Clara
E pela primeira vez depois de muito tempo, eu estava parada de frente ao espelho, com a grande indecisão de decidir o que iria vestir para sair com Catarina. Após quase uma hora provando algumas peças, optei pelo casual mesmo; um vestido acima dos joelhos, com um pequeno decote nos s***s e um ajuste na cintura, que a deixava marcada.
O bar estava mais movimentado do que eu imaginava. O som abafado da música misturava-se ao burburinho de conversas, risadas e o tilintar de copos. Catarina entrou na minha frente, vibrante e animada como sempre. Ela parecia ser feita para lugares assim, onde as luzes piscavam como estrelas e a energia era quase palpável.
Eu, por outro lado, me sentia deslocada. Já fazia muito tempo desde que estive em um lugar como esse, e a ideia de relaxar parecia um conceito estranho. Mas Catarina insistiu, e eu não consegui recusar.
— Vamos, Clara. Você precisa disso! — disse ela, puxando-me pelo braço em direção a uma mesa vazia. — Além disso, é só uma noite. Esqueça o trabalho, esqueça tudo. Vamos fazer de conta que esse é o nosso último dia antes de nós despedirmos novamente, mas desta vez, quero que comemore comigo.
— Eu ainda não sei onde estou com a cabeça de aceitar essa loucura. Poderíamos fazer alguma coisa por aqui mesmo. — Ela apenas me olhou e eu sabia pelo seu olhar que ela iria responder na forma Catarina de responder.
— E perder a oportunidade encantar e ser paquerada? Não, obrigada. Nós vamos sair, beber, dançar e ver homem bonito. Inclusive, você está belíssima.
Sorri de leve, tentando absorver seu entusiasmo. Catarina sempre soube como transformar uma situação qualquer em algo especial. Sentei-me ao lado dela, enquanto ela fazia o pedido de bebidas.
— Então, o que você tem feito? Quero todos os detalhes — disse Catarina, inclinando-se para mim com um brilho curioso nos olhos. — Tudo menos assunto sobre trabalho, isso está proibido de ser comentado.
Comecei a falar sobre o trabalho, a rotina, tudo que me veio à mente, mas a verdade era que meu coração não estava ali. Estava preso em outro lugar, em outro tempo, com outra pessoa.
Quando levantei os olhos para o balcão, foi como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões. Jason estava ali e não estava sozinho, Jamerson era seu amigo da vez. Os dois sempre foram como irmãos, mas não fazia ideia de que ainda andavam juntos, como antes.
Jason
Jamerson falava algo sobre seu novo trabalho, mas minha mente estava a quilômetros de distância. Cada gole da cerveja parecia mais amargo, como se o álcool tivesse o poder de me lembrar do que eu queria esquecer. Clara.
— Cara, você não está prestando atenção, está? — disse Jamerson, rindo. — Tá legal, vamos falar sobre outra coisa.
— Estou ouvindo. É só que... — Suspirei tentando não parecer perdido, mas Jamerson sabe exatamente o quão perdido eu estou.
— É ela, não é? — Jamerson interrompeu, acertando o alvo como sempre.
Não respondi. Apenas tomei outro gole, o líquido queimando em minha garganta. Mas antes que pudesse evitar, olhei para a entrada do bar e a vi. Clara.
Ela estava ali, linda como sempre, com aquela presença que parecia iluminar qualquer lugar que ela entrasse. Ao lado dela, Catarina, a mesma Catarina que um dia fora minha amiga, e que agora parecia ter se tornado outra barreira entre nós.
— Jason, você precisa superar isso — disse Jamerson, mas suas palavras se perderam no fundo da minha mente. — Cara, você viveu uma guerra e ainda está se curando dos traumas, acha que isso vai te fazer bem?
— A única coisa que pode me fazer bem algum dia é aquela mulher ali. — Disse mencionando Clara, que me ignorava sem esforços. — É dela que eu preciso todos os dias e é somente ela que pode acalmar tudo que eu sinto no momento.
Clara não tinha me visto ainda, mas quando nossos olhares se cruzaram por um breve momento, senti como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés.
— Ela está olhando para cá, Jamerson. O que ela veio fazer aqui hoje?
— Jason — Jamerson tocou em meu ombro, tentando me alertar que o perigo estava também bem na minha frente.
