CAPÍTULO 7

1449 Palavras
A segunda-feira foi difícil, Elizabeth arrastou o corpo para fora da cama com muita dificuldade, quase perdeu a hora, mas teve que acordar após o teimoso alarme insistir em tocar por trinta minutos. Dessa vez ela não se animou para o banho frio, nem o skin care habitual. Também dispensou o shot matinal para a imunidade e o personal trainer. Optou por um café extremamente forte e sem açúcar. Vestiu o roupão por cima do pijama, fez um coque alto e decidiu trabalhar de casa. Sem um pingo de vontade de enfrentar a sócia e ter que justificar as olheiras gigantes, ela apenas enviou uma mensagem dizendo que acordou sentindo dor de estômago e faria home office. Não se deu ao trabalho de ler a resposta. A ressaca a pegou de jeito. Não era para menos, afinal foram dois dias regados a vinho e whisky, Elizabeth queria se enterrar na bebida e esquecer aquele lindo par de olhos azuis que ela acreditava ter se tornado imune. O fato de eles mexerem com ela ao ponto de desestruturá-la a fez sentir o gosto amargo da derrota. Eliza dedicou todo o seu dia ao trabalho, quanto mais mantivesse a sua cabeça ocupada, menos tempo teria para pensar em Evren. E assim ela fez. Nem sequer viu a hora passar, parou para comer quando já estava morrendo de fome e só aí se deu conta de que o dia estava chegando ao fim. A empregada já havia ido embora, então resolveu pedir algo para comer por aplicativo, devorou um hambúrguer com batatas fritas e após um bom tempo evitando refrigerantes, mandou meio litro de Coca-cola para dentro com bastante facilidade. Parecia estar há meses sem se hidratar. *** — Que cena deprimente… – Marina m*l podia crer no que os seus olhos viam. — Quem te autorizou a entrar aqui? – A advogada surpreendida limpou a boca cheia de maionese com as costas da mão. — Você! – A ruiva juntou-se à amiga e puxou uma cadeira à mesa. — Quando cadastrou o meu lindo rostinho no sistema de segurança e me deu as senhas de acesso ao seu apartamento… – Puxou uma batatinha e a enfiou na boca. — Bem lembrado, vou cancelar o seu acesso agora mesmo. – Mas antes, ela mordeu o último pedaço do hambúrguer. — Vamos ser honestas aqui… – Marina queria a atenção plena da amiga. Então colocou a sua mão sobre a dela. — Eu sei que você tem me evitado desde sexta-feira. E eu pensei que estivesse brava comigo por ter te obrigado a ir no evento dos Aslans… mas vendo você assim, neste estado deplorável, me faz crer que tem coisa muito pior que o ódio pelo senhor Mustafah em toda essa história. Eliza desviou o olhar. Poderia chorar e até teve vontade, mas fez isso durante todo o final de semana, então não restavam mais lágrimas disponíveis. — Já falamos sobre isso, Má! Aquele velho s****o demitiu meu pai e nos expulsou de sua casa igual cachorro. Ele humilhou a gente demais durante todos os anos que meu pai trabalhou para aquela família. Fazia sempre questão de deixar claro qual o nosso lugar. Meu pai dedicou bons anos a aquela família ingrata. Enfim, amiga… não quero ter que ficar relembrando essas coisas… — Porque dói… — Dói demais! – Concordou com a amiga. Marina apertou a mão da amiga e a alisou com o dedo polegar. — E o que o novo CEO bonitão tem a ver com isso? — Como o que tem a ver? Ele é filho daquela raposa velha… Precisa de mais motivos? — Não sei… Me diz você! – Quando Elizabeth enfim encarou a amiga, esta lhe estendeu um sorriso acolhedor. Não dava pra subestimar a inteligência e sagacidade de Marina. Fazer isso só aumentaria a sua curiosidade e o bombardeio de perguntas. Estava na hora de trazer toda a sua dor à tona. As feridas haviam sido reabertas, era melhor sangrar tudo de uma vez e curar essa m***a de verdade. *** Após horas de confissões, segredos guardados a sete chaves vieram à tona e o fato de verbalizar tudo o que passou, fez Elizabeth sentir-se leve como uma pluma. Se soubesse que confessar o seu maior segredo a amiga traria tanta paz, não teria gasto tanto dinheiro em terapia. Marina, como por um milagre, permaneceu o tempo todo calada. Algumas vezes precisava se certificar