Clara
Os dias seguintes foram uma mistura de monotonia e tensão. A conversa com Amélia ainda ecoava na minha mente, e cada palavra que ela dizia parecia ter sido calculada para me desestabilizar. Mas, por mais que quisesse me livrar dessa situação, Jason continuava me prendendo de alguma forma, mesmo sem querer.
Na floricultura, tentei me ocupar com as encomendas de fim de ano. Trabalhar com flores sempre foi uma forma de aliviar a mente, mas nem mesmo o perfume das rosas ou o toque das pétalas macias me acalmavam.
Até que Alex apareceu.
— Clara, você está bem? — Ele perguntou, entrando com o ar casual de sempre, mas os olhos carregados de preocupação.
— Estou. Por que a pergunta? — No fundo, eu ainda estava brava por ele não ter me contado que era primo de Amélia.
Ele se aproximou do balcão e apoiou os cotovelos, como fazia quando queria ter uma conversa séria.
— Fiquei sabendo que Amélia foi até sua casa. — Seu olhar de pena sobre mim, me fazia querer dizer algo a ele, mas me mantive calada.
Senti um arrepio na espinha. Como ele sabia? Bom... isso já não é mais tanta novidade assim.
— Quem te contou isso? — Com certeza foi Catarina, mas são consequências que eu terei que suportar a partir de agora.
— Catarina. Ela é prima dela, lembra? — Alex deu de ombros. — Só achei que deveria saber que essa história está circulando. Eu gosto de você e se for pra escolher quem defender, eu sempre vou defender você. Eu não acho certo o que fazem com você e você aceita. Não é justo, Clara.
— Ótimo. — Respondi, sem esconder o sarcasmo. — Era só o que faltava.
— Clara... — Alex hesitou, mas continuou. — Você não precisa passar por isso sozinha. Se precisar de ajuda, sabe que pode contar comigo, não sabe?
Eu sorri, agradecida pela preocupação dele, mas, ao mesmo tempo, sentia que ninguém realmente poderia me ajudar. Essa bagunça era algo que eu teria que resolver sozinha.
— Obrigada por tudo que tem feito, mas tem coisas que eu preciso encara sozinha, Alex. E agora, eu acho melhor você ir embora, outra hora a gente conversa, pode ser?
Era raro os dias que eu pensava em que minha vida estava r**m, mas ultimamente, tudo tem saído um pouco mais dos trilhos. Me vejo perdida e sem saída, como se estivesse em um labirinto, procurando a felicidade; mesmo sabendo que ela já achou a saída e foi embora.
Mas... não posso me dar o luxo de ficar parada logo agora. Preciso seguir com a minha vida, como sempre fiz. Com ou sem ele por perto, eu tenho que seguir. Respirei fundo e mantive o controle. Estou decidida que quero seguir em frente, e nada melhor que sair um pouco da rotina.
Jason
As palavras de Amélia não saíam da minha cabeça. Escolher. Era simples, certo? Mas, na prática, parecia impossível. Não era só sobre Clara ou Amélia; era sobre todo o peso que carregava comigo.
Passei dias tentando me convencer de que deixar Clara seria o melhor para ela. Mas, no fundo, sabia que isso seria mais uma mentira. Eu queria Clara, e era egoísta o suficiente para admitir isso, mesmo que só para mim mesmo.
Numa noite, enquanto tentava encontrar algum consolo no silêncio da sala, Amélia entrou. Ela parecia mais calma do que nos últimos dias, mas ainda havia um brilho calculado em seus olhos.
— Pensei que você estivesse em reuniões. — Comentei, tentando quebrar o gelo. — Está saindo todas as noites, sem nem dizer onde vai.
— Cancelei. Precisamos conversar. Ah, e eu estou fazendo que nós dois deveríamos estar fazendo juntos, planejando nosso casamento. E ainda precisamos conversar.
Revirei os olhos internamente, mas me preparei para mais um discurso.
— Já sei o que vai dizer, Amélia.
— Acho que não sabe, Jason. — Ela sentou-se no sofá à minha frente, cruzando as pernas com a graça de alguém que sabia que estava no controle. — Quero propor um acordo. Sabe, há caras legais ma cidade e eu não quero ser casada com você só porque fode bem. Afinal, do que vale não amar alguém
Eu arqueei uma sobrancelha. Espantado pelo que estava ouvindo, não que seja algo que vá me surpreender.