— Eu conheço bem a índole de Catarina, tenho certeza que ela não trouxe Clara aqui hoje por acaso.
Clara
Meu corpo travou por um instante. O que Jason estava fazendo aqui? E por que, de todas as pessoas, Catarina parecia saber disso? Será que somente eu continuo sendo a i****a? Como sempre foi!
— Jason está aqui — murmurei para Catarina, tentando manter a calma. — Droga, Catarina. Você já sabia?
— Ah, ele veio com o Jamerson. Eu sabia que ele estava na cidade, mas não pensei que...
— Que ele estaria aqui hoje, ótimo — completei, a voz saindo mais fria do que pretendia. — Não vou passar muito tempo aqui. Prefiro minha casa. Pensei que a gente fosse se divertir com pessoas diferentes por perto.
Catarina hesitou por um momento antes de sugerir:
— Quer ir falar com ele? Ele parece que não tira o olho daqui.
Neguei com a cabeça, meu coração disparado.
— Não. De jeito nenhum.
— Ele não tira o olho de mim, achei que ele já estivesse me esquecido. — Ousada? Sim, ela também sempre foi muito ousada e isso certas vezes me irrita.
Mesmo assim, meus olhos não conseguiam evitar. Ele parecia tão familiar, tão dolorosamente familiar, com aquele jeito desleixado e um copo de cerveja nas mãos.
Todas as vezes que nossos olhares se cruzam, eu pergunto o porquê daquilo ainda mexer tanto comigo. É como se a Clara de 15 anos estivesse vendo o filho da sua madrinha sem roupas pela primeira vez.
Quando percebi que Catarina já estava a caminho de cumprimentá-lo, senti um aperto no peito. Eles trocaram sorrisos e começaram a conversar como se os anos de distância não existissem. Meu estômago embrulhou e eu queria sumir dali, tipo evaporar mesmo, mas ainda não sei como fazer tal coisa. Minhas pernas fraquejaram e eu me senti completarem fora da minha bolha.
Jason
— Catarina — cumprimentei, tentando parecer casual, mas ela me causa repudia.
— Jason, quanto tempo! Como você está? — perguntou ela, com o sorriso brilhante de sempre. Seu corpo veio ao encontro do meu, para firmar um abraço, mas me afastei sem pensar duas vezes.
— Vivendo — respondi, desviando os olhos para Clara, que nos observava à distância. Com um cerro desconforto estampado em seu rosto.
Catarina notou o olhar, mas não comentou. — como alguém pode dizer que tem uma amiga, quando se trata de Catarina. — Continuamos falando sobre coisas banais, mas minha mente estava em Clara. Cada segundo que passava, eu sentia que a estava perdendo mais.
Ela se levantou de repente, pegando sua bolsa com pressa. Catarina tentou chamá-la, mas Clara apenas balançou a cabeça, murmurando algo inaudível. Então, Catarina finalmente se afastou, ficando numa distância considerável, antes que eu a empurrasse.
— Clara! — chamei, mas ela já estava indo embora com pressa.
— Que p***a você está fazendo aqui?
— Jason, acha mesmo que vale a pena trocar minha prima pela Clara? Amélia tem classe, coisa que aquela dali jamais vai saber o que é.
— Pra ser tão infeliz assim, imagino que você seja tão m*l comida quanto sua prima é. — Jamerson ficou ao meu lado, observando a expressão de Catarina, que não acreditava no que acabou de ouvir. — Olha só, você não faz o tipo de né num de nós dois, então por que não dá o fora?
Clara
Eu não podia ficar ali. Não quando os dois pareciam tão à vontade, tão conectados. Era como se o universo estivesse tentando me lembrar de que meu lugar nunca foi ao lado dele.
Saí apressada, o ar frio da noite batendo contra meu rosto. Meus passos ecoavam na calçada, rápidos e desesperados.
— Clara, espere! — Ouvi a voz de Jason atrás de mim, mas não olhei para trás. Apressei ainda mais meus passos, quase como se estivesse correndo, mas ele continuava no mesmo ritmo que eu. — Clara, vamos conversar. Não pode me evitar para sempre.
Não podia. Se o fizesse, sabia que poderia desmoronar. E não estava disposta a dar a ele esse poder novamente. Então, eu corri mais depressa, sentindo o vento forte soprar meu rosto.