2. Abençoada

2656 Palavras
Uma vez eu vi em um dos encartes da cadeia que uma mulher viciada em açúcar tem mais dificuldades em engravidar, pois a grande quantidade de insulina no sangue faz com que os hormônios dificultem a produção dos óvulos. Pois bem, ler isso em uma cadeia feminina não fazia tanta diferença assim, pois era humanamente impossível engravidar naquele lugar com apenas mulheres, a não ser que você fosse amiga demais de algum dos guardas ou se o papai Noel fosse muito bondoso e te presenteasse com um doce, ainda sim as chances eram mínimas. Eu sou viciada em chocolate e não é porque isso me impede de engravidar que eu o como, até porque eu nem posso, sofro daquela síndrome chata que me causa cólicas semelhantes a terremotos no útero, mas sim porque o açúcar é o que mais se assemelha a felicidade para mim. Tem coisa mais excitante do que um bombom de chocolate esperando para ser mordido? Óbvio que sim, foi difícil para c*****o ficar quase um ano sem ver um p***o na minha frente, mas com o tempo me acostumei a não ser mais objetificada o tempo todo como costumava ser antes, e homens hoje em dia, é a última coisa que quero ver nesse mundo, principalmente depois de tudo que passei trabalhando para a Donna, hoje faço questão de deixar essas lembranças guardadas na gaveta mais escondida da minha memória. Aquela velha escrota me usou como um produto descartável, fodendo a minha vida na mesma intensidade que fodeu o meu psicológico. Fazem só cinco horas, cinco horas que sai da cadeia, e apenas duas horas e meia que eu enganei um senhor super desconfiado lhe dizendo que eu seria a melhor funcionária que ele já tivera na vida, e cá estou eu, sentada atrás do balcão do caixa, encarando um anúncio sobre o campeonato nacional de dança e me entupindo com uma caixa de bombons de chocolate que roubei da prateleira, e pretendo comer esses e mais outros doces até levada aos hospital por cima glicêmico. Parece que não sou tão boa assim... Isso é quase como uma piada, tendo em vista todas as atrocidades que já cometi na vida, que vale ressaltar, ainda estão guardadas na mesma gaveta escondida do meu subconsciente. No encarte tem uma jovem faze graciosamente um pilé, anunciando que a grande final ocorrerá poucos dias antes do natal. Lembro-me que antes de ser levada pra prisão, eu tinha me inscrito nesse mesmo campeonato no qual o prêmio era uma bolsa para a melhor e maior faculdade de dança da Europa. Então me dediquei, até a Donna se compadeceu com a minha determinação e me liberou para ensaiar durante dias e noites sem parar, eu realmente me empenhei em fazer isso com a mania de perfeição que me perseguia. Ser bailarina era o meu sonho, era algo especial que a minha mãe almejou para mim, trazia esse sentimento comigo desde a minha infância, era a parte boa que sobrou da minha vida, mas até isso, me foi tirado. Agora sou uma ladra de doces e uma ex-bailarina fracassada, não vamos esquecer da parte do ex-presidiária, mas ainda sim, confesso que nunca estive tão feliz na vida. Quero realmente acreditar que essa é a minha chance de começar do zero, mesmo sabendo que no fundo é por pouco tempo, afinal a alegria de pobre dura pouco. Mas e daí? Nunca vi felicidade durar tanto tempo, não mais que alguns segundos. Agradeço a Ivy mentalmente por ter me apresentado esse emprego, queria mesmo ter um celular para lhe mandar uma foto das dezenas de embalagens vazias de bombons que sobraram, mas deduzo dizer que só conseguirei comprar um aparelho de celular novo no meu vigésimo salário e olhe lá. O trabalho em si, é bem pesado, carreguei caixas e mais caixas de variados produtos, minhas costas estão iguais a do Sr. Godoy, que nesse momento, aproveitou