— Sério que você não se deu ao trabalho de vestir algo mais apropriado? – Marina revirou os olhos quando deu de cara com a sócia que ainda vestia as mesmas calças de alfaiataria preta, blazer da mesma cor e camisa branca que passou todo o dia.
Elizabeth conferiu embaixo de cada braço e fez uma careta.
— Fique tranquila, posso garantir que não estou fedendo.
— Esse seu protesto é ridículo?
— Ainda estou em horário de trabalho, não tinha porque me fantasiar com roupa de formatura. – A morena deu os ombros, enquanto os seus olhos julgavam o vestido de paetê que adornava o corpo pálido de Marina.
— Eliza, eles precisavam de uma resposta. Eu esperei por uma semana… – A ruiva conferiu o batom em seu reflexo no vidro da porta.
— Achei que o meu silêncio fosse o suficiente…
Marina já tinha uma contra resposta na ponta da língua quando as portas do elevador se abriram e a impediram de continuar a discussão sem futuro.
***
As sócias entraram no salão, após passarem pela recepção e receberem o número da mesa onde se sentariam, na sequência um gentil rapaz serviu duas taças de espumantes e certificou-se de que elas estavam confortáveis em seus lugares, por sorte a mesa era de quatro lugares, porém não haviam outros nomes ali, além dos delas.
Logo o salão da empresa Aslan estava tomado por empresários, pessoas da área de marketing, influenciadores, jornalistas, funcionários e amigos da prestigiada família.
Os Aslans estavam se modernizando e o velho Mustafah, pronto para passar o bastão. Agora era a vez de Evren assumir seu posto, assim como seu irmão Tolga já havia feito quase duas décadas atrás quando foi para a Ásia, estudar como toda a indústria têxtil funcionava.
Alguns anos mais tarde, Evren se juntou a ele e juntos expandiram o negócio familiar para uma multinacional, que agora opera no continente asiático e alguns pontos na europa.
Mustafah estava orgulhoso de seus filhos, poderia enfim ter seu tão almejado descanso ao lado de sua bela esposa. Os planos eram passar a direção da empresa no Brasil para Evren, Tolga iria continuar gerindo tudo da Turquia e os pais, iriam viajar o mundo, sem destino definido. Como não se orgulhar de seu feito? No final, tudo saiu como planejado e o momento para sair de cena não podia ser mais perfeito. Pelo menos assim eles pensavam…
***
Quando a família chegou ao espaço, foram recebidos com aplausos. O senhor e a senhora Aslan lideravam o grupo que desfilava até o palco, logo atrás vinham os filhos. Tolga de braços dados com sua esposa, que também segurava a jovem filha pela mão. O filho mais velho deles, Yusuf, caminhava poucos passos depois do pai, lado a lado com seu tio… Evren.
As mãos de Elizabeth suavam e ela conseguia sentir o coração palpitando descompassadamente. Tentou disfarçar o rubor com uma boa golada de espumante. E mesmo desviando o olhar, era impossível não sentir a presença dele.
Já Evren caminhava tranquila e altivamente, sempre frio e sem qualquer expressão. A cabeça erguida e olhar reto. Ele não se permitia distrações. Estava ali por um propósito e iria cumpri-lo com todo seu profissionalismo.
Seguindo todas as pompas, homenagens e honrarias recebidas, o velho Mustafah Aslan fez seu discurso emocionado antes de passar a palavra ao filho caçula. No meio dos convidados, Elizabeth estava visivelmente alheia ao que ocorria à sua volta, absorta em seu celular, checando e respondendo e-mails.
— Sério que você está trabalhando no meio do evento? – Marina observava incrédula.
— Poderia estar fazendo isso de casa. – a outra respondeu, sem dar muita atenção.
Queria focar em suas mensagens. Porém ambas sabiam que o que ela realmente queria era uma distração que a impedisse de olhar na direção do palco. Queria continuar escondida atrás da tela do celular, como se o pequeno fosse um escudo, capaz de torná-la invisível aos olhos dos protagonistas. Ela já fazia muito em estar dividindo o mesmo espaço que eles após tantos anos de total falta de contato. E por uma falta de senso de sua sócia, agora estava jogada na cova dos leões, faria o seu melhor para não ser novamente devorada.
— Quantas vezes terei que me desculpar? – Marina bateu seu ombro contra o da amiga.
— Eu só espero que esse contrato valha muito a pena e nos deixe ricas o suficiente para que eu possa esquecer todas as vezes em que fui ignorada. – Elizabeth retrucou, mantendo o tom de voz o mais baixo possível. Ainda pretendia terminar a noite em paz, no seu anonimato.
— Juro jurandinho que não me atrevo mais a decidir nada sem sua autorização… – A ruiva estendeu o dedinho. Mas a sócia o empurrou de pronto. Sabia que isso não passava de um blefe, como em todas as outras vezes.
— Não seja ridícula… – Antes que pudesse completar a frase, uma voz rouca, máscula e muito conhecida, tomou seus ouvidos.
— Eu espero que todos estejam sendo muito bem tratados nesta noite tão especial para minha família… – O homem fez uma breve pausa, com os olhos, fez uma breve varredura no salão e assim prosseguiu. — E para mim também, claro! – Deixou um leve sorriso escapar quando Elizabeth finalmente tomou coragem de mirá-lo.
— Maldito seja! – Ela praguejou.
— O que? – Marina quase precisou limpar a baba, o bonitão no palco também havia ganhado sua atenção completamente.
— Nada! – Deu um último gole em sua bebida. — Preciso sair daqui. – Eliza estava farta de tudo aquilo. Não iria mais fazer parte dos joguinhos sujos daquela família que tanto a ofendeu e humilhou. Ela não era mais uma garota inocente e indefesa que eles podiam manipular como bem entendiam. Agora era uma mulher independente e casca grossa.
— Mas Eli… – Ela já não era mais capaz de ouvir a amiga. Não era capaz de ouvir ninguém. Seus ouvidos estavam completamente tapados pelo forte zunido que a ensurdecia. Seu coração estava descompassado, o estômago doía como se tivesse levado um soco. Foi inteligente da sua parte sair enquanto era capaz de andar sozinha.
***
Na cobertura de luxo de um dos prédios mais caros da cidade de São Paulo, uma taça já estava estilhaçada no chão quando outra se espatifou por cima. Na sequência um grito. Não era um grito de dor física, mas sim uma dor muito pior… aquela que vem da alma.
Elizabeth deixou as costas baterem contra a parede e o corpo escorreu até o chão. A advogada chorou por horas… um choro de dor, de ódio, ressentimento e por fim, o cansaço foi mais forte e a venceu. Ela dormiu soluçando em posição fetal, exatamente a mesma posição e o mesmo choro como da última vez, quinze anos atrás.