Capítulo 14 - Amiga do Passado

1535 Palavras
Clara O céu estava em tons de cinza quando cheguei em casa. O vento frio soprava contra meu rosto, mas eu m*l sentia. Cada passo parecia me arrastar para um vazio mais profundo, como se a própria terra estivesse prestes a me engolir. Nunca havia sentido um m*l-estar tão grande, e pela primeira vez não consigo encontrar uma solução para essa dor latejante. Assim que fechei a porta, o silêncio da casa me envolveu, pesado e c***l. Uma parte de mim queria se permitir desabar, mas eu sabia que não podia. Não agora. Não mais. Já havia me perdido por tempo demais em algo que só me causava dor. Peguei o celular e abri a lista de contatos. Jason. O nome brilhava na tela, como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Minha mente gritava para não fazer aquilo, mas meu coração estava exausto demais para resistir. Bloquear. A palavra brilhou na tela por um instante, tão simples e definitiva. Meus dedos hesitaram apenas por um segundo antes de confirmar a ação. Uma onda de alívio frio percorreu meu corpo, seguida por um vazio assustador. Era o fim. E, talvez, fosse exatamente isso que eu precisava. Joguei o celular no sofá e fui até a janela. A cidade parecia continuar indiferente à minha dor, os carros passando, pessoas caminhando, a vida seguindo em frente. Respirei fundo, deixando o ar gelado invadir meus pulmões. Era hora de seguir em frente também. — Você consegue, Clara — sussurrei para mim mesma, como se precisasse ouvir isso em voz alta para acreditar. Os dias seguintes foram um borrão. Trabalhei, saí com Helena, tentei sorrir e fingir que estava tudo bem. Por dentro, uma tempestade rugia silenciosa, mas não permiti que ela escapasse. A vida tinha que continuar, mesmo quando parecia impossível. Uma noite, sozinha no meu quarto, fechei os olhos e imaginei um futuro em que ele não estivesse mais presente. A ideia ainda doía, mas a dor começava a parecer suportável. Pequenas rachaduras de luz começavam a se infiltrar na escuridão. Eu precisava acreditar que um dia isso seria apenas uma cicatriz. Uma lembrança distante de quem eu fui e de quem eu estava me tornando. Estava me preparando para ir trabalhar quando alguém tocou a companhia. Seria Jason? Só de pensar nisso, meu coração gelou e eu hesitei por alguns minutos, até que uma voz feminina e família gritou do lado de fora. — Clara? Sou eu, Catarina. Alex me disse que estava morando aqui. — Catarina! Minha melhor e única amiga que eu tive. Catarina e eu éramos melhores amigas, até o dia em que os pais de Alex se mudaram e a levaram com eles, deixando apenas ele com sua avó. Corri até a porta e ao abrir a mesma, me deparei com a mesma ruiva de anos atrás. — Me Deus, como você está bonita e... Não acredito que ainda usa o mesmo modelo de penteado desde que tinha 13 anos. — Eu é quem não acredito que finalmente está aqui novamente. — Nos abraçamos e foi como noa velhos tempos. Compartilhavámos segredos, sonhos e desejos, dentre eles o assunto principal era Jason, mas isso é passado e acredito que nem ela lembra mais do que a gente conversava. Afinal de contas, era Catarina a escolhida dele e não eu, portanto, estou fugindo de assuntos que ainda me machuquem e deve ser por esse motivo que nos afastamos sem perceber, assim foi melhor. Talvez tenhamos mudado bastante... — Quando você voltou? Pensei que nunca mais iria ver você. Você sumiu de tudo, o que houve? — Eu quis me afasta de tudo por um tempo, mas cá estou eu novamente. Voltei tem dois dias, mas só hoje o Alex me deu seu endereço, acredita? Mas então, como você está? Senti sua falta e... já estou até sabendo das novidades por aqui. — Se a novidade for o casamento do filho da minha madrinha, acredito que seja uma novidade não tão nova assim. — Por que é tão difícil assim esconder o que se sente? Parece que eu vou explodir a qualquer momento. — Sabemos que ele sempre foi um i****a, mas eu também não estou aqui para falar disso e muito menos para falar dele. Vim te convidar para sair hoje a noite. Eu queria relembrar os velhos tempos com a minha melhor amiga, fingir que nada mudou e que não crescemos. O que me diz? — Eu vou adorar fazer isso. Agora eu tenho que ir trabalhar, tenho que pegar o metrô ainda. Quer vir comigo? Você adorava a