Capítulo 10 - SÓ UMA VISITA NOTURNA

1213 Palavras
noite havia se espalhado sobre o acampamento como uma cortina espessa. As luzes improvisadas m*l conseguiam afastar a escuridão que envolvia os escombros, mas Katleya conhecia cada canto daquele lugar e ainda assim, naquela noite, ela hesitou. Parada em frente ao alojamento improvisado onde Kaleo estava hospedado, sua mão pairava no ar, prestes a bater, Respirou fundo. — É só pra mostrar o lugar, é só pra mostrar o acampamento… e a sala da responsável, Nada demais.— Ela dizia isso pra si mesma, mas seu coração batia mais rápido do que deveria. Ela bateu, a porta se abriu antes mesmo do segundo toque, Kaleo estava ali, de frente para ela. Camisa escura, mangas dobradas até os antebraços. A luz fraca fazia sombra nas curvas dos músculos, seus Os olhos… Verde-mel como ouro líquido. — Katleya — ele disse, a voz baixa, arrastada, como se já soubesse que ela viria. — Perdida? — Vim te mostrar o acampamento . — Ela ergueu o queixo, tentando parecer neutra. — E te levar até a responsável, Ela quer te conhecer. Ele arqueou uma sobrancelha, deu um passo pro lado e disse: — Pode entrar. Só vou pegar meu casaco. Ela entrou. O lugar era simples, Organizado, Completamente masculino. Cheiro de courino , metal… e dele. Ela não ousou sentar, Apenas caminhou alguns passos, de braços cruzados, tentando ignorar a presença imensa dele ao seu redor. — Você tá diferente — ele comentou, vestindo o casaco sem pressa. — Diferente como? — Mais… cuidadosa, Reservada. — Ele deu um passo, passando por trás dela. A voz veio perto do ouvido. — Comigo. Ela engoliu seco. — Talvez seja porque eu costumo mostrar o acampamento em silêncio — respondeu, saindo de perto dele. Ele sorriu de lado. — E os desenhos também são em silêncio? Ela parou. — Ayla tem a boca maior do que devia. — E você tem mãos talentosas — ele respondeu, se aproximando mais uma vez. — Você me desenhou antes de me conhecer Katleya sentiu o rosto esquentar. — Vamos. Ela não gosta de atrasos. Ele assentiu, e os dois saíram. O caminho foi silencioso no início. As construções improvisadas, o espaço comum, a área de treinos… Kat foi guiando com firmeza, mas com a cabeça a mil. Kaleo andava ao lado como se já conhecesse tudo, Como se não pertencesse, mas dominasse. Quando se aproximaram da sala da responsável, ele falou: — Por que você quer que eu fique? Kat parou. — Eu não disse que queria. — Mas não quer que eu vá. Silêncio. Ela se virou pra ele, O olhar firme, mas o corpo inteiro tenso. — Você salvou minha vida. Seria e******o te deixar partir sem mostrar que aqui também pode ser seu lar. Só isso. — Só isso. — Ele repetiu, encarando-a como se pudesse ver cada camada de mentira. A porta se abriu. — Katleya — disse uma mulher de presença firme, cabelos curtos e olhos de guerreira. — Esse é o forasteiro? — Kaleo — ele disse, entrando com a postura reta, olhos atentos, educado… mas ainda assim intimidante. A mulher o observou por um instante longo demais. — Ouvi que você salvou a minha garota favorita. Katleya bufou. — Nem começa… A responsável sorriu, mas o olhar dela logo ficou sério. — E ouvi que é perigoso, Que não é daqui, Que luta como um animal treinado pra guerra. Kaleo manteve o olhar. — Tudo isso é verdade. — E por que devo confiar em você? Ele olhou para Katleya. E foi ali, com os olhos presos nos dela, que ele respondeu: — Porque ela confia. Katleya sentiu o coração errar o compasso. A mulher olhou para os dois, Ergueu uma sobrancelha E sorriu de canto — Tá. Vamos conversar. A sala da responsável do a acampamento era pequena, mas imponente. Mapas nas paredes, armas dispostas em ganchos improvisados, e um grande painel de estratégias digitais, funcionando aos trancos e barrancos. Ali era o cérebro da sobrevivência. A mulher se sentou atrás da mesa e indicou duas cadeiras de frente. Katleya foi direto, mas Kaleo permaneceu de pé. — Ele não gosta de ficar vulnerável — Kat comentou, quase como desculpa. — Soldados assim nunca gostam — a responsável respondeu, sem tirar os olhos de Kaleo. — Sente, guerreiro. Aqui ninguém vai te atacar. Kaleo hesitou, Depois se sentou porém não relaxou. — Então… — ela começou, os dedos tamborilando sobre o painel. — Um homem que surge do nada, com habilidades além do esperado, genética alterada, e olhos que parecem atravessar a alma. Por que não te expulsei na primeira hora? — Porque sabe reconhecer um aliado quando vê um — ele respondeu, direto. A voz baixa, firme, sem hesitação. A mulher arqueou uma sobrancelha. — Confiança demais pra alguém que ainda não provou nada. — Salvar Katleya não foi o bastante? — Foi um começo — ela admitiu. — Mas aqui não basta salvar uma pessoa. A gente precisa de soldados, não heróis solitários. Kaleo se inclinou um pouco, O olhar queimava. — Eu luto. Eu caço. Eu protejo. E não hesito. Se isso não serve, então talvez vocês não mereçam o que tenho a oferecer. PÁ. Silêncio. A tensão dava para ser cortada com a lâmina de um canivete enferrujado. Katleya olhou de lado. Ele era um caos calmo, Frio como aço, mas carregado de fogo por dentro. A responsável não recuou, Mas… sorriu. — Sabe se vender bem. — Eu não me vendo. Eu me ofereço. — E por quê? Ele voltou o olhar pra Katleya E foi aí que a mulher entendeu tudo. — Entendi — ela disse, reecostando na cadeira— Fique, Mas me prove que vale o espaço que ocupa. — sim, senhora. E a reunião terminou ali. Ela não disse mais nada, Mas o olhar dela pra Katleya dizia tudo: “Você se meteu em uma encrenca deliciosa, garota.” Katleya saiu com passos rápidos, tentando fingir que não estava alterada, Mas ele veio logo atrás. — Você foi intenso lá dentro. — Ela falou sem olhar pra ele. — Você queria que eu fosse o quê? Cordial? — Só mais… político. — Eu não sei fingir, Katleya. Ela parou. O nome dela dito daquela forma… Carregado, Sério, Masculino demais. Ela se virou. — E o que exatamente você não finge? Ele se aproximou, Devagar, Os olhos colados nos dela, A respiração pesada, O queixo marcado, A boca firme. — Eu não finjo que te observo desde o primeiro dia, Katleya. Não finjo que percebo o jeito que você tenta me evitar. Ela recuou um passo mas a parede estava ali Literalmente. Ele chegou mais perto, Só o bastante pra fazer o corpo dela acender, sem nem encostar. — Você não me conhece — ela sussurrou. — Eu te sinto. Silêncio. Ela engoliu seco. — Você devia dormir. — Eu não durmo direito desde que comecei a sonhar com você. As palavras atingiram como um impacto. Ela quis negar, Quis fingir que não sentia o mesmo Mas ele se afastou antes que ela pudesse reagir. — Boa noite, Katleya. E sumiu entre os escombros. Ela encostou na parede, o coração martelando. Ele sabia, Ele sentia E ela não fazia a menor ideia de como continuar fingindo.
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