para tirar um cochilo nos fundos da loja, acho que ele clamava por isso há tempos. Atendi algumas pessoas, senhorinhas simpáticas e crianças tão viciadas em chocolates como eu. Não me parece o lugar horrível que o senhor ranzinza me transpareceu ser. O sino da porta soa mais uma vez, indicando que alguém havia entrado, então, enfio mais um bombom na boca e me coloco de pé, antes que pudesse mastigar e me deliciar com aquele sabor delirante de um chocolate roubado, mas ao contrário da felicidade do açúcar ou algum cliente esperando atendimento, encontro dois homens. Dois funking homens me encarando. E não... eles não parecem ser da polícia do doce e nem parecem ser dois clientes normais esperando por um troco. Eles esperam por algo muito terrível, e eu sei disso, porque tem uma arma apontada para a embalagem de bombom aberta na minha mão e depois essa mesma arma traça um caminho vagaroso até o centro da minha testa. — Cadê a Beatriz? Ergo as mãos para cima quando um deles me pergunta, nada gentil, aproximando mais ainda o objeto de ferro na minha direção, tenho vontade de tocar o cano da arma e desvia-la do meio dos meus olhos, mas não o faço, porque só consigo raciocinar em duas coisas nesse momento: em como esconder o meu chocolate roubado e quem diabos é Beatriz? — Eu... — Eu não mandei você falar! — o que estava na porta, vocifera contra mim. Ele segurava a madeira para que não se chocasse contra o sino que anunciava clientes novos, os seus olhos grandes e cinzas me escaneavam por completa, como se tentasse achar algo de errado em cada movimento meu, ou a falta de um, mas não me demoro muito nele. Volto a encarar o cara de olhos azuis, com uma cicatriz aparente na sobrancelha. Nunca o vi em tantos anos de vida super bem vividos. Já vi muitos como ele, mas nunca ele. Apesar de ter uma leve sensação de que o conheço de algum lugar dessa terra. Sua jaqueta verde militar se camufla com a T-shirt cinza, os fios dourados cobertos por um capuz, os olhos de águia procurando sua vítima, o cheiro de problema que se exalava de longe. Ele me é familiar, e sentir isso enquanto uma arma é apontada para mim é mais do que estranho. Ao contrário do cara que estava na porta, ele sim, aguardava uma resposta, que não sei se sou capaz de lhe dar, porque tenho a certeza que desaprendi a falar. — Em, garota!? Engulo a saliva com dificuldades, sentindo minha boca secar totalmente. O medo me atinge, mas sou especialista em escondê-lo. — Fala, p***a! — o outro ordena. Me pergunto se ele sofre de algum m*l que o faça ser louco, ou algo parecido. Seu olhar era frenético, típico de alguém que estava sob efeito de drogas. Não me admira, ele tinha, indiretamente, me mandado ficar calada alguns segundos atrás. — Eu não sei! — praticamente grito, nervosa, soltando o resto do chocolate no chão, sem saber ao certo o que fazer. — Claro que sabe! — o cara impetuosamente impassível encosta o cano da arma na minha pele, fazendo meu coração disparar. Recebo isso como uma ameaça, minha memória é fraca para algumas coisas, mas isso... Essa cena... Eu nunca vou esquecer, e nem preciso anotar para me lembrar dela algum dia no futuro. Há muito tempo isso não acontecia comigo. Esse tipo de medo não me atormentava. É verdade que a prática te leva à perfeição, isso serve para situações também, quando você deixa de passar por certos tipos de coisas, sua mente te trapaceia, eu só não esperava ter que distinguir o que era medo e adrenalina, não hoje. — Não. — minha língua se engancha entre os dentes. — Eu não sei. Não sei quem é Beatriz! — A v***a sumiu. — o cara supostamente drogado, alisa seus cabelos platinados, impaciente, enquanto segurava a porta, impedindo que mais alguém pudesse entrar e se deparar com esse show. Me recompus, voltando a respirar normalmente — Eu disse que ela faria isso. — Nem tudo está perdido. — então, a arma apontada é abaixada, meus olhos acompanham de maneira lenta o caminho que objeto brilhante percorre até ser guardada no cós da calça dele, quando ele levanta minimamente sua blusa, me mostrando a ponta de uma tatuagem. 