Pré-visualização gratuita Capítulo 1:Fuga Prolongada
Hilary Clay
Hilary Clay escovava os dentes apressadamente diante do espelho de mármore branco de seu banheiro em Manhattan. O reflexo mostrava seus cabelos loiros, perfeitamente ondulados apesar da correria, e a expressão concentrada de quem já estava dez minutos atrasada. Na sala, sua assistente, Alex, gritava com a impaciência de quem sabia que cada minuto de atraso podia custar caro.
- Hilary!!! Pelo amor de Deus, o motorista já tá surtando! - Alex esbravejou, ecoando pela cobertura impecável.
Hilary cuspiu a espuma da pasta, limpou a boca com rapidez e olhou mais uma vez para si mesma. Vestia jeans confortáveis, uma cropped branca com uma jaqueta de couro que parecia pedir desculpas por sua simplicidade. Naquele momento, ela não era a estrela das paradas musicais, nem o rosto estampado em outdoors da Times Square. Era apenas uma garota de 23 anos tentando fugir.
As malas já estavam no carro. Um voo particular a esperava no aeroporto de Teterboro, com destino à Itália. Ela precisava ir precisava mais do que podia admitir.
A polêmica recente ainda queimava em sua pele. Jornais, sites de fofoca, programas de TV... todos falavam do "suposto alcoolismo" da jovem estrela. Uma história inflamada, distorcida, como tantas outras. Ela podia enfrentar as câmeras, dar entrevistas, desmentir tudo. Mas não queria. Não dessa vez.
Hilary queria desaparecer.
E para isso, escolheu Veneza.
Não para visitar a família que morava na Itália eles eram outra preocupação da qual ela precisava se afastar. Ela queria as praias, os canais, o cheiro de maresia no ar. Queria ser uma estranha em meio a outros estranhos, perder-se nas vielas antigas, esconder-se atrás de óculos escuros e chapéus de abas largas.
Ela pegou sua bolsa, respirou fundo e correu para fora. Alex a seguiu com passos apressados e resmungos que ela ignorou.
Dentro do carro, já a caminho do aeroporto, Hilary encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos. Lá fora, Nova York fervilhava como sempre imensa, insaciável. Ela a amava... e a odiava. Pelo menos por enquanto.
Na Itália, ninguém vai se importar, pensou. Só preciso de alguns dias. Só preciso ser ninguém...
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Jason Degritte
O carro preto parou em frente à entrada principal, e Jason saiu com a natural elegância que parecia impossível de disfarçar. Alto 1,93 de pura presença, de ombros largos e postura impecável, ele carregava aquele tipo de confiança que fazia cabeças virarem mesmo quando ele não percebia.
Vestia uma camisa social levemente aberta no colarinho e uma calça jeans escura, simples, mas ainda assim impecavelmente alinhada. A combinação perfeita entre casual e profissional. Seus olhos, de um azul profundo, contrastavam com o castanho-escuro quase n***o dos cabelos, que estavam desalinhadamente perfeitos como se o vento italiano tivesse feito isso de propósito.
Apesar da intenção de manter o foco nos negócios, Jason não pôde ignorar a beleza do local. O hotel, de frente para o mar Adriático, parecia ter saído de uma pintura: mármore branco, varandas ornamentadas e palmeiras balançando suavemente ao vento. Era impossível não se sentir diferente ali.
Ele respirou fundo, tentando aproveitar aquele momento de paz, mesmo sabendo que era temporário. Uma reunião de negócios o esperava no dia seguinte. A fusão que ele vinha negociando há meses estava em jogo.
Férias era uma palavra que m*l existia no vocabulário de Jason. Seu cérebro treinado para números e estratégias não sabia descansar. Mas ele precisava, nem que fosse por algumas horas.
Algumas mulheres na recepção sorriram para ele, sorrisos sutis, olhares curiosos. Jason, educadamente, retribuiu com um leve aceno, mas nada além disso. Era bonito, ele sabia, mas nunca foi do tipo que se deixava impressionar fácil. No fundo, talvez, era culpa da mulher que mais amava no mundo: sua avó.
A velha senhora, que o criou desde os cinco anos após a perda da mãe, fazia questão de lembrá-lo toda semana, por videochamada: - Jason, meu querido... arrume logo uma namorada antes que eu vá embora deste mundo!
