Livia's POV
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Acordei com o toque do telefone extremamente alto e irritante. Me levantei, bufando, e fui até a sala pegando o aparelho, apertando o botão verde e colocando no ouvido, mas ainda estava praticamente dormindo. Disse um alô meio sonolento e então a voz aguda de minha mãe se fez presente, e eu simplesmente passei a concordar com tudo que ela dizia. Até me tocar dos seus planos pra hoje.
— O-O QUE?! – agora eu estava acordada até demais – Mãe, você vai almoçar aqui hoje?! E como assim você estará chegando em vinte minutos?!
— Isso mesmo que você ouviu, querida. Eu, sua tia e Ruby estamos indo passar o domingo com você, e estamos chegando logo. Esteja pronta para nos receber, beijo – minha mãe disse simplesmente, desligando o telefone logo em seguida.
Bufei de raiva, desligando o telefone em seguida e passando a mão freneticamente pelo rosto, a fim de pensar calmamente. Kiera tinha chegado na sexta e no sábado mesmo havíamos ligado para Catie e perguntado se tinha alguma vaga pra trabalhar na lanchonete em que a mesma trabalhava, e bem, achamos um trabalho de garçonete para Kiera, que ia começar nesta segunda. Mas é claro que minha família e amigos não sabiam que ela estava morando aqui, além do mais, eles nem faziam ideia de quem era Kiera Dallas, muito menos de que ela era uma híbrida. E minha mãe não ia saber agora.
Fui até o quarto de hóspedes, abrindo a porta e entrando sem fazer muito barulho, Kiera dormia tranquila e não acordou com o barulho do telefone, pois pelo que eu havia percebido seu sono era muito pesado, e ela dormia muito. Parei em frente à cama, observando-a dormir, mas logo me pus a acordá-la, o que era um pouco difícil. Chamei algumas vezes, e sacudi um pouco e logo uma Kiera sonolenta, com olhinhos pequenos e cansados me observava.
— Oi Livia, aconteceu alguma coisa?! – ela estava claramente confusa por ter sido acordada do nada e em uma hora que deveríamos estar dormindo, já que fomos dormir tarde ontem.
— Sim... Bom, você vai ter que ser uma gata hoje – eu disse, meio sem graça e a cara de confusão de Kiera ficou pior – É que... Minha mãe vem aqui hoje, com minha tia e minha prima mais nova, e não acho que ela vá lidar muito bem com o fato de que tem alguém morando aqui e eu não a avisei... Você sabe... – expliquei – Ah, suas feridas melhoraram?! – me aproximo para olhar de perto, pelo que tínhamos percebido ontem, o fato de Kiera ser uma híbrida fazia com que suas feridas tivessem uma cicatrização em uma velocidade muito maior, e ontem elas m*l passavam de arranhões um pouco fundos.
— Oh sim, claro. Que horas ela chega?! – ela parecia compreender e eu agradeci mentalmente por isso – E sim, estão quase cicatrizadas totalmente.
— Daqui a alguns minutos... Eu vou tomar um banho, porque felizmente deixamos a casa arrumada ontem e se quiser você pode tomar um também, ok?! – ela assentiu – E depois, pode... Se transformar... Enfim, to indo, ok? – eu não estava sabendo muito bem se Kiera ficava confortável ao falar sobre essas coisas de transformações e afins, e ela assentiu novamente.
Sai do quarto, indo ao meu e dando uma ajeitada na cama e no quarto, caso minha mãe resolvesse vir até aqui para dar uma conferida. Peguei uma roupa qualquer, de ficar em casa, uma camiseta, uma jaqueta e calça de moletom. Fui até o banheiro, me despindo entrando embaixo do chuveiro e tomando um banho rápido, quente e relaxante. Eu saí do Box, me secando e colocando as roupas que havia trazido. Foi só abrir a porta do banheiro que logo um barulho de campainha pode ser ouvido. Respirei fundo, saindo do quarto e indo até a sala. Abri a porta do apartamento e logo recebi um abraço caloroso de minha mãe, que não podia deixar de ser bom, e logo em seguida da minha tia. Abaixei na altura da minha prima e cumprimentei ela, que m@l me dava atenção, capetinha.
