olho no espelho borrado do banheiro imundo, observo minha silhueta dentro da minha calça skinnie que se transformou em uma sacola cobrindo minhas pernas extremamente finas, abatidas pela magreza, a minha jaqueta de couro é única a peça mais descolada que tenho no momento, o motivo: eu só tenho ela, juntamente com as minhas botas surradas que gritam para serem deixadas no lixo.
Meus pés começam a traçar o caminho da saída, apesar de que meu corpo não tem tanta certeza se é isso que ele quer, minhas mãos soam e meu estômago esfria, principalmente quando me deparo com o ar gélido de uma manhã recém começada.
Fecho os olhos e me permito sentir o ar arejado que o mato ao redor de Westwood trás, antes eu só sentia o odor de cimento úmido que grandes paredes de concreto da cadeia me traziam.
— Hey, v***a. — de longe escuto a voz de Ivy me chamar, olho a frente e vejo a garota com seus longos cabelos pretos, acenando para mim, dentro do seu carro aos pedaços.
Ela abre a porta com cuidado e caminha com seus tênis brancos, impecáveis, desviando das poças de lama que a última neblina da madrugada trouxe. Ivy é a louca da limpeza, não me admira ela fazer tal coisa.
Seus braços finos passam em torno dos meus ombros, pela primeira vez vejo ela não se importar com o cheiro de defunto impregnado na minha roupa não lavada há meses. Ivy é a louca da limpeza, seu toc não permite que nada esteja em desordem.
— Como senti sua falta! — permito-me dizer quando afundo meu rosto na curva do seu pescoço. Ela rir, com aquela sua risada que a faz soltar barulhos estranhos pelo nariz. Ivy costuma ter vergonha desse som, mas não quando estamos juntas.
— Você não mudou nada. — ela mente.
— Fala sério? — sou um saco de ossos andando de forma desajeitada.
— Não. — ela solta mais uma risada, me apertando mais ainda no seu abraço. — Você tá com cara de quem tá com ressaca. Eu só não sei o que dizer para alguém que está saindo da cadeia agora.
Sinceramente? Nem eu sabia. O que fazer quando dez meses da sua vida foram perdidos? Dez meses onde você deveria está vivendo o ápice da transição de jovem i****a para jovem um pouco mais velha e menos i****a.
— Ivy, o que mudou?
Seus braços me soltam e seus olhos me olham desentendidos.
— Do que você fala?
— Do mundo em sí. O que mudou?
Trezentos e cinco dias. Para ser mais exata, trezentos e cinco dias e quatro horas. Tempo suficiente para a terra quase dar um giro completo e mudar o percurso. Onde estou e pelo o crime que, supostamente, cometi, não me permitiram ter visitas, nem mesmo um advogado pude ter o privilégio de ter é de contar todos os erros que fiz, então, se a Ivy me disser que a Rihanna se tornou a presidente da república, eu irei aplaudir de pé e cantar Man Down fervorosamente.
— Ah. — ela limpa as mãos no seu jeans, e força um sorriso amarelo, transpassando a emoção que eu não previa. — Não muito. As coisas continuam uma merda.
— E cadê a Maya?
Éramos sempre nós três. O céu, o inferno, e o meio termo, considerado o purgatório. Segundo a doutrina católica, precisamos de um equilíbrio para organizar as almas perdidas, e é assim que nós somos, o equilíbrio uma da outra. As meninas más que burlavam o sistema da lei. Que lutavam contra o universo. As boas garotas que não se importavam com nada, além de manter a má reputação que nós rondava frequentemente.
Me admirava, minha amiga não ter vindo me ver.
— Ela estava ocupada, no trabalho.
Tento esconder a surpresa. Da última vez que lembro de nós trabalhando, não me gera bons sentimentos e Ivy sabendo disso, me conduz até o seu carro, abrindo a porta para mim, e não é querendo ser carvalheira, mas sim porque se eu mesma fizer isso com toda a delicadeza que não tenho, com toda certeza um pedaço do carro cairá no chão. Ela se senta no banco do motorista e não troca mais olhares comigo, se mantendo em silêncio, um silêncio irritante.
