Pré-visualização gratuita Run Away!
Kiera's POV
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Eu infelizmente me encontrava deitada naquilo que sequer poderia ser chamado de colchão algum dia... Ratos passavam ao meu lado... Minha cauda e minhas orelhas mexiam instintivamente como se eu quisesse caçá-los, e eu era eternamente grata por minha parte humana bloquear estes instintos primitivos.
O quarto no qual eu normalmente dividia com alguns outros que estavam em uma situação semelhante a minha estava vazio, e eu ainda não tinha entendido o porquê não havia sido chamada para atender os clientes hoje, mas não reclamei, estava feliz, porém desconfiada. Ouço alguém abrir a porta com toda força, e um dos seguranças entra junto com a Dra. Savior, e logo pelos da minha cauda se arrepiaram. Ótimo... Vou ser usada como cobaia... De novo.
A Dra. Savior era provavelmente uma das pessoas menos cruéis ali, embora ainda fosse uma das. Ela tinha dó, e a demonstrava, nas escravas sexuais utilizadas ali. Porém seu amor pela ciência era maior, e era ótimo que no final do dia todas essas escravas podiam ser utilizadas como cobaias para suas experiências malucas. Incrivelmente ela foi a primeira pessoa que eu vi nesse lugar.
Eu tinha apenas quatro anos quando minha mãe me deixou nas mãos dessa mulher, e a Dra. Savior não se importou muito em colocar uma agulha enorme em mim, com um experimento que modifica meu DNA. Graças a essa mulher agora eu sou parte gata e parte humana. Ou seja, Savior não me deu oportunidades nem de ser uma pessoa normal, e por incrível que pareça, ela era a menos cru3l dali.
— Boa noite – seu tom de voz era o mesmo de sempre, e eu não me dou ao trabalho de responder.
— Já percebeu que será minha cobaia hoje pelo visto... – apenas bufo com a fala dela – Você vai me agradecer Kiera, de acordo com a chefe você seria a última pessoa que poderia estar aqui sofrendo essa experiência, devido aos seus últimos ataques perto de clientes importantes...
Eu bufo novamente, revirando os olhos e olhando pra ela de forma enfezada.
— Vai me matar dessa vez? – um sorriso irônico era presente em meus lábios enquanto olho para ela com uma feição de deboche puro – Porque se for, ai sim eu te agradeço.
— Não, mas você vai me agradecer por outra coisa – ela solta aquela frase dando uma piscadinha para mim e enfiando a enorme agulha na minha veia logo em seguida, injetando o que quer fosse aquilo em mim. A dor era insuportável, dessa vez mais que as outras, o que diabos era aquilo?!
Comecei a gritar e dessa vez Dra. Savior não me pediu para que ficasse quieta, a ouvi mandando o segurança na porta sair e nos deixar a sós por um minuto.
— IS-ISSO QUEIMA! – eu berrava e me contorcia, a dor era insuportável, sentia como se eu estivesse sendo queimada viva. A Dra. Savior apenas me olhava impassível
— FAZ PARAR, MAGGIE! FAZ PARAR! – eu disse, usando seu primeiro nome, que poucos sabiam e ela sorriu de lado, provavelmente se divertindo com meu desespero.
— Em três... Dois... Um – ela contava olhando para o relógio no pulso dela e no momento que termina sua contagem a dor some do meu corpo, como se nunca estivesse ali. Eu suava e minha respiração estava ofegante, parecia que eu havia corrido na São Silvestre, enquanto apenas observava a mulher parada a minha frente – Levante-se - ela ordenou, e eu fiz o que ela mandou, com medo de que caso não fizesse, outra injeção fosse aplicada.
— Pra que serve isso? – eu ainda estava um tanto trêmula. Se eu não havia morrido, provavelmente o que quer que ela tenha feito tinha dado certo.
— Eu vou te treinar agora, Kiera – sua voz agora era mais baixa e eu a encarei completamente confusa, fazendo com que ela risse baixo – Dei um jeito de você sair daqui, querida – ao ouvir isso meu coração deu um salto, meus olhos automaticamente marejaram – Eu disse que sempre fui mais com a sua cara.
— Vo-Você está... Falando sério?! – minha voz saiu trêmula e ela assentiu afirmativamente.
— Só deixe-me te treinar, e em menos de três dias você se verá livre desse lugar – eu assenti de forma ansiosa, a possibilidade de me ver livre daquele lugar asqueroso era boa demais para ser verdade.
