Capítulo 13 - Seguindo em Frente

1563 Palavras
Clara O vento fresco da tarde batia contra meu rosto enquanto eu encarava a estrada através da janela do carro. Minha madrinha, Helena, estava ao meu lado, falando sobre os detalhes do casamento, mas suas palavras soavam distantes, abafadas pelo caos em minha mente. Como se eu pudesse fugir disso. — Você fez um gesto lindo, sabia? — Helena comentou, desviando os olhos da estrada para mim. — Mas, confesso que aí da estou impressionada com tanta... tanta disponibilidade da sua parte. — Só estou tentando ajudar — respondi, com um sorriso forçado. — Aliás, são só flores para o casamento do seu filho. — Ajudar ou se punir? — A pergunta dela veio como uma faca afiada. — E não são somente flores, são as flores que você cultiva. — Eu sei, madrinha. Mas qual diferença iria fazer se eu aceitasse o dinheiro dela? Que sejam felizes, como desejam. Eu só fiz a minha parte, não por eles, mas porque a senhora me ensinou valores que não podem ser pagos com dinheiro. — E esse valor aplica-se também a você? Eu travei a mandíbula, mas não respondi. Afinal, ela não estava errada. Parte de mim acreditava que estava fazendo o que era certo, mas outra parte sabia que estava apenas infligindo mais dor a mim mesma. Talvez fosse minha forma de lembrar que, para Jason, eu nunca fui uma escolha. Desisti da ideia de ir jantarmos e decidi ir para casa, Helena fez questão de me deixar em casa. Ao chegarmos em minha casa, Helena segurou minha mão com firmeza e me olhou nos olhos, como se estivesse me preparando para encarar o mundo, pela segunda vez. A primeira vez que ela segurou minha mão e olhou em meus olhos, foi no dia em que me acolheu em sua casa e me apresentou ao seu filho. — Querida, você não precisa se forçar a estar lá por ninguém. Se isso for demais para você... — Eu estou bem — menti de novo. Quantas vezes uma pessoa pode mentir para si mesma antes de se despedaçar? — Acho que eu só preciso descansar um pouco. Esses dias tem sido exaustivos e eu não parei para descansar quase nada. — Então eu posso deixá-la sozinha e ter certeza que vai ficar bem? E... que se precisar de qualquer coisa irá me ligar? — Estou bem, madrinha. E a senhora sabe que problema fazem parte da vida, a gente só tem que aprender a superá-los. — A abracei forte e senti que toda minha força vinha dali, e como minha mãe estaria orgulhosa de ver sua amiga tão bem e como ela foi tudo para mim nesses últimos anos. — Eu amo a senhora. Obrigada por tudo que a senhora fez e faz por mim. — Eu também amo você, minha menina. Helena suspirou, mas não insistiu, beijou meu rosto e foi embora. Quando entrei em casa, cada passo parecia mais pesado. Deixei meu casaco na entrada e segui para o quarto. Ao fechar a porta, minha máscara caiu. Minhas pernas perderam a força e eu desabei no chão, lágrimas silenciosas escorrendo pelo meu rosto, como se fossem feitas de fogo, que arde e queima onde toca. Por que eu ainda me importava tanto? Por que Jason ainda tinha esse poder sobre mim? Não é justo, ou talvez eu só precise de um pouco de amor próprio e tudo isso acabe. Jason A tarde se arrastava com uma lentidão insuportável. Depois da cena na floricultura, Amélia estava particularmente exigente, como se quisesse punir a todos pelo meu lapso de sinceridade. Se não fosse pelo segredo que guardamos, eu não faria essa loucura nem se ela me pagasse um valor alto. Mas, quando eu era fuzileiro, matei meu melhor amigo em um acidente que custou tudo que eu tinha e com isso, o arrependimento veio. Amélia estava presente no local e somente ela viu o que aconteceu. Não pude contar a verdade aos pais de Hoyt, eles jamais me perdoariam e Helena... minha mãe... nem sei o que ela iria dizer sobre isso, e então, esse é o único motivo pelo qual eu estou noivo de Amélia, porque ela sabe demais sobre mim. — Jason, você precisa aprender a me ouvir. É nosso casamento, não só meu — ela reclamou pela quinta vez enquanto examinávamos os convites. — Parece que não está animado. — Sim, eu sei — murmurei, esfregando as têmporas. A dor de cabeça latejava, mas era a dor no peito que me consumia. — Talvez eu não esteja muito animado mesmo, hoje foi um dia exaustivo. Minha mente estava em Clara. Em seu rosto firme, mas sofrido. Em sua voz que soava forte, mas carregada de um cansaço emocional que só eu parecia enxergar. Cada vez que