— Não me faça perguntas, Hanna. — decreta, colocando os cintos, checando o retrovisor. — Maya pediu desculpas por isso e disse que a sua noite vai ser digna de alguém que não bebe há dez meses, ela tem uma surpresa para você na ala oeste da UCL.
— UCL? — Praticamente dou um pulo no banco de couro, não conseguindo conter a felicidade em cada letra quando pronuncio. — A faculdade?
Ivy confirma com um sorriso orgulhoso pendente nos lábios.
— É. Nossa amiga é uma universitária agora. Aliás, nós duas somos e você também será.
Na verdade, eu deveria já ser. Eu tinha acabado o colegial quando tudo aconteceu. Quando minha juventude foi miseravelmente roubada das minhas mãos. Então, o sorriso se foi.
— Não tô em clima de festa. Amanhã vejo ela. — jogo meu olhar para a janela, escutando o carro implorar por troca de marcha. — Ela está trabalhando com o que?
Ivy se cala por incontáveis três segundos. A conheço suficientemente bem, para saber que tem algo por trás disso, ou talvez seja só o instinto de desconfiança que se instalou traiçoeiramente em mim.
— Você vai sim, Hanna. — diz por fim, não fazendo questão de responder a minha pergunta sobre a Maya, isso me faz ficar em alerta, principalmente quando ela liga o aparelho de som que mais chia do que toca algo, nos obrigando a nem conversar, contudo mesmo entre chiados, identifico a voz do Jesse de The Neighbourhood.
— Não vou, não. O que vou fazer em uma festa se eu nem tenho onde cair viva agora? — volto ao assunto. — Porque morta a gente cai em qualquer lugar.
Mais uma vez Ivy rir igual um porquinho com fome.
— Deixa de ser boba. — sua mão empurra meu ombro. — Você pode ficar no meu apartamento e... — me contorço no banco, sabendo que a sua pausa na fala é significado de que lá vem coisa. Minha intuição é a minha melhor amiga e nesse momento, ela me fala que Ivy além de esconder algo, está tentando organizar minha vida, assim como ela organiza seu guarda roupa por cores. — Sei de um lugar que estão contratando. Você pode tentar a vaga.
— Eles contratam ex presidiárias? — pergunto sem emoção, ainda atenta as árvores que caminham em direção contrária da do carro. Não olho para Ivy, mas sei que ela revirou seus olhos tão fortes que quase saíram do lugar.
— Você pode tentar a vaga. — ela frisa bem a palavra tentar. — Apesar de que duvido muito que aquele lugar faça uma entrevista de emprego decente, então se anima!
Como eu disse, Ivy planejava algo que não me cheirava tão bem, mas não deixo minha mente me sabotar agora. Apenas quero me deixar contagiar pela louca cantarolando Afraid ao meu lado e tentar enxergar que a vida, pode ser legal quando não se está trancafiada em um cubículo de dois metros quadrados.
••••
Loja de conveniência. Tem escrito bem acima da minha cabeça. Apenas.
Conveniência. Pelo o que eu sei, é aquilo que pode trazer algum benefício para quem utiliza, e eu, sendo a Hanna desconfiada que me tornei nos últimos meses, duvido muito que um lugar jogado às traças tenha algo bom.
Porém, a mesma Hanna que ficou meses comendo gororoba de legumes, pode sequer argumentar esse tipo de coisa. Qualquer coisa que não envolva a palavra "ilegal", é legal para mim.
Preciso de dinheiro. Preciso de muito, muito, muito dinheiro para tirar a Hope daquele lugar. Eu sou a única coisa que ela tem, e preciso fazer jus ao meu papel de responsável, pelo menos uma vez na vida, serei o exemplo de ser humano que ela necessita se espelhar.
— Não temos drogas aqui. — um senhor de um metro e meio me para na porta, assim que o sino toca anunciando minha entrada.
