Capítulo 4 - SUA PELE NA MINHA MEMÓRIA

879 Palavras
(Ponto de vista de Kaleo) Era noite no setor 9, mas Kaleo não dormia, Ele nunca dormia bem, Seu corpo era programado para vigília, resposta rápida, sobrevivência Mas desde que a viu… Desde que os olhos dela cruzaram os dele no meio do caos… tudo mudou. Aquela garota. Katleya. Havia algo nela que ele não entendia E isso o deixava furioso Mas naquela noite, pela primeira vez em anos.. ele sonhou. O chão não existia. O céu era um vermelho queimarrotina, o mundo era só calor, e no centro desse calor, ela estava lá. Katleya com os cabelos soltos, pele cintilando, os olhos em chamas. Não dizia nada mas ele sentia tudo. Sentia o medo dela, a excitação, a dúvida, a entrega. —Como?…. Como era possível? Ele tentou se mover, Quando chegou perto, ela o tocou primeiro E tudo nele… tremeu. — Você me chamou — ele disse, sem entender de onde veio a frase. Ela assentiu. E quando seus dedos tocaram os dela, foi como se mil sistemas entrassem em pane. Sua pele reagiu como nunca. Os sensores de dor e prazer se misturaram. Ele a sentia. Não como um soldado, Não como uma ameaça, Mas como… uma alma. O beijo aconteceu sem aviso, Não foi planejado, tático, frio, Foi animal, Instintivo, Doloroso de tão bom. E no meio daquilo tudo… ele sentiu o coração dela. O desejo dela. O toque dela. Era como se ela o invadisse. Como se ela o visse como ninguém jamais viu E pela primeira vez desde que fora criado… ele não queria lutar, Não queria fugir. Ele só queria ela. Quando os corpos se fundiram no sonho, ele a segurou como se pudesse perdê-la. — Isso não é um erro — ele sussurrou. — Eu sei — ela respondeu, entre gemidos. Mas então, ela sumiu, Como fumaça, Como ilusão e Kaleo acordou, Ofegante, Suado, Com uma marca no peito Pulsando, Ardendo, Viva. Ela era real e agora ele sabia onde encontrá-la. Narração : A missão era simples: Voltar ao ponto onde haviam encontrado mantimentos e tentar recuperar o que não conseguiram levar, Só comida e água, Rápido e Limpo mas nada era simples desde que Katleya sonhou com Kaleo. Ela andava pelo mundo como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo, Metade no acampamento e outra metade… com ele. Enquanto o grupo avançava, ela ficou para trás, distraída por algo, Um cheiro, Um som, Uma sensação, Como se alguém a chamasse sem voz. — Kat! Anda logo! — gritou Riven longe. Mas ela já estava descendo por uma escadaria de concreto quebrado, atraída por… nada Ou tudo. E quando percebeu, não ouvia mais ninguém. Estava sozinha e a quilômetros do acampamento, Tinha se perdido do grupo. O comunicador estava falhando E o sol começava a cair, os dias eram rápidos, não sustentava o dia e a luz por muito. Ela praguejou. Tentou subir de volta mas por uma fração de segundos o caminho desabou diante dela, com tudo frágil e úmido, já era de se esperar. — Merda… Sem escolha, Katleya montou abrigo improvisado numa antiga sala subterrânea. Ali, o tempo parecia parar, Mas o coração dela não.. Batidas fortes como um tambor, Tremores internos, Ela encostou na parede. Fechou os olhos E sussurrou em um pensamento forte : proteção. A poucos quilômetros dali, Kaleo parou de andar. Ele sentiu Com força um frio no peito, ansiedade na garganta, certeza de que ela estava com medo, Sozinha, Esperando por ele. Ele fechou os olhos, Respirou fundo E a viu, Não com os olhos Mas com a alma, Encolhida, respirando rápido, segurando os joelhos, A dor dela era dele. Ele levou a mão ao peito. A marca brilhava como fogo fraco. Eles não estavam sonhando mas estavam conectados. Por instantes… o mundo desapareceu e só restou isso, O som da respiração, O toque invisível entre os dois, O calor de um corpo que nunca se viu… mas que o seu reconhece e naquele momento, mesmo separados por ruínas e poeira… eles se abraçaram com a alma. A noite caiu como um nocaute. O subterrâneo parecia respirar, goteiras pingando em ritmos irregulares, Sons de metal torcido, O eco do próprio coração, mas o mais forte era aquilo que ela não conseguia nomear, Presença. Ela se deitou sobre um colchão velho coberto por pedaços de tecido improvisado, Fechou os olhos e sentiu um calor começar no peito. A marca. Não acendia. Mas queimava Como se alguém estivesse a centímetros de sua pele, Ela virou o rosto para o lado, e sentiu o perfume, Não era possível Mas era real. Ela não ousou dizer em voz alta Mas o coração já sabia. Ele parou de novo. Era o terceiro passo que dava e congelava no lugar. A urgência, Ele não sabia onde ela estava Mas o peito doía, Como se algo dentro dele lutasse pra sair correndo, voando até ela. Se ajoelhou no chão, encostando a testa na terra seca, Fechou os olhos E ela apareceu, Não o rosto Mas o sentimento, Ela estava com medo, Ela estava forte, Ela precisava sobreviver. O instinto de proteção rugiu dentro dele, O soldado queria rastrear, O homem queria correr Mas a alma… Ela só sentia E doía. Ele murmurou sem saber por quê: — Fica viva.
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