13. O número estava escrito com tinta grossa, entre a sua virilha e o oblíquo. Foi o mínimo, o mínimo para meu sangue que antes borbulhava nas veias, se tornar como gelo. Eu sabia o que isso queria dizer, sabia muito bem, e juro, juro com a minha alma, que preferia não saber. Antes de ser traída pela Donnatela, antes daquela maldita c****a me entregar para a polícia, eu tinha uma história com esse número. Na verdade, nós tínhamos uma história com todos que possuíam essa marca. Nossos inimigos até a morte. Era o que nós, Good Girls, decretávamos, sem pudor, dando a nossa própria alma para o d***o, se fosse necessário, só para vencer essa guerra cravada entre duas grandes gangues rivais, e continuarmos sendo as maiores líderes femininas do sistema de tráfico das ruas londrinas. É bem comum que membros de seitas como essa, possuam marcas pelo seus corpos mostrando que fazem partes de determinados grupo criminoso, como no caso, Os Treze eram compostos por treze caras mau caráters, altamente interesseiros, frios e maquiavélicos. Os nossos únicos opoentes, pelo simples fato da igualdade. Um disputa eterna de quem estava a frente de quem era cravada todos os dias. As vezes eles se davam bem, contudo na maioria éramos nós. Donna, apesar de ser uma grande filha da p**a, ensinou todos os seus truques de mestre para mim, Maya e Ivy e nos quatro juntas, fizemos o Good Girls ser o que se tornou, hoje, só temos o nome registrado na história que marcamos. Eu liderei esde movimento. Diversas vezes, me dei bem em cima do chefe deles, Tyler; atrapalhei esquemas de dinheiro, desfiz acordos com a polícia que o beneficiaria, criei laços com fornecedores onde só a nossa mercadoria fosse a de qualidade na região, planejei estratégias de todos os tipos, para que as aquele grupo de treze caras não passassem de meros delinquentezinhos meia boa. A minha reputação no ramo de negócios ilícitos só crescia, junto com ela, a fama de v***a sem sentimentos com a melhor droga do mercado era exclusivamente minha também, por mérito da Donna e com a ajuda da Maya e da Ivy me dando todo o suporte. Não que eu me orgulhe disso, afinal, se eu não tivesse metida até o talo nessa podridão, a Donnatela não tinha armado para mim e eu não teria ido pagar os meus pecados na cadeia. Jurei que o karma já tinha sido pago, mas quando esse cara que eu nunca vi na vida, me surge aqui, cheio de petulância, me fazendo descer a goela a baixo que Os Treze estão mais fortes do que nunca, afirmo o que a minha intuição avisou, assim que cruzei a porta da cadeia: eu vou morrer, de alguma forma, e só isso, é capaz de me fazer parar. — O que pretende fazer, Slowan? Slowan. m*l sabia que esse nome ficaria gravado de uma maneira infortúnia no lugar mais profundo da minha alma. Eu realmente, nunca o vi esse lindo par de olhos azuis, no meio daquele grupo fodido. E olha, sou boa em gravar rostos, príncipalmente quando são bonitos como o dele. Não é que a forma escrota na qual ele aponta uma arma para mim, me fizesse ficar cega e não ver o quanto os traços malvados do seu rosto o tornam indecentemente atrativo. Uma vez surgiu um boato na cadeia que Tyler havia sido pegue também, isso fez meu dia se alegrar, minimamente, contudo eu não sabia a veracidade de cada fofoca. E agora, vivendo a realidade do mundo c***l, eu não sei o que