— Vou lhe explicar. Veja, eu inseri novamente um DNA de gato em você, Kiera. Porém dessa vez eu o modifiquei quase que completamente – como isso iria me tirar dali? Era a pergunta que rondava minha cabeça, porém ainda prestando atenção ao que ela falava – Você tem a possibilidade de transformar-se num gato agora. Mas, isso exigirá esforço, e apenas por um determinado tempo. É como se você estivesse sentado sobre uma perna, você pode, porém uma hora aquilo começa a formigar e você não vai mais aguentar, tendo que mudar de posição. Ou seja, você vai ser gata consideravelmente menos tempo do que enquanto for uma... Humana.
Eu apenas assenti, olhando para ela completamente confusa com a ideia. Era ridículo. Eu ser uma gata era uma ideia completamente absurda, mas nunca duvidava de algo vindo da Savior e topava qualquer coisa pra sair dali.
— Como eu me transformo? – desta vez deixei claro em meu tom que iria seguir o que quer que fossem os treinamentos e Savior sorriu.
— Exige esforço mental e certa força também – eu assenti em entendimento. E então ela começou com os treinamentos.
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Os treinos haviam andado muito bem, e já haviam se passado três dias. Já estava superando o fato de que me transformar em gata era doloroso e cansativo, e mais cansativo ainda permanecer como uma.
Hoje era o dia em que finalmente me veria livre daquele lugar, e faltavam apenas alguns minutos para que isso acontecesse. Todos estavam presentes no quarto comigo e logo seríamos chamados para descer e atender aos clientes da boate que ficava na parte de baixo. Logo nos chamaram todos desceram em fila para lá, eu sendo uma das que estava no meio. Usávamos apenas um short e eu estava grata por não termos que ficar apenas de calcinha hoje. Estávamos quase congelando devido ao frio, porém isso pouco importava aos donos dali.
Seguimos pelo corredor sujo e logo avistei Savior em seu laboratório, mexendo em uns vidros com substâncias diferentes. A janela da mesma era de vidro e Savior me encarou, piscando um olho como quem deseja boa sorte e eu apenas sorri, seguindo em frente.
O plano era simples e eu só precisava atrair um cliente novo até o quarto treze, e pronto, eu estava noventa por cento livre. E bom, atrair um cliente era bem fácil para mim. Chegamos à parte central da boate e logo as meninas se espalharam, tentando atrair clientes e dançando por aí e eu fiz o mesmo. A música sensual contribuía para que minha dança saísse cada vez mais quente e melhor. Vários homens olhavam minha performance e eu ousava piscar e morder os lábios olhando para alguns deles. Logo sinto duas mãos passando por meu corpo e olho para trás dando de cara com um homem alto, já nos seus quarenta anos, mas ainda assim bonito, nunca tinha visto ele por ali. Com certeza era um cliente novo! Parabéns Kiera!
— Vamos para um quarto, docinho? – o mesmo perguntou, com o tom carregado de malícia e eu fiz meu melhor sorriso malicioso, acompanhando-o até o caixa.
— Me solicite ali... – eu disse apontando para o balcão – Peça o quarto treze, é repleto de brinquedinhos por lá... E eu gostaria que você pudesse usá-los em mim... – eu disse, soando manhosa e o homem gemeu, rindo e indo até o caixa. Voltou com uma chave em mãos e pude enxergar o número treze estampado no chaveiro.
Seguimos até o quarto e logo estávamos aos beijos, o que eu tentava retribuir escondendo o nojo que eu sentia dessas pessoas, algo que aprendi a fazer muito bem com o tempo. O quarto era pequeno, comum como todos os outros e ficava no terceiro andar da boate.
Havia apenas uma cama em formato redondo, as paredes eram vermelhas e um banheiro podia ser encontrado ao abrir a única porta lateral a cama. O homem me jogou na cama, com uma força que eu julguei desnecessária e logo subiu por cima de mim.
— Cadê os brinquedinhos hein, docinho? – ele perguntou, e eu sorri largo, meu plano estava dando muito certo.
— No banheiro. No armário e nas gavetas – eu disse, piscando e empurrando-o de leve para fora da cama, o homem foi até o banheiro e era essa a hora.
Tirei a chave do bolso e tranquei o homem no banheiro, que inicialmente não percebeu. Arrastei a cama e atrás da mesma havia um buraco médio, e bom, apenas um animal não tão grande passaria por ali – Não vejo nada por aqui docinho, tem certeza que é esse quarto? – ele perguntou tentando abrir a porta e consequentemente percebendo que a mesma estava trancada – O QUE É ISSO?! ABRA ESSA PORTA SUA PUT@! – ele disse e eu me concentrei em me transformar, rezando pra que desse certo. Logo os seguranças do corredor iriam ouvir a gritaria e apareceriam por ali.
Logo meu corpo era transfigurado para um corpo menor e definitivamente com mais pelos. Virei uma gata, preta, assim como nos treinos e pelo que Savior falou meus olhos deveriam estar mais bonitos e claros. Consegui! E bom, se eu não estivesse em formato de gata provavelmente estaria comemorando.
