O barulho dos caçadores ficou pra trás, Mas não o que aconteceu dentro daquele túnel. Eu ainda sentia o cheiro dela na minha pele, O calor dela grudado nos meus dedos, A lembrança do corpo dela encostando no meu como se aquilo fosse o único lugar seguro do mundo. Ela não falou nada quando saímos dos escombros Mas também não se afastou, Seguimos por ruínas mais abertas, descendo uma encosta de terra e pedra até o que restava de uma antiga construção, O lugar era quase invisível, um esconderijo entre placas de ferro retorcidas. lá dentro, entre sombras e concreto rachado, a água corria limpa.
— Aqui — falei, tirando a tampa da pequena a******a.
A luz entrava por cima, refletindo no fluxo estreito como ouro líquido. Ela se abaixou primeiro, Molhou os pulsos, o pescoço, os lábios E eu fiquei ali, Parado, a Observando Como um maldito louco. Porque mesmo suja, cansada, com o cabelo grudado na testa e o olhar perdido… ela era linda pra c*****o, Cada movimento dela era como uma lembrança que eu nunca vivi, Mas sentia como se fosse minha.
Ela ergueu os olhos pra mim, desconfiada.
— Vai ficar me olhando?
— Sim. ( respondi sem pensar )
Ela bufou, mas tinha cor nas bochechas.
Ela gostava, Mesmo que não admitisse.
Me aproximei devagar, Ajoelhei ao lado dela e estendi a mão para a água, Ela recuou um pouco Mas ficou. Molhei minhas mãos, e em vez de beber, deslizei a água pela nuca. O alívio foi imediato Mas os olhos de kat.. estavam na minha pele E dessa vez, ela era quem observava.
— Você é diferente do que imaginei — ela disse de repente, quase num sussurro.
Eu encarei ela.
— E o que você imaginou?
Ela hesitou.
— Que fosse só… força, Frio, Um soldado sem alma.
Me aproximei mais.
A voz baixa.
— E o que eu sou, Katleya?
Ela piscou Mas não respondeu. Porque eu tava perto demais E ela tava tremendo, Não de medo, De sentir E p***a, eu também tava Mas ao invés de encostar nela, eu peguei a garrafa que levava comigo e enchi de água.
Levantando em silêncio, controlando cada músculo do meu corpo para não pega-La de novo em meus braços e fazer o que eu queria.
Porque o que eu queria…era tocar a boca dela com os dedos molhados, puxar o cabelo dela de leve, Fazendo sua cabeça pender pra trás, Era fazer ela esquecer qualquer acampamento, qualquer regra, qualquer mundo, qualquer outro que já passou pelo seu caminho, mas isso ainda não era hora.
Ela se levantou atrás de mim, A água escorrendo pelas mãos.
— Obrigada — disse, simples.
Assenti. Mas dentro de mim, tudo já estava em combustão descontrolada.
Narração 3*pessoa :
O caminho de volta foi silencioso, Katleya caminhava à frente, ainda um pouco pálida, mas com o olhar determinado de quem precisava chegar. Kaleo vinha atrás, atento a cada som, a cada sombra. Quando chegaram à antiga estrada que cruzava a zona devastada, viram um grupo, Três pessoas E um deles era Riven, Katleya parou no mesmo instante.
Kaleo percebeu, O corpo dela enrijeceu, mas ela respirou fundo e seguiu.
— Kat! — uma das mulheres exclamou, correndo até ela. — Você tá bem? A gente te procurou a noite inteira!
— Eu me perdi… Mas tô bem agora. — ela respondeu, tentando soar natural, mesmo com os olhos de todos se voltando para Kaleo.
O clima ficou denso.
Riven estreitou os olhos ao encarar o homem alto e sujo de sangue seco ao lado dela.
— Quem é ele?
— Ele me salvou — Katleya respondeu de forma simples, como se fosse óbvio. Mas seu tom já carregava certa rigidez. — Me protegeu a noite inteira.
Riven deu um passo à frente, a postura meio agressiva.
— E você resolveu confiar nele assim, do nada? Alguém que nem sabemos de onde veio?
Katleya sustentou o olhar.
— Ele me salvou, Lutei com uma criatura, Me feri E se ele não tivesse chegado, eu provavelmente estaria morta.
— Ou ele estava perto demais da criatura — Riven rebateu, com veneno na voz
Kaleo deu um passo à frente, silencioso como um gato caçando.
— Quer lutar comigo pra tirar a dúvida?
A frase foi dita com frieza, Sem elevação de voz Mas com uma presença que fez os outros dois do grupo recuarem de leve. Riven arregalou os olhos, surpreso com a ameaça contida.
— Kaleo — Katleya chamou, firme, mas sem censura. Ela não queria confusão, mas também não o culpava. Ela se virou para o grupo.
— Eu confio nele. Ele não só me salvou, como me cuidou, me ajudou a encontrar água e me trouxe de volta. Se alguém tem problema com isso… então o problema é meu também.
Silêncio.
Riven olhou para ela com olhos feridos.
Mas Katleya nem vacilou. Kaleo, do lado dela, observava tudo, Sem uma palavra, mas com o maxilar tenso, o olhar afiado. Ele entendeu naquele instante: ela o escolheu ali Mesmo que não soubesse ainda o quanto.
— Vamos voltar — ela disse. — Eu preciso descansar, e quero ficar longe de confusão.
O grupo assentiu com relutância. Riven lançou um último olhar para Kaleo antes de seguir atrás, mas sem dizer mais nada.
Kaleo caminhou em silêncio ao lado de Katleya. Eles não se tocaram Mas ela estava ali, Perto, Firme, Do lado dele.
E isso…
valia mais do que qualquer toque.