Ela dizia isso com um sorriso travesso, embora estivesse saudável como um touro, apesar de seus setenta e poucos anos.
Jason sempre ria, prometendo que "estava trabalhando nisso", mesmo que não estivesse. Namoro, relacionamentos, complicações emocionais tudo isso parecia muito mais difícil que fechar contratos milionários.
O lobby do Hotel Aurora del Mare era um espetáculo à parte colunas de mármore branco, lustres de cristal que pendiam do teto alto e janelas de vidro que davam vista direta para o mar. Um aroma sutil de lavanda pairava no ar, misturado ao som discreto de um piano tocando ao fundo.
Jason caminhou até o balcão de check-in com passos calmos e firmes. O recepcionista, um homem simpático com um sotaque carregado de charme italiano, sorriu assim que o viu se aproximar.
- Benvenuto, signore Degrine. Sua suíte já está pronta. Vista para o mar, como solicitado.
- Obrigado - respondeu Jason, entregando o passaporte. - Espero que seja silenciosa. Vim com boas intenções de relaxar... ou pelo menos fingir que sei fazer isso.
O recepcionista riu, entregando o cartão magnético e chamando um carregador para levar as malas. Jason recusou com um gesto educado.
- Gosto de carregar minhas próprias bagagens. Ajuda a manter os pés no chão.
Subiu de elevador até a suíte presidencial, observando os detalhes do hotel: pinturas clássicas, esculturas de mármore, tapetes orientais. Tudo era luxuoso sem parecer exagerado. Quando a porta da suíte se abriu, o cheiro do mar invadiu o ambiente.
A vista era de tirar o fôlego. Varanda ampla, com uma poltrona de vime e uma mesinha já posta com uma garrafa de prosecco gelado e frutas frescas. O mar, logo à frente, brilhava sob o sol da tarde, e ao longe se via o movimento dos barcos cruzando os canais.
Jason deixou a mala ao lado da cama, tirou a camisa social e ficou só com a camiseta branca por baixo. Abriu os botões da calça e se jogou na poltrona da varanda, sentindo o vento bater no rosto.
Pegou o celular e abriu os e-mails por impulso. Leu as primeiras linhas de um contrato e suspirou.
- Trinta segundos de paz e eu já quero ver planilhas... Isso não é normal.
Desligou o telefone. De propósito. Pela primeira vez em muito tempo.
Levantou-se, abriu a garrafa de prosecco e serviu uma taça. Tomou um gole, deixando o líquido borbulhar na boca.
Decidiu descer até o restaurante do hotel. Nada como uma boa massa italiana para marcar o início de sua falsa tentativa de descanso. Enquanto se dirigia de volta ao elevador...
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Hilary Clay
O carro preto deslizou até o hangar privado do aeroporto de Teterboro, e Hilary Clay m*l esperou o motorista parar completamente antes de abrir a porta e sair correndo, os óculos escuros escondendo a expressão tensa em seu rosto.
Alex, ofegante atrás dela, segurava o celular com o embarque digital.
- Você vai perder esse voo se não correr, Hilary!!!
- Tô correndo, droga!
Com as botas batendo contra o chão de cimento, ela atravessou o saguão privado praticamente tropeçando nos próprios passos. A funcionária da companhia aérea a reconheceu imediatamente, mas se limitou a um sorriso educado e um gesto com a mão.
- Bem-vinda, senhorita Clay. A aeronave já está pronta. Por aqui, por favor.
Hilary assentiu, apertando a alça da bolsa contra o ombro, e caminhou direto até a escada do jato particular. Só quando finalmente se sentou em sua poltrona na primeira classe com o cinto afivelado e um copo d'água à mão é que o coração começou a desacelerar.
O avião decolou suavemente, e ela soltou um suspiro pesado, encostando a cabeça na janela. Tinha conseguido. Estava a caminho de Veneza. Longe de Nova York. Longe de tudo.
Mas não por muito tempo.
Ao desbloquear o celular e abrir o i********:, as notificações começaram a explodir. Mencionada em histórias, postagens, manchetes... e todas com o mesmo tom alarmante.
> "Hilary Clay e o ex envolvido em acidente de carro violento!"
"Fontes afirmam: cantora estava sob influência de substâncias."