Quem ele pensa que é?
Ergo um pouco o nariz, e ajeito o cabelo atrás da orelha. Me pergunto se estou tão deplorável assim.
— Não busco por isso.
Caminho até ele, forçando o sorriso mais simpático que tenho no rosto. O que obviamente sai calamitoso, eu sou antipatia em forma de gente.
— Me desculpe. — ele ajeita seu avental, e se coloca de joelho, dando mais de sua atenção para a prateleira desorganizada, repleta de frascos de catchup colocados de qualquer jeito. — Ultimamente pessoas muito... — seus olhos apertados com as pálpebras caídas voltam a me olhar dos pés a cabeça, enquanto ele parece procurar as palavras certas para usar. — Parecidas com você tem vindo aqui atrás disso.
O que isso queria dizer nos dias de hoje? Que uma mulher com a pele parda, bonita, esbelta e cabelos cheios tem a aparência de uma viciada? Espero que sim, ao mesmo tempo que não.
— Procuro por um emprego. — digo sem rodeio.
— Isso sim é novidade.
Parece que agora consegui de fato prender a sua atenção, pois ele se levanta com muita dificuldade, me pego o ajudando a se equilibrar, depois me deixando ser conduzida até o balcão pelo mesmo, que ficava bem na entrada da loja, onde tem escrito em letras piscantes e neons: caixa. Vejo sua mão se apoiar na lombar, de como quem demonstra muito cansaço e dor.
— Garotas como você não buscam empregos aqui.
— Por que não? — A pergunta vem de maneira curiosa. Não vejo m*l trabalhar oito horas por dia, organizando condimentos e passando troco. É melhor do que fazer o que me colocou na cadeia, sem sombra de dúvidas.
— O bairro não é muito bem falado e, existe maneiras mais fáceis de conseguir muito mais dinheiro.
Eu sabia que existia, sabia muito bem disso, contudo, não é o que almejo para mim. Não mais.
— Não me importo com isso. Sei fazer muitas coisas, é só me dizer o quê preciso fazer para ter o emprego.
— Fico feliz pelo o mundo não está perdido. — ele continua me analisando, agora com um olhar que beirava pena. — Mas a vaga não está mais disponível.
— Não pode ser. Vi no anúncio que a minha amiga me mostrou, lá dizia que aqui está contratando atendentes.
— E estamos. — suspirou cansado. — A garota que ficava atrás desse caixa sumiu e não me deu mais satisfações, preciso de alguém competente que não falte e nem me traga problemas como ela trazia.
Existia receio em toda a sua fala, não entendo o porque disso, nem sequer eu cogito saber o que aconteceu. Mas acredito em destinos, e se estou aqui, é porque eu deveria estar. Essa vaga é minha.
— Preciso de um emprego e o senhor precisa de alguém que trabalhe aqui. E aqui estou eu, me deixe ficar, e então te mostrarei que serei a melhor funcionária que já teve.
Novamente, ele solta um suspiro mais do que exausto. Prende uma caneta atrás da orelha e me encara de maneira mais desconfiada do que eu encarava Ivy quando ela me buscou na cadeia, talvez seu sexto sentido fosse tão afiado quanto o meu.
— Você não vai me trazer encrenca, né?
Encrenca. Quando entrei na cadeia essa palavra já estava extinta, ouvindo ela agora parece que não se passou tanto tempo assim.
O senhor realmente estava com trauma de algo, mas não faço ideia do que, só sei que irei me esforçar para ter a vida de uma pessoa que se mata de trabalhar e tem dor na coluna só para dar um futuro melhor pra Hope.
— Não.
— De 8 as 8. Começando agora.
— Isso são doze horas de trabalho. — afirmo como se fosse uma pergunta.
— Sim. Por trezentos na semana. — ele joga seus ombros para cima, me entregando o seu avental suado. — Não era você que queria um emprego?
Oh céus. Espero que isso valha muito mais a pena do que ganhar trezentos por hora vendendo drogas.