floricultura quando era uma garotinha também. — Claro, e eu estou com o carro do Alex. Podemos poupar tempo e ir atualizando um pouco da vida. Catarina não mudou muita coisa, ainda tem a mesma essência desse sempre e querem saber? Acho que é isso que sempre nos fez tão próximas. Jason O vento frio cortava minha pele enquanto eu caminhava sem rumo pelas ruas. As luzes da cidade se misturavam com as sombras, borrando a linha entre realidade e pensamento. Cada passo parecia ecoar no vazio que Clara havia deixado para trás. Ela tinha me bloqueado. Era isso. Um gesto simples, mas que tinha o peso de um adeus definitivo. Não havia mais mensagens, não havia mais chamadas perdidas. A porta estava fechada, e eu estava do lado de fora, sozinho com meus erros. Parei em frente a um bar qualquer e considerei entrar. Afogar-me em álcool parecia uma solução tentadora. Mas eu sabia que a ressaca no dia seguinte não apagaria o que eu sentia agora. Nada apagaria. Em vez disso, segui em frente, as mãos enfiadas nos bolsos, o frio me mantendo alerta. Cada rosto desconhecido que passava por mim era um lembrete de que o mundo continuava girando, indiferente ao meu caos interno. Cheguei à porta do meu apartamento e hesitei. Lá dentro, Amélia esperava, junto com todas as mentiras que eu tinha contado para mim mesmo. Respirei fundo e entrei. A luz da sala estava acesa, e ela estava sentada no sofá, com o olhar preso ao celular. — Você demorou — disse ela, a voz suave, mas sem emoção. — Estava pensando — respondi, a verdade queimando na ponta da língua. Ela me olhou por um momento, como se soubesse que algo estava prestes a mudar. — Pensando em quê? — Em nós. Em tudo. Ela assentiu, como se já esperasse por isso. — Você ainda pensa nela, não é? — perguntou, sem rodeios. A pergunta pairou no ar como uma lâmina. Não havia mais espaço para mentiras. — Sim — admiti, minha voz rouca. — E não é justo com você, comigo... ou com ela. Ela desviou o olhar, seus dedos apertando o tecido do sofá. A raiva a consumia sem nenhum disfarce. — Então, o que você vai fazer? — Sua voz tremia levemente, uma rachadura na fachada de indiferença. — Você sabe bem que a escolha é uma só. — Vou deixá-la ir — respondi, sentindo o peso das palavras enquanto as pronunciava. — E tentar encontrar quem eu sou sem ela. Com você agora. Amélia fechou os olhos e assentiu, com frieza e sem nenhum remorso. — É o melhor que você pode fazer. Para nós dois. Sei que nunca me amou, Jason. Fui eu quem te arrastou para esse casamento e agora... agora você já está tão afundado que não consegue sair sozinho. Mas eu estou aqui, não vou deixá-lo cair novamente. O silêncio tomou conta da sala, e pela primeira vez, ele não parecia sufocante. Era um silêncio de fim e, talvez, de recomeço. Mas a voz da minha noiva ainda era repugnante e deverás irritante. Quando ela se levantou e foi embora, fiquei ali, sozinho. O apartamento parecia mais vazio do que nunca. Mas, de alguma forma, o peso em meu peito parecia mais leve. Era o começo do fim. E o fim de um ciclo que precisava ser quebrado, mesmo que de uma forma que eu nunca planejei. Abri a janela e deixei o ar frio entrar. Lá fora, a cidade brilhava com possibilidades infinitas. Talvez um dia eu pudesse olhar para esse momento sem arrependimento. Talvez algum dia eu possa amar Amélia, ou senti algum tipo de afeto por ela, isso já seria o mínimo. Mas, por agora, eu apenas respirava, sentindo a liberdade de finalmente deixar ir a mulher quem eu realmente amo. Era para eu estar vestido adequadamente para um jantar, mas tudo que eu menos queria era encontrar com as amigas que Amélia fez aqui. Mas ela seguiu seus planos para a noite, estava belíssima em um dos seus vestidos bonitos e pronta para se divertir e gastar meu dinheiro. Rolava de um lado para o outro, sem conseguir dormir. Decidi levantar e já eram mais de onze da noite. Clara me bloqueou, não tenho mais opções a não ser seguir em frente. Foi então que liguei para Jamerson, meu grande e velho amigo, combinamos de sair em trinta minutos, para beber no bar mais próximo. Amélia não mandou mensagem alguma, eu tampouco fiz questão em me preocupar com o que ela irá pensar ou vai falar depois. Hoje eu só quero esquecer a Clara.
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