Capítulo 16 - Minha Sombra

1056 Palavras
Clara Eu sabia que ele estava lá. Era sempre assim, como uma sombra que se recusava a me deixar. Os passos dele ecoavam na calçada atrás de mim, mas eu me recusava a olhar para trás. O Jason que eu conheci não existia mais. Ele não era mais o garoto que eu sempre desejei, que eu sempre vi como meu herói, mesmo na verdade sendo completamente o contrário. Éramos como dois estranhos dentro de casa, isso deveria ter permanecido assim, não mudado porque ele voltou. Afina, ele não me pertence, ou melhor, nunca me pertenceu e eu insisto em me magoar sozinha. — Clara, por favor, espere! — Ele chamou, a voz carregada de urgência, mas eu continuei andando. — Pela primeira vez vamos agir como adultos e conversar. Eu não quero nada de você, mas a gente não conversa desde que eu voltei, eu só te peço uma única chance. Só hoje, por favor! Era difícil não me virar, não encará-lo, mas eu não podia ceder. Ele já havia me machucado o suficiente, e eu precisava me proteger dessa vez. Finalmente, meus pés pararam, mesmo contra minha vontade. Eu respirei fundo e me virei, pronta para enfrentá-lo. — O que você quer, Jason? — Perguntei, minha voz soando mais firme do que eu esperava. — Nunca tivemos nada para conversar, porque iríamos ter agora? Além do mais, acho que a gente precisa se esquecer, esquecer um do outro e que nada nunca existiu. Sabe por quê? Porque sempre foi assim, eu sempre fui um zero a esquerda pra você e até pouco tempo, não tinha me dado conta disso. E você tem razão, vamos começar a agir como adultos, então é melhor começar pela maturidade. Ele estava ali, parado, com os ombros tensos e os olhos fixos em mim. Aqueles olhos... ainda tinham o poder de me desestabilizar, mesmo que eu não quisesse admitir. Ignorei aquele olhar e continuei seguindo em frente, mas os passos dele atrás de mim, me deixavam desestabilizado totalmente. — Você não deveria estar com sua noiva? Ou será que me seguir virou um hobby? — Disse em um tom que ele pôde ouvir perfeitamente. — Vai continuar me seguindo mesmo? Não deveria estragar fazendo coisas mais legais que isso? Minha ironia era uma armadura, mas por dentro tudo doía. Jason Ela estava tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Sempre foi assim com Clara: ela me desarmava com um olhar, mas levantava muros tão altos que eu m*l conseguia respirar perto dela. — Você acha que é fácil? — Eu soltei, sem pensar. — Acha que eu consigo simplesmente seguir em frente e fingir que você não existe? Ela cruzou os braços, impassível. Mas eu sabia que minhas palavras a afetavam. Clara era boa em esconder o que sentia, mas eu a conhecia bem demais. — Eu tentei, Clara. Juro que tentei. Mas cada vez que eu te vejo, tudo volta. Eu ainda sou o mesmo Jason de anos atrás, o mesmo cara que te recebeu com a cara de picos amigos e o mesmo cara que nunca conseguiu te esquecer todos esses anos. Eu me lembrava de cada detalhe: como ela ria sem perceber, as noites em que eu ficava do outro lado da rua apenas para garantir que ela chegasse em casa em segurança. Era errado, eu sabia, mas não conseguia me afastar. Mas, eu também sempre quis alguém bom para ela, porém, eu também não consigo imaginar alguém tocando nela e esse alguma não ser eu. — Jason, você fez sua escolha. E não fui eu. — Sua voz cortou meus pensamentos como uma lâmina. — Até foi, mas só durou até você dizer a verdade. Sua noivo chegou e tudo finalmente voltou ao normal. Às vezes eu queria nunca ter conhecido você. Queria nunca ter me apaixonado por você. A vida com certeza seria bem mais fácil do que é agora. Ela estava certa, mas ouvir aquilo em voz alta doía mais do que eu imaginava. — Você não entende... — murmurei, dando um passo à frente. — Eu nunca quis te machucar. Nunca quis que fosse assim, mas há coisas que eu não consigo controlar, coisas que fogem da minha realidade e eu acabo me precipitando agindo por impulso. Clara Eu ri, mas foi um riso amargo, carregado de dor. — Nunca quis? Então por que fez, Jason? Você me deixou... por ela. E agora está aqui, me seguindo como se isso fosse mudar alguma coisa. Agora pra vida, cara. Você se alistou à Marinha, voltou noivo e nos anos anteriores, eu sempre fui invisível aos seus olhos. Agora será que dá pra parar de me seguir? Ele ficou em silêncio, como se minhas palavras o tivessem atingido em cheio. Por um momento, pensei que ele fosse recuar, mas Jason nunca soube quando desistir. — Eu me enganei, Clara. — Ele finalmente disse, sua voz baixa, quase um sussurro. — Achei que podia seguir em frente, que Amélia era o que eu precisava. Mas eu estava errado, como sempre estive. As palavras dele me pegaram desprevenida, mas eu não podia ceder. Não dessa vez. — Você escolheu seu caminho, Jason. Agora me deixe seguir o meu. Eu queria que aquilo soasse como uma ordem, mas acabou parecendo um pedido. E eu odiava isso. Jason Ela estava tentando ser forte, mas eu via além da fachada. Clara sempre foi boa em esconder seus sentimentos, mas havia algo em seus olhos que me dizia que eu ainda significava alguma coisa. — Clara... — Minha voz falhou, e eu tive que respirar fundo antes de continuar. — Só me diga uma coisa: você nunca sentiu a minha falta? O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Eu sabia que ela tinha a resposta, mas Clara era teimosa demais para admitir. — Jason, vá embora. — Sua voz era firme, mas eu percebi o tremor em suas mãos. Eu queria lutar, queria insistir, mas sabia que já havia passado dos limites. — Tudo bem. — Dei um passo para trás, tentando ignorar a dor no peito. — Eu vou embora. Mas nunca vou deixar de sentir sua falta, Clara. E então, antes que eu pudesse mudar de ideia, virei-me e comecei a caminhar. Cada passo parecia um esforço enorme, mas eu sabia que precisava deixá-la ir. De novo.
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