Eduarda
Depois que meu irmão saiu pra boca, eu e Melinda voltamos a dormir mais um pouco. Quando acordei, já era por volta das nove da manhã. Deixei ela deitadinha na minha cama e fui escovar os dentes. Da porta do banheiro, eu ficava de olho nela esparramada no travesseiro, mexendo os pezinhos. Quando terminei, peguei ela no colo e saí do quarto.
Desci as escadas com cuidado. No último degrau, a porta da sala se abriu e Natan entrou com duas sacolas nas mãos.
Eduarda: Ei. – falei, me aproximando.
Natan: Oi, preta. Teu irmão mandou eu vir deixar isso pra vocês duas. – ergueu as sacolas e logo depois veio me dar um selinho rápido.
Eduarda: Vai ficar com a gente um pouco?
Natan: Claro, né. Tava com mó saudade de tu.
Eduarda: A gente se viu anteontem, rum... – resmunguei com um sorrisinho enquanto seguia pra cozinha, com ele logo atrás.
Coloquei Melinda na cadeirinha de alimentação, e Natan colocou as sacolas sobre a mesa. Abri e vi pão, Danone pra Melinda, biscoito, suco... tudo que eu costumava pedir. Primeiro alimentei a pequena, que logo começou a querer descer da cadeirinha e engatinhar pelo chão. Deixei ela explorar, como sempre fazia.
Sentei à mesa, mordendo um pedaço de pão, e Natan já veio se encaixando entre minhas pernas. Passou os braços pela minha cintura, começou a cheirar meu pescoço daquele jeito que só ele sabe e, como sempre, me arrepiou inteira. Sorri de canto, terminei de mastigar, e afastei ele um pouco com as mãos no peito.
Eduarda: Tô cansada desse rolo, sabia? De ficar se pegando escondido do meu irmão...
Natan: É complicado, mas a gente já tava ciente quando começou a se envolver, tu tá ligada, né?
Eduarda: Eu sei, amor... só que... affs, é r**m demais desse jeito, sabia? – mordi de leve os lábios dele, e ele nem respondeu: só veio me beijando com vontade. Um beijo quente, intenso – daqueles que faz a gente esquecer do mundo.
Se o Pitbull soubesse... O morro podia até tremer.
Natan: Vai fazer o quê mais tarde? Bora passar uma noite fora... de novo?
Eduarda: Amor, não dá. Hoje vou no shopping com a Melinda, umas seis da tarde. Faz dias que tô nessa de ir e nunca vou.
Natan: Beleza... pode ser outro dia. Tô com saudade de tu gemendo meu nome.
Eduarda: Para com isso, Natanael! – falei sem graça, com as bochechas esquentando.
Natan: Parei, parei... Deixa eu voltar pra boca, que daqui a pouco teu irmão tá atrás de mim.
Me deu um beijo rápido e foi até a Melinda, que tava sentadinha brincando no tapete da sala. Ergueu ela no ar, fazendo ela soltar aquela gargalhada gostosa, deu um beijo estalado na bochecha dela e me olhou uma última vez antes de ir. Saiu da minha casa me deixando com aquele misto de sentimentos que só ele sabe causar.
Durante a manhã foi tudo tranquilo. Na parte da tarde, eu e Melinda almoçamos; dei banho nela – que foi uma luta pra querer tirar o cochilo da tarde. Já eram quase seis da tarde quando saí de casa com Melinda no colo. Avisei ao Pitbull que tava saindo com ela e já veio a enxurrada de cuidados com ela. Ela tava linda, com um vestidinho branco florido, os cachinhos soltos e aquele lacinho rosa que eu insisti em colocar, mesmo ela tentando tirar. Peguei o bebê conforto, bolsa dela, minhas coisas... Pegamos o Uber no fim da rua. No caminho até o shopping, ela ficou olhando tudo pela janela, apontando com o dedinho e soltando uns sons que só ela entendia.
Chegamos no shopping pouco antes das sete. Eu queria comprar umas coisas simples: uns itens de decoração pro meu quarto, talvez uma nova manta pro berço dela. Deixei Melinda no bebê conforto e fui empurrando devagar pelo corredor. O lugar tava cheio, mas nada que incomodasse. Paramos numa loja de artigos infantis. Melinda tava tranquila, olhando as luzes do teto e segurando um brinquedinho que dei pra distrair.
Depois fui até uma loja de decoração. O lugar era mais apertado, com prateleiras próximas umas das outras. Peguei uma almofada, olhei um espelho de parede. Não fiquei nem dez minutos ali. Quando saí da loja e olhei pro carrinho...
Meu coração parou. O bebê conforto tava vazio. Vazio. Por dois segundos, meu cérebro congelou. Olhei pro lado, pro outro, não entendi.
Eduarda: Melinda?! MELINDA! – larguei tudo no chão. Corri de volta pra dentro da loja, procurei atrás dos balcões, perguntei pra atendente, que me olhou assustada.
Atendente: A bebê que tava aqui? Eu não vi ninguém levando. – respondeu.
Minha respiração já tava descompassada. Meus olhos se encheram de lágrimas no mesmo segundo.
Eduarda: MEU DEUS, MINHA SOBRINHA... ELA SUMIU... ELA... ELA TAVA AQUI!
Comecei a correr pelo corredor do shopping, gritando o nome dela como se minha garganta fosse rasgar. Um segurança veio na minha direção, confuso, perguntando o que tinha acontecido. Eu m*l conseguia falar.
Eduarda: A bebê... ela... ELA SUMIU! Ela tava aqui comigo! No bebê conforto! SUMIU!
As pessoas começaram a se aglomerar, os funcionários acionaram a central do shopping. Mas dentro de mim, o desespero já tinha tomado conta. Em questão de minutos, meu mundo virou um borrão. E só uma coisa martelava na minha mente:
Como eu vou contar isso pro meu irmão?