O galpão estava mergulhado em uma penumbra opressiva, com poucas lâmpadas penduradas que piscavam intermitentemente, lançando sombras sinistras nas paredes de concreto. O cheiro de ferrugem e mofo permeava o ar frio. Tyler, se encontrava amarrado com firmeza a uma cadeira metálica no centro da sala, o local chamava a sua atenção, principalmente a pequena mesa com algumas ferramentas que se encontrava perto da porta de metal por onde Lucy havia passado, observava tudo com um misto de desafio, medo e desprezo. Seus pulsos já começavam a mostrar marcas das amarras apertadas.
- Vejo que está confortável, Tyler – disse ela com ironia, enquanto se aproximava lentamente, permitindo que o momento carregasse seu peso.
O garoto apoiou-se na cadeira, esticando o pescoço como se quisesse diminuir o desconforto dos braços presos. A garota parou a poucos centímetros dele, inclinando-se para que pudessem se olhar nos olhos.
- Vamos direto ao ponto, que tal? – a voz dela era um misto de calma e comando inegável.
Tyler fingia indiferença, com um sorriso cínico.
- Eu já disse. Sei que vocês são uma gangue poderosa. Quem não gostaria de fazer parte dessa...irmandade? – ele respondeu, com um toque de sarcasmo. – Além disso, imagina o que eu poderia aprender aqui. Uma oportunidade de ouro, não é mesmo?
Lucy não demonstrou nenhum tipo de satisfação ou alívio diante da resposta, estava determinada a arrancar a verdade. Ela aplicou um leve corte no rosto de Tyler, apenas o suficiente para fazer um fio de sangue escorrer pelo seu rosto.
- Mentiras. Você acha que não conhecemos quando vemos uma? – sua voz era um sussurro gélido. – Diga a verdade.
Tyler riu baixinho, ignorando a dor superficial. Ele respirou fundo, aparentemente decidido a mudar de tática.
- Ok, vamos lá – começou, com uma expressão mais séria. – Eu quero servir vocês porque, sinceramente, estou fugindo. Os Warriors estão atrás de mim. Eu fiquei sabendo de coisas que não devia. Precisava de proteção, e sabia que vocês têm os meios para me proteger. Vocês têm o poder e a influência que eu preciso. Se eu me juntar a vocês, posso trazer informações valiosas sobre os Warriors, algo que poderia virar o jogo para os Coven.
A líder não demonstrou reação imediata, analisando suas palavras com cuidado.
- Está me dizendo que você é uma ameaça para os Warriors e procura abrigo aqui? – ela inquiriu, tentando sondar a veracidade da informação.
- Isso mesmo – assentiu. – Acha que estou arriscando a minha vida à toa aqui? Eu sabia que o interrogatório seria inevitável, mas tinha que tentar. Eles me querem morto, e sei que se vocês souberem o que eu sei, também terão vantagem.
Por um momento, houve um silêncio absoluto no galpão. Lucy respirou fundo, considerando suas palavras. Ela sabia que Tyler estava tentando manipular sua percepção, jogando com verdades e mentiras para confundir. No entanto, cada camada de suas palavras era uma oportunidade de descobrir algo real, algo que poderia mudar o rumo desta noite e do destino dos Coven.
- Você realmente acha que não sei separar a verdade da mentira? – ela disse, trazendo a lâmina para mais perto. – Acha que vai sair daqui sem nenhum arranhão se continuar com essa postura de espertinho?
Ele parou, os olhos frios encontrando os de Lucy:
- Não me subestime. Eu conheço o jogo. E uma coisa você não entendeu ainda: nunca foi sobre vocês serem mais fortes, mas sobre vocês estarem divididos. O Thiago sabe disso, e é por isso que eu estou aqui.
- Vamos ver se você realmente aguenta pressão, Tyler – disse, enquanto trazia um balde de água gelada. Ela jogou sobre ele, fazendo o mesmo se contorcer devido ao choque térmico.
Ele respirou fundo, quase rindo.
- Isso é o melhor que você pode fazer? Achava que os De Lucca eram mais criativos – ele zombou, mas a seriedade agora misturada com um pouco de medo nos olhos mostrava que estava a começar a sentir o peso da situação.
- Ainda preciso de você vivo, afinal, não deve ser um desperdício completo - Lucy aproximou-se ainda mais, a lâmina agora estava a centímetros do seu olho. - Agora, você vai me dizer tudo. E garanto que vai ser doloroso se só ouvir mentiras.
Tyler engoliu seco, sabendo que a noite seria longa. Cada palavra que dizia agora carregava um risco. O interrogatório estava apenas começando, e ele não sabia até onde Lucy estava disposta a ir.
O tempo passou, e a intensidade do interrogatório finalmente diminuiu. Com a chegada da madrugada, Tyler, exausto e enfraquecido, foi deixado desmaiado na cadeira do galpão frio e escuro.
…
Os gêmeos estavam sentados em um de seus escritórios, as luzes baixas conferindo um ar de confidencialidade ao ambiente. Uma garrafa de uísque estava aberta sobre a mesa, dois copos parcialmente servidos à espera.
Leonardo estava inclinado para frente, braços apoiados sobre os joelhos, enquanto Lucy se recostava na cadeira, os olhos fixos no teto como se ali pudesse encontrar respostas.
- E então? – perguntou Leonardo, a voz carregada de curiosidade e preocupação. – O que você descobriu?
Lucy suspirou, sentando-se mais ereta e pegando seu copo para um gole rápido de uísque.
- Ele é bom em jogar, isso eu te garanto – começou ela, os olhos ainda distantes. – Mas o que importa é que ele diz saber algumas coisas sobre os Warriors que podem nos favorecer.
Léo franziu o cenho, levando sua própria bebida à boca antes de responder.
- Isso pode ser útil, mas ainda confio nele tanto quanto numa cobra venenosa.
Lucy assentiu lentamente, concordando com o irmão.
- Concordo. Por hora, ele vai ficar vivo. Pode ser uma boa fonte de informação, mas não confio nele. Precisamos manter um olho nele, cada passo, cada movimento.
O moreno assentiu, compreendendo a seriedade da situação e a decisão da irmã.
- Está certo. Mantemos ele por perto, usamos o que ele sabe e ficamos atentos. Se ele der um passo em falso, não hesitaremos.
Lucy sorriu com a seriedade da situação.
- Ah, e só para você saber, ele vai precisar de um ou dois dias de descanso. O coitado está, digamos, meio indisposto.
Isso provoca a curiosidade em Léo, fazendo com que ele imediatamente pergunte:
- O que aconteceu?
- Bom, ele insistiu demais nas mentiras. Então, tive que dar uma lição nele
- Espero que ele tenha aprendido mesmo - riu, balançando a cabeça.
- Com certeza aprendeu. - disse finalizando sua bebida e levantando-se - Boa noite, Léo.
...
Na manhã seguinte, no galpão, Marco ficou encarregado de retirar Tyler. O rapaz estava desmaiado na cadeira, marcas de sangue e suor visíveis em seu rosto. Com cuidado, Marco o desamarrou e o carregou até uma das vans que haviam no local.
O automóvel partiu em silêncio, cortando a manhã fria de Verona até chegar a um dos condomínios fortificados controlados pelos Coven. Marco cuidou para que ele fosse levado para um dos quartos, onde poderia se recuperar. O peso da decisão de Lucy ainda pairava no ar, mas a vigilância constante dos gêmeos De Lucca garantiria que Tyler e nenhum outro tivesse oportunidade de causar problemas.