— Um acordo?
— Sim. Vamos manter o casamento de fachada por um ano. Você cumpre sua parte, e eu cumpro a minha. Depois disso, podemos nos separar. Daí você vai se rastejando para a sua querida Clara. Espero que ela já tenha arranjado alguém até lá. Ela até que é bonitinha, mas não se compara a mim.
— Por que eu faria isso?
— Porque você não tem escolha. — O tom dela era frio, mas não havia raiva. Apenas uma certeza que me dava arrepios. — Você pode querer Clara, mas não pode tê-la sem arruinar a vida dela. Vamos lá, Jason. Por que não deixa ela de lado?
Ela se levantou, ajeitando o vestido com perfeição.
— Pense bem, Jason. Esse é o único jeito de todos saírem ilesos. Afinal de contas, ela é uma ótima comonahia para sua mãe.
E com isso, ela saiu, me deixando sozinho com meus pensamentos. Não disse nada além de concordar em silêncio com tudo que ela havia dito.
Olhei ao redor e percebi que minha vida estava seguindo, como eu não planejei e... sinceramente, parece que tudo que estou vivendo agora é uma brincadeira que logo chegará ao fim. A casa enorme, com móveis que Amélia ainda estão planejando, os quadros e tudo mais do seu agrado...
Meus pensamentos estão onde eu queria estar, em Clara e tudo que poderíamos ter sido. Eu pude fazer diferente, mas preferir manter distância todos esses anos e tudo isso acaba se tornando estranho, mas um estranho com uma urgência em senti-la.
Amélia arrumou-se e saiu novamente. Ela está sempre animada, deveria me preocupar? Sim, deveria. Mas não consigo parar de pensar em Clara e eu estava disposto a tentar, até conseguir.
Clara
Naquela noite, enquanto fechava a floricultura, senti uma presença familiar se aproximando. Virei-me e lá estava Jason, parado na calçada, com uma expressão que misturava culpa e determinação.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei, cruzando os braços. — Será que eu não posso mais nem trabalhar em paz? Aliás, desde quando criou essa mania de perseguição?
— Precisamos conversar. — Com os braços cruzados, ele me olhava sem desviar o olhar por nenhum minuto.
— Não temos mais nada para conversar, Jason. A vida é cheia de surpresas, não é? Quem diria, que iríamos estar aqui, tendo essa conversa que eu nem sei porque começou. Acho que a gente m*l se conhece, Sr. Zion.
— Clara, eu...
— Eu não posso competir com o que você tem com Amélia. E, sinceramente, nem quero. Será que isso é um sim e você vai me dar uma carona? Meu carro quebrou e eu o vendi. Mas será que poderia me deixar no Lobby?
Lobby é um bar que tem um clube de patinação, é o meu lugar preferido (depois da floricultura é claro). Não vou lá já tem algum tempo, mas hoje é um ótimo dia para me perder um pouco, depois de tantos dias ruins e tantas traições de onde eu não esperava.
— Claro! — Sua resposta foi fria e eu não.lensei duas vezes, fechei as portas da floricultura e entrei no carro.
Sentei no banco de trás, mas o perfume de Amélia já estava impregnado no carro, o que me deixava enjoada e arrependida de estar ali.
— Posso te perguntar uma coisa? — Jason virou o rosto e me encarou sem desviar o olhar. — Por que estamos agindo como dois adolescentes? Por que você não me escuta, pelo menos uma vez?
— Podemos fazer isso agora. Primeiro tomamos uma cerveja e depois vamos para o rinque, tudo bem?
Hoje é sábado e o rinque não abre, mas o segurança me conhece desde criança e o dono do bar é amigo da minha madrinha, então ele me deixa entrar e o Jason também. Mas claro, jamais podemos esquecer as rosquinhas com creme de avelã.
— Eu não sei se ainda consigo patinar. — Tentei não dar muita atenção ao que ele disse dali em diante.
Não demorou para chegarmos. O vazio do lugar me acalmava, mas eu não podia esquecer da presença que estava ali comigo.
Coloquei meus patins e entrei no rinque.
Eu flutuava enquanto estava no gelo e, eu não pensava no Jason enquanto patinava (às vezes sim), mas a minha memória era com minha mãe. Ela era perfeita no patins. Tem alguns anos que busco coragem para ver as imagens dela patinando novamente. É como se eu morresse todas as vezes que eu vi aquelas fitas e fotos.