qual é o envolvimento desse tal de Slowan nisso, fazendo com que minha falta de proteção me coloque em risco. — O que eu vim fazer aqui. — explica para o amigo, simplesmente. Meus olhos estavam congelados no local, agora coberto, da tatuagem, e não era de uma forma maldosa, apesar do quão atrativa a cena seria se eu não estivesse nas circunstâncias que me encontro agora. Sua mão desliza para a parte de trás da sua calça, de uma maneira vagarosa e tortuosa. Imagino ele sacando uma faca, uma outra arma, um fuzil, qualquer coisa, que acabasse comigo, sua rival, ali, sem escrúpulos e sem dó. — Gostou do que viu? — a pergunta vem sacana, me fazendo erguer a visão até seus olhos gélidos. Ele parecia ler exatamente o que se passava na minha mente. Cretino. Sua cabeça pende para um lado, enquanto ele me analisa, criticamente, como se buscasse algo por trás dos meus olhos. Faço o mesmo com ele e por mais que com outras pessoas eu conseguisse exatamente ler o que se passava na mente delas, com ele não consegui, mas ele conseguiu. Isso me incomoda, mais do que eu consigo controlar. Graças a minha sensibilidade com o universo místico, que ao meu ver, entendo pouquíssimas coisas, consigo sentir coisas que não sou capaz de controlar. Como por exemplo: sonhos estranhos quase que reais, avisos de um futuro que se concretiza da maneira na qual eu vi, sinto a mentira chegar de longe junto com problemas, dor das pessoas ultrapassam barreiras invisíveis e se achegam a mim. É horrível. Eu odeio. Mas sinto. E aprendi a usar isso ao meu favor. Só que com ele não está funcionando, não decifro o que se passa na nuvem azulada das suas íris e é por isso que sinto esse incômodo estranho queimar minha garganta. — Eu já disse que não sei quem é essa Beatriz. — Abaixo as mãos, decidindo não me mostrar afetada por ele. — Já entendi, princesa. — Sua mão continua pousada na parte de trás do seu corpo, espero algo surgir de lá a qualquer instante. — confio em você. Confia? Ele me conhece? Ele não deveria. Não mesmo. Semicerrei meus olhos, apertando minhas unhas contra a palma da mão. Algo certo, está muito errado agora. — Anda, Slowan! — o loiro falsificado o apressa, intercalando seu olhar nervoso em nós dois e no movimento lá fora. — O velho lá dentro vai acordar, e essa garota não tem muito o que nos oferecer. Como ele sabia que o senhor Godoy estava dormindo? Não sei quem é essa tal de Beatriz, mas começo a entender o porquê da desconfiança do velho. — Ela tem sim. — o dono dos olhos azuis fantasma fala como se profetizasse aquilo. — Isso é seu agora. Então vejo um pacote do tamanho de um dicionário grosso ser empurrado pelo tampo de alumínio do balcão, por suas mãos. As tatuagens desenham seus dedos, as veias se sobressaltam, mas isso de longe é o que me chama atenção. Meu sensitivismo volta a funcionar, eu não preciso abrir o pacote para saber o que tem dentro, porque já vi muitos desses em toda a minha vida. — O que eu vou fazer com isso? — minha voz sai como um fio preso na garganta. — Vai guardar. — meus olhos incertos acham os seus cravados em mim como duas facas. — Vou pegar com você amanhã, nesse mesmo lugar, nesse mesmo horário... — Se a gente pelo menos sonhar que você tirou uma grama daí... — o loiro o corta, rangendo seus dentes na minha direção. — Você está morta! Sua promessa me vem como uma ameaça, me lembrando da certeza que tive instantes atrás. Eu vou morrer, não agora, mas em breve. NOTAS DA AUTORA estão gostando do nivel da emoção? espero que não tenha ficado confuso sobre a participação da Hanna no Ggod Girls. mas agora quem será esse cara e o porquê dele ter feito isso com ela? Huahuahaha
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR