Capítulo 9 - DISTÂNCIAS QUE QUEIMAM

1001 Palavras
Já estavam a poucos passos da fronteira do território do acampamento verde. As torres improvisadas, os olhares atentos dos vigias… tudo começava a surgir entre os escombros, como uma promessa de segurança. Katleya caminhava em silêncio Mas seu peito estava agitado E não era pelo esforço. Era por ele, Por Kaleo. Ele não dizia nada desde o encontro com o grupo, Seu rosto estava fechado, o olhar duro e focado no horizonte. Aquela expressão de quem já decidiu alguma coisa e não vai voltar atrás. Quando finalmente pararam perto da entrada, ele se virou, Olhou pra ela por um segundo que pareceu eterno E então, com a voz baixa e grave, ele disse: — Você já está segura. A partir daqui… é com você. As palavras cortaram o ar como aço frio. Katleya franziu o cenho. — Vai embora assim? Ele não respondeu de imediato, Desviou os olhos, observando os arredores. O vento mexia os fios rebeldes do cabelo dele. A postura firme, os ombros largos, o maxilar travado. — Cumpri o que prometi. Não sou bem-vindo aqui — ele disse por fim, com um meio sorriso que escondia tudo o que ele não dizia. — Não tem ninguém te expulsando — ela rebateu, dando um passo à frente. — Se não for bem-vindo, deixa que decidam. Eu… decido. Kaleo a encarou, O olhar dele queimava. Como se quisesse dizer mil coisas, mas se obrigava a não falar nenhuma. Atrás deles, Riven observava de longe, Braços cruzados, maxilar cerrado, olhos fixos nos dois. — Eu não pertenço ao seu mundo, Katleya — Kaleo disse, mais baixo, com a voz grave vibrando no peito. — Eu sou sombra, Fui criado pra guerra, não pra… isso. Ela deu outro passo. Agora estava perto o bastante pra sentir o calor que emanava dele. — E se eu quiser você no meu mundo? Silêncio. Ele respirou fundo, Fechou os olhos por um breve momento, como se lutasse contra algo dentro dele. Quando abriu, havia uma suavidade escondida ali. Bruta. Masculina. Real. — Cuidado com o que deseja. E se virou de costas. Mas antes que desse dois passos, ela estendeu a mão e segurou o braço dele. — Fica. Ele parou. Não virou de imediato Mas o corpo inteiro dele reagiu ao toque dela. Tenso. Vivo. Atento. — Nem que seja só por um tempo. Você me salvou, Me cuidou, Me protegeu quando ninguém mais podia.— Deixa que agora eu faço isso por você. Kaleo virou devagar. Ela viu os olhos dele brilharem Verde-mel, como na visão, Como nos sonhos. Ele passou a língua pelos lábios, nervoso, o que nela causou um arrepio. — Só por um tempo — ele disse, quase como um aviso. Ela sorriu de leve. — Já é o suficiente. Ao fundo, Riven desviou o olhar, mas não sem antes lançar um último olhar a Katleya. Ele sabia, Estava perdendo E nem sabia como lutar contra aquilo. Kaleo entrou no acampamento como um predador entrando em território desconhecido. O corpo ereto, os olhos atentos, a postura de quem nunca relaxa, como se o chão pudesse virar inimigo a qualquer momento E ainda assim… ele exalava uma calma perigosa, Aquela calma de quem sabe exatamente do que é capaz E, claro, chamou atenção no segundo em que pisou ali. Três meninas do acampamento estavam próximas à entrada, organizando suprimentos. Pararam. Congelaram. E trocaram olhares como se tivessem acabado de ver um cometa em forma de homem. — Kat… — sussurrou Ayla, a melhor amiga debochada, com o olhar vidrado em Kaleo. — Quem é esse sonho apocalíptico ambulante? — Um aliado — Katleya respondeu rápido, tentando parecer firme, sem encarar diretamente Kaleo. Mas ele, claro, já a olhava. — Só um aliado? — murmurou Lira, a outra garota, com uma sobrancelha arqueada. — Ele parece mais um protetor pessoal… ou um caso m*l resolvido. Kat forçou um riso. — Ele salvou minha vida, só isso. — “Só isso”, repete mais uma vez pra ver se a gente acredita — provocou Ayla, se inclinando pra ela com um sorriso malicioso. Foi quando Kaleo se aproximou, Ele parou ao lado de Kat, sério, observando as outras como quem avalia possíveis ameaças ou como quem não tá nem aí, desde que kat esteja perto. — Sou Kaleo — disse, a voz grave e direta. Ayla não perdeu tempo. — Kaleo… bonito nome. Quase tão bonito quanto o jeito que ela te desenha. Katleya arregalou os olhos. — Ayla! — ela murmurou, entre os dentes. — O quê? — respondeu a amiga, fingindo inocência. — Ele já tá aqui mesmo, já viu coisa pior… tipo você quase morrendo, né? Kaleo virou lentamente o rosto pra Katleya. Um canto da boca dele subiu. Quase imperceptível. Mas estava lá. — Você me desenha? — perguntou, sem ironia. Sem sarcasmo. Só aquele tom profundo que deixava tudo mais intenso. Katleya ficou vermelha. — Era antes… dos sonhos. Não é nada demais. — Eu achei impressionante. — Ayla bateu com o cotovelo no braço de Kat, sussurrando. — Sabe como é, ela fazia com tanto detalhe que parecia que já tinha visto cada músculo dele bem de perto… Riven, parado ao fundo, observava. A expressão dele era como um céu prestes a desabar. Ciúmes. Frustração. Raiva. E a pior parte era: ele sabia que estava perdendo espaço. — Katleya — ele chamou, a voz seca. Ela virou, respirando fundo. — Riven. — Precisamos falar sobre a patrulha de amanhã. — Fala com o líder de equipe. Não sou mais responsável por esse setor — ela respondeu, firme, com o queixo erguido. — Tô focada em outras coisas agora. Kaleo desviou os olhos, fingindo que não tinha ouvido. Mas era nítido no leve arquear da sobrancelha dele: ele estava adorando a tensão. As meninas se dispersaram, mas Ayla ainda olhou por cima do ombro e cochichou pra Katleya: — Se você não pegar esse homem, eu pego.— Kat não respondeu, Só lançou um olhar afiado, felino.
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