— OLHA MAMÃE! UM GATO! – ela berrou com sua voz fina e fofinha, e olhei pra trás encontrando uma gata preta e pequena sentada no chão me observando atentamente.
— Livia, por que não me disse que tinha comprado um gato minha filha?! – minha mãe perguntou, e eu revirei os olhos, por que eu tinha que contar tudo pra ela?! Eu já não era mais um bebê.
— Não precisava mãe... Uma hora a senhora ia ver mesmo, e é uma gata, não gato – levantei, indo até a cozinha e bebendo um copo d'água.
—Vou fazer o almoço, ok? Suzan me ajude! – ela disse, chamando a irmã e ambas foram à cozinha, segurando sacolas nas mãos, que provavelmente eram os ingredientes.
— Não preciso ajudar né mãe? – eu perguntei, e ela negou com a cabeça, confirmando. Fui até a sala e liguei a televisão, me sentando no sofá, mas logo levantando desesperada – RUBY! LARGA A GATA! PARA DE SACUDIR ELA ASSIM! – eu gritei. Minha prima mais nova segurava a gata preta nas mãos, sacudindo rapidamente para todos os lados e cantando uma música irritante para ela, que parecia arregalar seus olhos de gato e tentava escapar de suas mãos. Fui até ela retirar a gata de suas mãos e a mesma me olhou emburrada.
— MAMÃE A LIVIA NÃO ME DEIXA BRINCAR COM A GATA! – minha prima saiu correndo até a cozinha e gritando. Eu ignorei, indo até o sofá.
— Me desculpe, Kiera – sussurrei para a mesmo que agora estava no meu colo, e com a palma da mão podia sentir seu coraçãozinho bater aceleradamente – Eu não tinha visto me desculpe, gatinha – sussurrei, meio envergonhada em seguida após perceber o apelido usado por mim. Se Kiera já não gostava de ser uma gata, imagina agora que foi atacada pela capeta na forma de uma menininha de sete anos. A gata ainda me olhava, e se virou, saindo do meu colo e deitando-se no sofá ao meu lado, apoiando a cabeça nas patinhas. Levei minhas mãos até sua cabeça, acariciando e ela me olhou por um instante, logo voltando a deitar e ronronando com o carinho, sorri com isso. Ficamos um tempo ali e a gatinha parecia ter adormecido, tão fofa.
O cheiro de comida boa na casa era presente e fiquei pensando no quanto Kiera estaria com fome, e como faria pra que ela pudesse comer. Minha mãe logo me chamou e as orelhinhas da gata se levantaram, juntamente com sua cabeça. Ela me olhou, como quem perguntava, e agora? Como eu vou almoçar? Olhei triste para ela.
— Você consegue esperar? – eu perguntei e ela me olhou por uns instantes, logo voltando a deitar, o que eu acreditei que significava um sim. Suspirei, indo até a cozinha e me sentando com todas, comendo junto. Conversamos sobre alguns assuntos de família e algumas coisas aleatórias e minha mãe perguntava sobre minha vida, totalmente controladora.
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Terminamos o almoço e as mulheres foram pra sala, enquanto eu me virava com uma cozinha pra ajeitar. Logo terminei, indo a sala e pegando Kiera do chão, que dessa vez corria da garota que rodava a casa a mais de dez minutos gritando para que ela não fugisse dela e avisando que ela só queria brincar.
— Mãe, tenho algo pra te perguntar – eu me sento com a gatinha no colo, acariciando suas orelhinhas e a mesma se aconchegou ali.
— Pode falar. O que foi? – minha mãe perguntou, parecendo interessada.
— Uh... Bom, uma amiga minha da faculdade estava morando numa república, mas ela não se sente muito bem lá e eu o convidei para morar aqui. Tudo bem? – eu perguntei, receosa com sua resposta, mas ainda irritada com o fato de que eu tinha que perguntar sendo que o apartamento era meu. Kiera levantou-se, sentando no meu colo e encarando minha mãe, parecendo esperar por sua resposta.
