noite havia se espalhado sobre o acampamento como uma cortina espessa. As luzes improvisadas m*l conseguiam afastar a escuridão que envolvia os escombros, mas Katleya conhecia cada canto daquele lugar e ainda assim, naquela noite, ela hesitou. Parada em frente ao alojamento improvisado onde Kaleo estava hospedado, sua mão pairava no ar, prestes a bater, Respirou fundo.
— É só pra mostrar o lugar, é só pra mostrar o acampamento… e a sala da responsável, Nada demais.— Ela dizia isso pra si mesma, mas seu coração batia mais rápido do que deveria.
Ela bateu, a porta se abriu antes mesmo do segundo toque, Kaleo estava ali, de frente para ela.
Camisa escura, mangas dobradas até os antebraços.
A luz fraca fazia sombra nas curvas dos músculos, seus Os olhos… Verde-mel como ouro líquido.
— Katleya — ele disse, a voz baixa, arrastada, como se já soubesse que ela viria. — Perdida?
— Vim te mostrar o acampamento . — Ela ergueu o queixo, tentando parecer neutra. — E te levar até a responsável, Ela quer te conhecer.
Ele arqueou uma sobrancelha, deu um passo pro lado e disse:
— Pode entrar. Só vou pegar meu casaco.
Ela entrou. O lugar era simples, Organizado, Completamente masculino. Cheiro de courino , metal… e dele.
Ela não ousou sentar, Apenas caminhou alguns passos, de braços cruzados, tentando ignorar a presença imensa dele ao seu redor.
— Você tá diferente — ele comentou, vestindo o casaco sem pressa.
— Diferente como?
— Mais… cuidadosa, Reservada. — Ele deu um passo, passando por trás dela. A voz veio perto do ouvido. — Comigo.
Ela engoliu seco.
— Talvez seja porque eu costumo mostrar o acampamento em silêncio — respondeu, saindo de perto dele.
Ele sorriu de lado.
— E os desenhos também são em silêncio?
Ela parou.
— Ayla tem a boca maior do que devia.
— E você tem mãos talentosas — ele respondeu, se aproximando mais uma vez. — Você me desenhou antes de me conhecer
Katleya sentiu o rosto esquentar.
— Vamos. Ela não gosta de atrasos.
Ele assentiu, e os dois saíram.
O caminho foi silencioso no início. As construções improvisadas, o espaço comum, a área de treinos… Kat foi guiando com firmeza, mas com a cabeça a mil.
Kaleo andava ao lado como se já conhecesse tudo, Como se não pertencesse, mas dominasse.
Quando se aproximaram da sala da responsável, ele falou:
— Por que você quer que eu fique?
Kat parou.
— Eu não disse que queria.
— Mas não quer que eu vá.
Silêncio.
Ela se virou pra ele, O olhar firme, mas o corpo inteiro tenso.
— Você salvou minha vida. Seria e******o te deixar partir sem mostrar que aqui também pode ser seu lar. Só isso.
— Só isso. — Ele repetiu, encarando-a como se pudesse ver cada camada de mentira.
A porta se abriu.
— Katleya — disse uma mulher de presença firme, cabelos curtos e olhos de guerreira. — Esse é o forasteiro?
— Kaleo — ele disse, entrando com a postura reta, olhos atentos, educado… mas ainda assim intimidante.
A mulher o observou por um instante longo demais.
— Ouvi que você salvou a minha garota favorita.
Katleya bufou.
— Nem começa…
A responsável sorriu, mas o olhar dela logo ficou sério.
— E ouvi que é perigoso, Que não é daqui, Que luta como um animal treinado pra guerra.
Kaleo manteve o olhar.
— Tudo isso é verdade.
— E por que devo confiar em você?
Ele olhou para Katleya.
E foi ali, com os olhos presos nos dela, que ele respondeu:
— Porque ela confia.
Katleya sentiu o coração errar o compasso.