"Drogas, álcool e escândalos: o declínio precoce de Hilary Clay?"
Seu estômago revirou.
Ela clicou no vídeo de um programa de fofoca onde mostravam imagens distorcidas do acidente. Um carro esportivo, capotado, envolto em fumaça e luzes de ambulância. O ex-namorado, Dorian Wells, era um artista problemático que já tinha um histórico conhecido de abuso de drogas, e ela, ingênua agora, era arrastada com ele para o fundo.
Hilary desligou o celular com força e jogou-o no assento ao lado. Olhou para o teto do avião e sentiu os olhos arderem.
Ela nunca usou drogas. Nunca. Mas... a bebida, sim. Havia noites em que perdia o controle. Vezes demais em que dizia "só mais uma taça" e acordava em lugares que não lembrava. E, por isso, ninguém duvidava dos boatos. Porque, no fundo, parte deles eram verdade.
Passou a mão pelo rosto, tentando conter as lágrimas. O avião voava sobre o Atlântico, mas sua mente ainda estava presa no caos. Tudo o que queria era silêncio. Um pouco de ar. Um recomeço.
Horas depois, quando o avião finalmente pousou no pequeno aeroporto de Veneza, ela desceu com os mesmos óculos escuros e a mesma expressão determinada de quem não queria ser notada.
No carro do hotel, ficou em silêncio o tempo todo, observando a cidade passar pelas janelas. As ruas apertadas, os canais, a beleza antiga. Era outro mundo.
E quando o carro parou em frente ao Hotel Aurora del Mare, ela respirou fundo. O lugar era mágico fachada clara, varandas com trepadeiras floridas e o som do mar ao fundo. Por um instante, seu coração pareceu se acalmar.
Hilary desceu, pegou sua pequena mala de mão, ajeitou os óculos e entrou no hotel sem olhar para os lados...
Hilary assinou o check-in com um sorriso rápido, quase automático, e aceitou a chave magnética da suíte presidencial sem prestar muita atenção nas instruções do concierge. Tudo o que queria era um banho, uma cama macia e silêncio.
A suíte era um das duas melhores do hotel na cobertura, tão grande como um apartamento, tudo que ela queria pra relaxar.
Com a mala de mão arrastando atrás de si, ela caminhou pelos corredores luxuosos até o elevador. Estava exausta, mas ainda assim chamava atenção. O cabelo loiro, agora ondulado e bagunçado pela viagem, emoldurava seu rosto de forma descuidada e encantadora. Algumas mechas se soltavam, caindo sobre seus olhos verdes brilhantes. A típica beleza italiana em sua forma mais crua e natural.
Mascando um chiclete, Hilary inclinou-se um pouco sobre a mala, apoiando-se preguiçosamente enquanto esperava o elevador chegar. Seus olhos semicerrados denunciavam o cansaço, mas também a atitude indiferente de quem já estava acostumada com olhares, mesmo tentando os evitar au máximo.
Ding.
As portas se abriram.
Um homem saiu quase no mesmo segundo. Estava sério, focado, andando rápido como quem já tinha mil compromissos na cabeça. A camisa branca moldava seu tronco de forma perfeita e a calça jeans escura valorizava ainda mais as pernas longas. Seus cabelos castanho-escuros estavam bagunçados de um jeito irritantemente atraente, e os olhos azuis faiscavam com determinação.
Hilary, que estava prestes a entrar, teve que dar alguns passos para o lado para não ser atropelada por ele. Seus olhos varreram o homem de cima a baixo em segundos. E então, com um meio sorriso sarcástico e a voz carregada de ironia, ela soltou alto o suficiente para que ele e talvez o universo inteiro, ouvisse:
- Ah, claro... Itália cheia de playboyzinhos mimados correndo pra lá e pra cá. Que surpresa...
Revirou os olhos com exagero divertido, puxou sua mala para dentro do elevador e apertou o botão do último andar.
Ele, já alguns passos à frente, ouviu claramente o comentário. Um sorriso discreto e quase imperceptível surgiu no canto dos lábios dele, mas ele não olhou para trás.
Hilary também não olhou de volta. Mas, enquanto as portas do elevador se fechavam, ela não pôde evitar de pensar:
Droga, até os "playboyzinhos" são bonitos demais por aqui, tinha me esquecido dessa parte.
O elevador subiu suavemente...