eu olhava para ela, era como uma lembrança c***l do que poderia ter sido, do que ainda poderia ser... se eu tivesse coragem. Mas não posso fazer tudo diferente agora, não depois de tudo que eu já fiz. Amélia tocou meu braço, trazendo-me de volta à realidade. — Acho que precisamos de um tempo juntos, só nós dois — ela disse, sua voz melosa, mas com uma rigidez oculta. — Você parece muito tenso. — Assenti, mas meu coração estava longe dali. Enquanto ela sentava em meu colo, virando-se de frente para mim, entrelaçando as mãos em volta meu pescoço e me beijando. — Claro, vamos fazer isso — concordei mecanicamente. Tentando retribuir os beijos que ela me dava, juntamente ao seu carinho forçado e doloroso. Clara Naquela noite, eu não conseguia dormir. Cada vez que fechava os olhos, imagens de Jason e Amélia dançavam na minha mente, como fantasmas zombeteiros. Levantei-me, decidi que o silêncio do quarto era uma prisão. Uma caminhada talvez clareasse meus pensamentos. Saí sem rumo, deixando a noite fria envolver meu corpo. As ruas estavam tranquilas, a cidade adormecida. Depois de alguns quarteirões, encontrei um pequeno parque quase deserto. Sentei-me em um dos bancos de madeira, abraçando a mim mesma, me confortando em meu próprio abismo. — Não deveria estar sozinha a esta hora — uma voz rouca e familiar rompeu o silêncio. — Está escuro e é perigoso para uma garota. Virei a cabeça lentamente. Jason estava ali, mãos nos bolsos do casaco, olhos tão cansados quanto os meus. — Então suponho que seria bom voltar para sua noiva, já que se ela quiser sair, terá companhia — retruquei, minha voz saindo mais frágil do que eu queria. Ele suspirou, sentando-se ao meu lado, mas deixando espaço entre nós. O silêncio se estendeu, pesado e carregado de coisas não ditas. — Por que você faz isso, Clara? — ele finalmente perguntou, sua voz baixa. — Por que se tortura assim? — Porque talvez seja a única coisa que me resta — admiti, sem olhar para ele. — Não posso mudar o que aconteceu. Só posso aceitar e tentar seguir em frente. Jason se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido na escuridão. Não muito diferente de mim. — Eu nunca quis que fosse assim — ele disse, quase em um sussurro. — Eu... — As palavras fugiam dele, assim como eu também queria fugir, mas não consigo. — Mas é assim — respondi, virando-me para encará-lo. — E já não podemos mais mudar isso. Quer dizer, eu já não posso fazer mais nada em relação a isso. Ele fechou os olhos, uma expressão de dor atravessando seu rosto. — E se eu estiver fazendo tudo errado? — ele murmurou. — Eu queria ter feito tudo diferente. Mas tem coisas que você não entenderia. Aquelas palavras fizeram meu coração parar por um segundo. Mas eu não podia me permitir esperança. Afinal, era sempre a mesma conversa, sempre que os mesmos sentimentos estavam abalados. — Talvez houvesse coisas que eu pudesse ter entendido, mas isso já não faz mais sentido agora — minha voz falhou, e uma lágrima teimosa escapou. — Se você não tem certeza do que quer, então não arraste mais ninguém para sua indecisão. Ele levantou o olhar, seus olhos verdes brilhando sob a luz fraca do parque. — Eu nunca deixei de pensar em você, Clara. Nem por um segundo. — Sua confissão soa como se sua dor estivesse ultrapassando sua matéria, a deixando visível a olho nu. Engoli em seco. A dor e o desejo se misturavam em um nó na minha garganta. — Então pense mais, Jason. Porque eu não aguento mais ser sua quase. Me levantei, com o coração em pedaços e cada passo parecia um adeus. Eu sabia que se virasse para trás, não conseguiria ir embora. Então, continuei andando, deixando Jason e todas as nossas possibilidades perdidas para trás, como deveria ter feito há muito tempo. Jason Fiquei ali, vendo-a partir, sentindo como se cada passo dela estivesse levando uma parte de mim. Minha indecisão, meu medo, estavam me condenando a perder a única pessoa que realmente importava e a qual eu nunca dei valor. E talvez, desta vez, fosse tarde demais para consertar qualquer coisa. Clara tem razão, talvez houvesse coisas que ela poderia ter entendido melhor que ninguém. E eu só consigo sentir o peso da exaustão sobre mim, sobre tudo que eu deveria ter feito diferente e fiz de uma forma que ferrou com a vida dela e o pouco de dignidade que ainda me restava.
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