Capítulo 7 - VISÃO DA FERA

768 Palavras
(Kaleo) O sol estava nascendo, mas naquela luz pálida, a única coisa viva era ela Andando à frente, insistindo em não parecer frágil, mesmo com o corte ainda recente no ombro. “ Katleya “ O nome dela queimava dentro de mim desde a primeira vez que ouvi, Desde o primeiro sonho, Desde o primeiro toque que nem foi toque. Foi conexão, Marca, Destino. Ela disse que precisava voltar para o acampamento com suprimentos. Orgulhosa, Postura ereta, Boca firme. Linda pra c*****o. — Eu vou com você — falei, sem pensar duas vezes. Ela tentou resistir, tentou, mas eu sinto, Sinto tudo, Cada vez que ela finge que não tá com medo, Cada vez que segura o olhar, Cada vez que me deseja e disfarça. Nós andamos em silêncio por um tempo Mas eu não conseguia desgrudar os olhos dela, A forma como o cabelo dela caía pro lado, bagunçado, O jeito que mordia o canto do lábio inferior quando se concentrava, A cicatriz pequena no queixo discreta, charmosa, dela. E então… ela subiu por uma pilha de concreto. O corpo dela estava mais fraco do que ela queria admitir. Eu vi, Ela escorregou e antes que o chão a alcançasse…ela caiu nos meus braços. Literalmente, Nos meus braços. Ela ofegou, Eu também, não esperava um toque rápido desse jeito, O mundo ficou em silêncio por um segundo E ali, com ela colada no meu peito, eu fiz o que já fiz mil vezes nos sonhos, Desci os olhos pelo rosto dela. Devagar, memorizando cada traço , cada detalhe, tudo, Como se o mundo fosse acabar em segundos e eu precisasse levar aquela imagem comigo, depois subi o olhar de volta, parando nos olhos dela, Ela estava corando, A respiração dela prendeu no ar. Eu amei isso, Quis segurar mais, Quis puxar ela mais perto Mas eu sou problema E ela é a única coisa pura nesse lugar podre. — Tem que olhar por onde pisa — murmurei, só pra quebrar a tensão. Mas meu corpo ainda queimava onde ela tinha encostado. Meus dedos ainda estavam na cintura dela quando ela falou: — Seus olhos…São diferentes dos que eu me lembro. Isso me acertou como um tiro. — Talvez eu mude quando você me vê de verdade — respondi, antes que minha voz traísse o que eu realmente queria dizer: “Te enxergo em todos os meus sonhos. E nunca é suficiente.” Soltei ela devagar Mas toquei mais do que precisava. Porque, p***a, eu precisava. A gente seguiu andando Mas agora… o mundo inteiro parecia pequeno demais pra conter o que eu estava sentindo. O túnel era estreito, o tipo de lugar que você evita se pode escolher Mas a gente não podia, Ouvi os estalos antes dela: Passos, respiração pesada, ferro arrastando, Caçadores Humanos ou o que sobrou deles, Vagando como feras famintas por qualquer coisa viva. Katleya congelou quando me aproximei por trás, a mão no ombro dela, Firme, mas controlada. Ela ainda tava fraca Mas o orgulho dela era mais forte que o corpo. — Temos que sair da trilha. Agora. Ela não questionou, Correu atrás de mim, por entre os escombros, até o vão entre duas paredes caídas, Tive que puxá-la comigo. O espaço era estreito, Ridiculamente estreito Mas quente, escuro E silencioso. Tão perto dela que sentia a respiração tocar meu pescoço. Ela pressionada contra o concreto, Eu com uma das mãos acima da cabeça dela, encostado no mesmo muro a frente dela, O peito dela subindo e descendo, Os lábios entreabertos E o cheiro, o maldito cheiro dela misturado com poeira e sobrevivência. Lá fora, passos, Risos, Gente que mataria por um pedaço de pão Ou por uma mulher bonita E ela era isso. Linda. Frágil. Selvagem E já era minha. Mesmo sem saber. Ela tentou se mexer, Eu a segurei pelo quadril com uma mão. — Não… Fica. A voz saiu mais grave do que eu queria. Mais agressiva, Mais… desesperada. Ela olhou pra mim com Aquele olhar. Me destruía. Me reconstruía. — Você tá me olhando como se eu fosse um problema — ela sussurrou. Eu a olhei, torto. Me aproximei mais. A boca quase roçando no ouvido dela. — Você é um problema Mas é o tipo que eu não consigo evitar. Ela engoliu em seco, Os olhos dela brilharam mesmo na escuridão, Como se me enxergassem inteiro, por dentro. Eu queria tocar, Queria mais Mas eu tinha que me controlar, Porque ali, no escuro, entre paredes quebradas e mundos desfeitos, ela era a única coisa que ainda fazia sentido E eu nunca tive medo de nada… Até agora.
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