— Livia! Como assim chamou uma estranha pra vir morar com você? Você tinha que ter me perguntado antes, eu nem sei o nome dela! – ela disse, exagerada e praticamente gritando e a gata no meu colo virou a cabeça para me observar, rapidamente voltando a olhá-la. Admito, eu estava morrendo de vergonha da Kiera ver o quanto minha mãe podia ser controladora com sua filha.
— Mãe, eu não sou mais um bebê! – meu tom de voz estava mais alto e a mesma arqueou sua sobrancelha, parecendo magoada – Ugh... Me desculpe, ok? Ela não é uma estranha, é uma amiga minha da faculdade. O nome dela é Kiera Dallas, e se eu a chamei pra morar comigo, é porque ela é confiável, certo! – errado, respondi mentalmente. Não que Kiera não fosse confiável, porque ela parecia ser, mas eu não a conhecia direito. A gata voltou a deitar, parecendo desconfortável com a mentira.
— Tudo bem filha, eu só fiquei preocupada, acho que exagerei – como sempre, completei mentalmente – Depois me apresenta essa amiga ok? – ela perguntou, e eu assenti.
— Tem certeza que é só uma amiga, Livia? – minha tia perguntou e eu a encarei boquiaberta, Kiera levantou suas orelhas, prestando atenção na conversa e fiquei ainda mais envergonhada com isso. Ótima maneira de ela saber que você é lésbica Livia, parabéns.
— Você está namorando e não me contou? – minha mãe perguntou e eu me senti corar ainda mais.
— Não! Não tem nada a ver com a tia, ela é apenas uma amiga. Sério mãe, sério gente, parem com isso – eu respondi, querendo morrer e as duas se encararam, dando de ombros provavelmente deixando o assunto pra outro dia.
— Bom, Livia, precisamos ir ok? – minha mãe disse, após minha tia lembrá-la de algum compromisso que as duas tinham, e eu assenti, nem me dando ao trabalho de insistir, peguei a gata no colo e fui até a porta, abrindo-a. Minha mãe e tia passaram por mim, me abraçando e beijando meu rosto, me dando tchau.
— Liiiv... Deixa eu falar tchau pra gatinha?! – minha prima perguntou manhosa, esticando os braços pra gata no meu braço e eu a apertei possessivamente. Encarei minha mãe que me repreendia com o olhar e bufei, sussurrando um pedido de desculpas para Kiera e esticando a mesma, entregando-a para a menina – Tchau gatinha linda! Vou pedir pra minha mamãe me trazer mais vezes pra te ver, 'tá?! – bufei, até parece que Kiera ia querer ver esse demônio de novo. A menina apertou a gata no braço, esmagando-a completamente e percebi que era hora de acabar com a despedida.
— Ok, solta Minha gata – eu disse, sem delicadeza alguma e retirando a gata da mão da menina, que me olhou triste.
Ela saiu e assim fechei a porta, deixando todos irem embora de vez. Coloquei a gata no chão e a mesma saiu em direção ao quarto. Certo, meu pedido de desculpas teria que ser planejado.
Kiera's POV
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Voltei a ser uma humana, sentindo um alívio sem igual. Respirei fundo, pegando as roupas dobradas em cima da cama e me vestindo rapidamente, devido ao frio. Logo abri a porta do quarto, saindo em direção a sala, que novamente cheirava a comida, e meu estômago roncou. Procurei por Livia e logo ouvi um barulho na cozinha, indicando que a mesma estava lá, fui até ela.
— Ei Kiera, guardei pra você – ela disse, colocando o prato com comida do almoço em cima da mesa e indicando para que eu sentasse. Não pensei duas vezes, logo me sentando na cadeira e começando a comer, aquilo era muito bom, ou eu estava realmente com muita fome. Optei pelos dois. Enquanto eu comia, percebi que Livia me encarava e decidi ignorar, mas logo ficando sem saída e visivelmente desconfortável com o fato de que ela não desviava o olhar.