de fechar a boca, por conta do peso do queixo caído. *** — Amiga. AMIGA! – Em anos, Marina estava sem palavras pela primeira vez. — Amiga eu tô passada… chocada! – Cobriu a boca com as duas mãos. — Quer dizer, depois de ver a sua reação quando aquele gato, digo, o s****o do Evren apareceu… eu desconfiei que havia rolado alguma coisa entre vocês, um namorico, coisa de criança… afinal seu pai trabalhou muitos anos pra eles e você praticamente passou a adolescência lá, mas… — Marina, pelo amor de Deus, me prometa que isso vai morrer entre nós! – Elizabeth segurou as duas mãos da amiga e a forçou a fazer uma promessa. — Eu prometo! Claro que prometo, se depender de mim, levo o seu segredo para o túmulo. – Fez como se estivesse trancando a boca e jogando a chave fora. — Mas Eliza… amiga, como você vai encarar toda aquela família depois de tantos anos? Quero dizer, agora vamos trabalhar para eles e… — Sinceramente não sei. — Minha nossa, eu me sinto tão culpada por ter insistido em aceitar esse contrato! – Ela realmente sentia e sabia o tamanho da encrenca que arrumou para a amiga. — O contrato definitivo será assinado amanhã. O Evren quer que assinemos no escritório dele… – parou por alguns segundos e pensou. — Olha, a gente pode mandar essa empresa pra casa do c*****o e deixar essa m***a pra lá. Ainda não assinamos nada, não teremos nenhuma sanção… — Não! Não podemos abandonar essa contratação. – Eliza lamentou. Seria ótimo se fosse possível. — Não tem sanção jurídica, mas estamos falando de uma família de gente rancorosa, a maldade está enraizada naquelas pessoas… Além disso, a AIT não deixa de ser uma empresa familiar e isso quer dizer que um se dói pelo outro… Se o Evren ou o papai dele se sentirem ofendidos e levarem para o pessoal, nosso sonho de entrar para o mercado internacional já era! – Eliza levantou-se. Caminhava de um lado ao outro, tentando encontrar coragem para bater de frente com seus demônios. — Me perdoe amiga… – Marina mordeu os lábios, aflita. Entendeu o quão grave era a consequência dos seus erros. — Eu juro que não pensei que se tratava de algo tão sério. Até pensei: "bem, agora é a hora dela mostrar para esses desgraçados que o segurança pobretão deles formou uma das jovens advogadas mais bem sucedidas do país" e… — Amiga, isso agora é passado. Ok? Eu sei que você teve a melhor das intenções. Você não tinha como saber a fundo o que aconteceu e claro, infelizmente eles são capazes de melhorar o nosso portfólio, mas o que eu não entendo é que havia outras empresas na frente… por que você escolheu justo eles? Ela não culpava a amiga. Não tinha como, Marina trabalhava há alguns anos na captação de um contrato grande. Já haviam feito trabalhos isolados para algumas multinacionais, mas era a primeira vez que teriam uma como cliente fixo. Talvez Marina estivesse certa em fechar com eles, uma birra do passado não era motivo suficiente para negar alguns milhões por ano. — Eles nos escolheram. – A resposta foi algo que deixou ambas mudas. — Como assim, eles? — Então, você ficou tão p**a comigo que nem sequer me deixou explicar como houve esse contato… mas sim, uma pessoa que se identificou como parte da equipe pessoal do Evren, entrou em contato com o escritório e fizemos uma reunião online. Eles queriam que a gente fosse ao escritório deles semana passada, lembra? Mas você emburrou e aí teve aquela ligação dele semana passada… e… agora tudo faz sentido! – Era como se uma luz tivesse iluminado toda a sala onde as duas estavam. A dupla trocou um olhar confidente. Elas sabiam o que aquilo significava: Evren as escolheu! Provavelmente porque ele queria mais uma vez mostrar a Elizabeth, que ela jamais chegaria ao seu nível e que mesmo voando alto, seria incapaz de chegar ao topo sem ele. Dessa vez ela não permitiria que ele guiasse o seu destino, ao contrário, Evren conheceria outro lado muito diferente da jovem inocente, submissa e apaixonada que ele conheceu. — Amanhã vamos assinar esse maldito contrato! – Decidiu.
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