Me desvenciliei dos meus shorts, que estavam grandes em volta do pequeno corpo animal, peguei-o com a boca e fui em direção ao buraco. Passei com um pouco de esforço por ali, porém só metade do corpo. Olhei para baixo e meu coração começou a disparar, certo, era alto, bem alto. Sai por inteiro do buraco, passando pelas beiradas da parede. Observei mais um pouco e bom, eu poderia tentar descer pelas bordas dos outros andares. Até o primeiro, e aí sim eu teria que pular.
Ouvi o barulho da porta do meu andar se abrindo e logo a do banheiro também, revelando uma conversa entre o cliente furioso e os seguranças confusos. Desci com dificuldade pela borda até o segundo andar, quase caindo em meio aos pulos e logo cheguei à borda do primeiro. Pulei ao chão e comprovei que o mito nos quais os gatos caem de pé, é mentira, ou pelo menos não se aplicava para híbridos. Me machuquei um pouco, porém nada que não desse pra continuar.
Segui silenciosa pelo pequeno beco no qual tinha pulado, logo a frente dois seguranças eram comunicados por rádio de que uma das escravas havia fugido e eles logo passaram a observar por todos os lados e procurar pelo beco. Passei despercebido pelos dois homens que ainda tentavam encontrar alguma mulher naquele beco escuro e eu logo estava na rua. Ousei passar pela porta da boate, e bom, não teria como não passar, o único caminho para bem longe dali era por aquele lado, pois de resto as ruas eram fechadas, dando fim aquele bairro sombrio.
Os seguranças procuraram desesperados por ali, junto com a chefe da boate que parecia extremamente nervosa. Logo eu segui mais adiante e continuei seguindo pela calçada, pude ver mais a frente o cliente o qual havia prendido no quarto seguindo nervoso pela calçada e passei ao seu lado, o que foi uma péssima idéia. Ele estava extremamente nervoso e resolveu chutar qualquer coisa que havia por perto, o que consequentemente era a pequena gata preta andando um pouco mais a frente, eu senti o chute dolorido na costela e caí deixando o short caído por ali, o homem não satisfeito chutou mais uma vez e dessa vez fui arremessada um pouco longe. Caí no asfalto, e caramba, como estava doendo! Senti um cheiro de sangue que deduzi ser meu e teria que sair o mais rápido possível dali, antes que estivesse incapaz de permanecer como gata. Fui até o lugar onde havia recebido o chute, pegando meu short na boca e saí dali, tentando ser o mais rápida possível, porém mancando e sangrando.
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Passei horas e mais horas correndo, não deixando de me machucar mais e receber alguns empurrões e chutes em meio as pessoas da calçada, pelo visto ninguém gostava de gatos pretos naquela cidade. Já estava muito machucada e tudo que eu queria era voltar a minha forma normal e poder dormir. Já estava bem longe da boate, em um bairro comum de Nova York, com casas bonitas mas simples e muitos prédios antigos com poucos andares. Resolvi parar em um dos prédios, que era vermelho e de tijolos, provavelmente uma construção antiga. Algumas janelas davam vista para um beco e nele havia escadas de emergência, dando de cara com todas as janelas presentes ali. Comecei a subir a escada, com a pouca força que me restava. Tentei todas as janelas porém quase todas estavam fechadas, tentei a janela do terceiro andar do prédio e enfim encontrei uma aberta.
Entrei no quarto, e o apartamento estava todo iluminado, havia alguém na sala e por um segundo pensei na possibilidade de sair. Mas desisti após ver a cama. Subi na mesma ainda na forma de gato e me joguei por ali soltando o short da boca, ainda sangrava um pouco e tudo estava muito dolorido, soltei um resmungo que saiu como um miado obviamente. Fiquei ali um tempo e estava quase dormindo quando uma moça passou pela porta do quarto, logo parando confusa ao me ver. Ao ver o sangue em sua cama sua expressão passou a ser assustada e ela logo se aproximou, fazendo com que eu levantasse minha cabeça pronta para me defender.
— Ei... Calma gatinho... – ela falou com uma voz baixinha, notei que ela tinha sotaque, provavelmente Europeu, ela foi tentando aproximar sua mão – Só quero cuidar de você – tentei arranhar sua mão e o movimento fez com que meu corpo todo doer de uma forma aguda, e eu miei mais alto me contorcendo. Eu estava esgotada e machucada e, portanto, não pude fazer nada para deter minha transformação em humana. Logo eu estava sentada na cama, na minha forma humana, completamente nua, olhando atentamente a moça a minha frente, que não podia parecer mais assustada.