— O que foi? – perguntei, simples, esperando não ter ofendido, ou sei lá. Livia ficou sem graça ao ser pega no flagra e eu achei isso adorável.
— Nada... Só queria pedir desculpas por hoje... Foi horrível, eu sei – ela disse, visivelmente sem graça e eu sorri minimamente com isso.
— Para Livia, não tem problema, sério – Eu respondi, sendo sincera. Foi necessário que eu ficasse como um animal, percebi isso ao ver o quão controladora a mãe de Livia pode ser, o que era maravilhoso comparado a situação da minha... Mãe.
— Lógico que tem... Você presenciou minha mãe sendo controladora e desnecessária, teve que esperar até agora pra poder comer e ainda teve que aguentar aquela pirralha te sacudindo pra lá e pra cá. Isso foi o pior! Aquela menina não é normal! – ela disse irritada e eu ri.
— Bom, com isso eu posso concordar, eu nunca pensei que sentiria tanto medo até ser sacudida por uma menininha de sete anos cantando uma música assustadora, acho que vou ter pesadelos com essa música a noite – eu ri da minha piada e Livia gargalhou, me acompanhando – Sério Livia, fora a seção de abraços apertados e de cantoria da sua prima não teve nada fora do normal hoje, você não precisa se preocupar. Além do mais, eu que tenho que agradecer pela desculpa dada a sua mãe, e me desculpar por te fazer mentir pra ela – eu respondi e ela bufou.
— Menti porque ela é desnecessária, não tinha que ter falado nada, isso sim… – ela estava irritada e eu sorri, ela ficava fofa desse jeito emburrada, quase como uma criança.
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Eu e Livia passamos a tarde assistindo filmes e só fomos comer novamente a noite, quando Livia decidiu fazer uma macarronada que ficou muito boa. Amanhã eu começaria meu trabalho, e garanto que estava completamente nervosa por isso. Livia tinha montado um pequeno guarda-roupa pra mim com umas roupas que não serviam mais nela e umas toucas que eu devolveria após comprar as minhas. Eu tentava pensar em uma desculpa plausível pra caso alguém perguntasse depois de umas semanas o porque eu iria sempre de touca, mas ainda não tinha achado uma resposta boa o suficiente, decidi pensar nisso depois.
— Livia, eu vou dormir, ok? – eu percebo que o relógio marcava umas nove horas. Amanhã eu iria trabalhar cedo, pois meu turno na lanchonete seria de manhã até a tarde. A mesma me olhou, e ela também parecia cansada.
— Ok Kie – ela disse, e eu sorri com o apelido dado sem perceber, e me lembrei da Livia me chamando novamente de gatinha hoje a tarde, meu sorriso se alargou, eu realmente gostava dos apelidos que ela fazia – Também vou dormir, amanhã vou cedo pra faculdade – ela respondeu.
— Boa noite então. Nos vemos amanhã antes de sair? – eu perguntei e ela assentiu.
— Vamos tomar café juntas, eu tenho um carro, portanto vou te levar até a lanchonete que não fica longe da faculdade e como a faculdade de medicina é extensiva eu saio quase no mesmo horário que o seu, então passo pra te buscar, ok?! Me espere – ela disse e eu neguei com a cabeça.
— Não precis...
— Para de negar. Só me espere – ela me interrompeu, e eu sorri de lado, assentindo. Livia desligou a televisão e parou à minha frente.
— Tchau gatinha linda! Vou pedir para minha mamãe me trazer mais vezes pra te ver, tá? – ela disse, com a voz fininha, imitando sua prima de sete anos e eu corei, rindo baixinho e ela riu junto – Boa noite gatinha... Até amanhã – Ela disse, me dando um abraço e eu sorri, retribuindo.
— Boa noite Livia – eu disse, e então nos soltamos, ambas indo em direção ao quarto. É, realmente eu não estava me importando tanto de ser uma gatinha agora.