Karine
As sete da manhã eu já estava de pé, banho tomado e toda arrumada pra ir trabalhar. Me formei em Medicina Veterinária tem menos de um ano, e a minha clínica já tava funcionando há cinco meses. Graças a Deus, tinha dado tudo certo devagarinho, o negócio tava fluindo. Minha família, mesmo morando longe, sempre me apoiou. No começo foram contra, claro. Disseram que o Rio era perigoso, que eu devia procurar outro lugar. Mas eu insisti. Moro num bairro mais afastado da favela, longe do caos, num cantinho mais tranquilo da cidade.
Entrei no elevador do prédio, desci até o térreo e fui direto pro estacionamento. Coloquei minha bolsa no banco de trás, liguei o carro e parti pra clínica. O dia ainda tava só começando, mas eu já tava cheia de energia.
Já na clínica, fui direto pra minha sala. Coloquei meu jaleco, liguei o computador e abri a agenda. Tinha quinze bichinhos marcados pra hoje. Dia cheio do jeito que eu gosto. Primeiro atendimento: um senhorzinho simpático com um cachorro pequeno no colo, coisa mais fofa do mundo.
Karine: Bom dia! – falei com um sorriso, pegando a ficha e me aproximando. Examinei o cachorro direitinho, passei a medicação necessária e orientei direitinho o dono.
A manhã passou tão rápido que eu nem percebi. Quando vi, já era hora do almoço. Saí da minha sala e fui até a recepção, na parte da frente da clínica. Carol, a menina que contratei pra me ajudar, tava distraída no celular.
Karine: Oi, nosso almoço já tá chegando?
Carol: Sim, sim... deve chegar em uns quinze minutos.
Karine: Tá bem, obrigada.
Voltei pro fundo da clínica e entrei na cozinha, que ficava no final do corredor à esquerda. Peguei meu celular no bolso da calça jeans, abri o i********: e fiquei me distraindo ali enquanto esperava. Pouco depois, Carol entrou com duas marmitas nas mãos e colocou na mesa.
Peguei a minha, abri: arroz, frango, salada e vinagrete. Simples, mas tava com fome demais pra reclamar. Comemos ali mesmo, conversando, jogando conversa fora. Era bom ter companhia no meio da correria.
Depois do almoço, escovei os dentes e voltei pra minha sala. Entre um atendimento e outro, a tarde foi passando sem nem dar tempo de respirar. Já eram quase oito da noite quando atendi o penúltimo paciente do dia. Olhei a hora no celular e pensei alto:
Karine: Finalmente... vamos pra casa.
Terminei de fechar tudo na clínica e fui lá pra fora, onde Carol já me esperava. Estávamos na calçada, trancando a porta, enquanto ela esperava o Uber.
Carol: Hoje foi puxado, hein?
Karine: Demais... e amanhã nem precisa vir. Vou fechar a clínica pra organizar umas coisas no meu apê. Ainda vou dar um pulo no shopping, acredita?
Carol: Eita... vou tirar o dia pra descansar então. Mas olha, essa hora o shopping deve tá cheio.
Bufei, cansada. Só de pensar. O carro dela chegou, dei um tchau com a mão e fui pro meu carro. Entrei, coloquei o cinto e liguei o motor. No som, uma playlist calma começou a tocar. Dirigi em direção ao shopping achando que seria só mais uma parada rápida.
Mal sabia eu... que nada seria normal depois daquela noite.