A mulher olhou para os dois, Ergueu uma sobrancelha E sorriu de canto
— Tá. Vamos conversar.
A sala da responsável do a acampamento era pequena, mas imponente. Mapas nas paredes, armas dispostas em ganchos improvisados, e um grande painel de estratégias digitais, funcionando aos trancos e barrancos. Ali era o cérebro da sobrevivência.
A mulher se sentou atrás da mesa e indicou duas cadeiras de frente. Katleya foi direto, mas Kaleo permaneceu de pé.
— Ele não gosta de ficar vulnerável — Kat comentou, quase como desculpa.
— Soldados assim nunca gostam — a responsável respondeu, sem tirar os olhos de Kaleo. — Sente, guerreiro. Aqui ninguém vai te atacar.
Kaleo hesitou, Depois se sentou porém não relaxou.
— Então… — ela começou, os dedos tamborilando sobre o painel. — Um homem que surge do nada, com habilidades além do esperado, genética alterada, e olhos que parecem atravessar a alma. Por que não te expulsei na primeira hora?
— Porque sabe reconhecer um aliado quando vê um — ele respondeu, direto. A voz baixa, firme, sem hesitação.
A mulher arqueou uma sobrancelha.
— Confiança demais pra alguém que ainda não provou nada.
— Salvar Katleya não foi o bastante?
— Foi um começo — ela admitiu. — Mas aqui não basta salvar uma pessoa. A gente precisa de soldados, não heróis solitários.
Kaleo se inclinou um pouco, O olhar queimava.
— Eu luto. Eu caço. Eu protejo. E não hesito. Se isso não serve, então talvez vocês não mereçam o que tenho a oferecer.
PÁ.
Silêncio.
A tensão dava para ser cortada com a lâmina de um canivete enferrujado.
Katleya olhou de lado. Ele era um caos calmo, Frio como aço, mas carregado de fogo por dentro.
A responsável não recuou, Mas… sorriu.
— Sabe se vender bem.
— Eu não me vendo. Eu me ofereço.
— E por quê?
Ele voltou o olhar pra Katleya E foi aí que a mulher entendeu tudo.
— Entendi — ela disse, reecostando na cadeira— Fique, Mas me prove que vale o espaço que ocupa.
— sim, senhora.
E a reunião terminou ali. Ela não disse mais nada, Mas o olhar dela pra Katleya dizia tudo:
“Você se meteu em uma encrenca deliciosa, garota.”
Katleya saiu com passos rápidos, tentando fingir que não estava alterada, Mas ele veio logo atrás.
— Você foi intenso lá dentro. — Ela falou sem olhar pra ele.
— Você queria que eu fosse o quê? Cordial?
— Só mais… político.
— Eu não sei fingir, Katleya.
Ela parou.
O nome dela dito daquela forma… Carregado, Sério, Masculino demais.
Ela se virou.
— E o que exatamente você não finge?
Ele se aproximou, Devagar, Os olhos colados nos dela, A respiração pesada, O queixo marcado, A boca firme.
— Eu não finjo que te observo desde o primeiro dia, Katleya. Não finjo que percebo o jeito que você tenta me evitar.
Ela recuou um passo mas a parede estava ali Literalmente.
Ele chegou mais perto, Só o bastante pra fazer o corpo dela acender, sem nem encostar.
— Você não me conhece — ela sussurrou.
— Eu te sinto.
Silêncio.
Ela engoliu seco.
— Você devia dormir.
— Eu não durmo direito desde que comecei a sonhar com você.
As palavras atingiram como um impacto. Ela quis negar, Quis fingir que não sentia o mesmo Mas ele se afastou antes que ela pudesse reagir.
— Boa noite, Katleya.
E sumiu entre os escombros. Ela encostou na parede, o coração martelando.
Ele sabia, Ele sentia E ela não fazia a menor ideia de como continuar fingindo.