Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – O Homem nas Ruínas
Capítulo 1 – O Homem nas Ruínas
O vento cortava como navalha entre os prédios destruídos. Concreto rachado, ferrugem, silêncio. O tipo de silêncio que grita, que assombra. Ele se movia por entre os escombros como um fantasma, silencioso, preciso, letal e brutal, sempre que preciso mas não estava ali para matar. Seus olhos programados para identificar calor, ameaça, movimento — estavam fixos em algo que chamava fortemente sua atenção. Não respirava para não mover um músculo sequer, para não perder nenhum movimento, para não perdê-la de vista.
Ela caminhava com passos firmes, olhos atentos, cabelos presos sob um lenço sujo pela poeira da cidade morta. Carregava um cantil de água, uma faca na cintura, e um olhar que, sem saber, havia capturado o último pedaço de humanidade que ainda restava dentro dele.
Ela era sua missão, Não oficial, Não ordenada Mas pela sua própria escolha. Seu nome, ele havia descoberto por uma conversa entre os sobreviventes do acampamento Verde:
“katleya” .
Ela acreditava em reconstrução, em paz, em cura. Ele acreditava em sangue, em tática, em sobrevivência E mesmo assim ele a amava, Loucamente, Devotadamente.
Katleya parou diante de um prédio semi-caído e olhou ao redor. Ele recuou um passo para a sombra, observando, Sempre à distância, sempre em silêncio. Se ela soubesse o que ele era, o que ele já fez, o odiaria, Mas ainda assim, ele a seguia, Protegia e Amava. Porque mesmo em um mundo de cinzas, destruição e guerras, ela era a única coisa viva que ele ainda acreditava.
O céu estava acinzentado,depois de toda destruição sempre estava. Katleya caminhava em linha reta entre as ruínas de uma antiga estação de metrô. O lugar era úmido, escuro, tomado por vegetação mutante e silêncio inquietante. Ela precisava de filtros de água, o último grupo que saiu não voltou. Ela não sabia que Kaleo estava ali, Observando, Como uma sombra, um vulto, um sussurro. Não queria interferir, Nunca quis, Porque o dia que tocasse nela, mesmo para salvá-la, seria o começo do fim da distância entre eles. E ele sabia, se chegasse perto demais, não conseguiria mais se afastar. Mas então, ele viu, pelo canto do olho, sua visão periférica altamente modificada. Movimento rápido, estranho, rastejante. Uma criatura, pele rachada, olhos brancos, dentes como lâminas. Um dos “retornados”, como os sobreviventes chamavam, Resultado da mutação extrema.
Katleya se virou tarde demais. A criatura saltou E então..
BOOM.
Um vulto atravessou o ar, com um estrondo ensurdecedor como um raio, A criatura foi lançada contra a parede com um impacto seco já sem vida, com as tripas e sangue pra fora, Katleya caiu de joelhos, assustada.
Kaleo a encarou por um segundo, semi ajoelhado com as mãos sujas de sangue da criatura, seus olhos se encontram por um estante. O capuz ocultando seu rosto, a respiração pesada. Ele podia fugir, mas não, paralisado pelo momento de estar cara cara com a única pessoa que fazia seu coração descompassar. Ela olhou nos olhos dele. Aqueles olhos, um brilho estranho, Quase… familiar.
— Quem é você? — ela sussurrou, ainda ofegante.
Passos ecoam por de trás de katleya, ela se vira para olhar, ainda com medo do que tinha acabado de acontecer e quando se vira novamente para frente ele já tinha desaparecido.
Katleya esfregava as mãos como se o calor do atrito pudesse apagar a sensação daquelas garras quase em sua pele, Do olhar intenso que encontrou segundos antes do desaparecimento do homem misterioso.
Ele a salvara. Mas quem ele era?
Riven se aproximou, como sempre fazia, confiante, altivo e pretensioso.
— Você devia ter me esperado, Kat — disse ele, olhando para os cortes em sua roupa, preocupado demais para esconder.— Podia ter morrido.
— Eu sobrevivi, estou bem..— respondeu ela.. seca e ainda distraída. — Alguém me ajudou.
— Alguém? — ele estreitou os olhos. — Quem?
Ela balançou a cabeça, frustrada. — Não sei. Ele apareceu, me salvou e… sumiu.
— Você não pode confiar em fantasmas, Katleya — Riven se aproximou mais, encostando de leve na mão dela. — E muito menos em sombras, Talvez tenha sido um dos modificados.
— Um deles te ajudando… isso nunca seria sem custo.
Ela puxou a mão. — Eu não pedi ajuda, Mas ele me salvou.
Riven desviou o olhar, o maxilar travado, tentando esconder seu ciúme e fracassando miseravelmente.
A noite estava começando a cair e precisavam voltar ao acampamento verde. Naquela noite, Katleya não dormiu, voltava àquela fração de segundo, Ao silêncio entre os batimentos cardíacos, Ao cheiro metálico de sangue da criatura e aquele olhar Ardente, silencioso… desconhecido. Ela saiu da barraca antes do amanhecer, foi até o local do ataque, havia marcas no chão, Pegadas, Arranhões em pedra, uma pegada enorme de coturno e uma pequena marca ¥
Nada mais.