SARA..
Não havia nenhuma alma viva na estrada, nenhum carro, caminhão e nem mesmo o roncar da moto que me salvou. Por esse motivo o pavor então começou a transparecer pelo meu corpo. Observei ao meu redor e avistei um orelhão antigo do outro lado da rua, tomara que ainda funcione ou estarei definitivamente em maus lençóis.
Sem pensar muito, caminhei até ele e comecei a discar o número do meu pai, entretanto só caía na caixa postal.
__Por favor deixe um recado após o bipe.
__Pai sou eu sua filha Sara, lembra de mim? Pai me ajude, estou em perigo, tinha uns homens eles me assaltaram e me bateram também, mas fica tranquilo, estou bem. Porém estou perdida. Não é tão longe do colégio. Não demora muito, estou com muito medo pai. Vou ficar te esperando está bem? O senhor vai ouvir o recado em breve. Por favor ouça. - Sussurro e deixo o telefone cair me apoiando no orelhão ofegante.
Sentei-me no chão, e comecei a chorar compulsivamente, me deixando ser levada pela sensação de impotência e solidão recém instalada no meu interior.
Por que ele não me atendia? Será que não percebeu que não voltei para casa? Por que não se importa? Como um estalo lembrei do cartão que a Talita entregou, limpei as lagrimas do rosto, se me recordo bem havia um número atrás dele. o Peguei de dentro do bolso e pensar que quase o joguei no lixo, levantei-me e disquei seu número e no segundo toque ela atendeu.
__Alô.
___Professora, me ajuda por favor. - falei tentando não deixar sobressair meu nervosismo.
___Sara o que houve? Por que está nervosa? Pergunta aflita e puxo o folego . Não funcionou muito, Talita me conhecia como ninguém.
___Eu fui assaltada. Estou com muito medo, por favor me ajuda!
___Se acalma, onde você está? Você está bem? Pelo amor de Deus diz que está bem!
___Estou bem, não sei bem onde estou, é uma rua estranha, tem um orelhão, eu não sei. Rebato Frustrada por não conhecer quase nada da minha própria cidade. Na verdade, decorar ruas nunca foi minha especialidade.
__ Olha para algo que pode indicar onde está, qualquer coisa. - Falou e olhei em volta analisando.
___Deixa-me ver. Tem um mercadinho ou seria loja? Não sei ao certo. - Questiono confusa.
__Que cor é? Ou nome?
___é azul e vermelho. Não dá para ver o nome direito.
___Tudo bem, acho que sei onde é, fica perto da escola, espere aí, já estou indo te buscar, não saia daí!- Advertiu autoritária, não tenho nenhum lugar para ir mesmo.
__Vem logo. - Imploro e desliga o aparelho.
Me sentei no chão apoiando a cabeça nas minhas pernas, não podia evitar de me sentir aflita, se aqueles babacas retornarem estou perdida. Até agora, não consigo entender o que aconteceu para eles correrem daquela forma.
Os minutos pareceram horas, uma luz forte bate no meu rosto, deixando meu corpo em sinal de alerta.
Demorei um pouco para distinguir que era professora, percebi que estou mais nervosa do que antes, ela me chamou de forma carinhosa e fui até ela receosa.
Me abraçou me pegando totalmente desprevenida, não retribuo de volta. Era estranho receber afeto e pela primeira vez alguém estava se importando comigo sem ser por obrigação. Fechei os olhos apertando minhas mãos trêmulas, segurando as lagrimas que insistiram em cair.
{...}
Já na sua casa, depois de Talita me fazer algumas perguntas, e por incrível que pareça me abrir com ela, me avisou que irei dormir aqui essa noite, mas teria que deixar meu pai informado.
Quando ela ligou para ele avisando, senti uma profunda raiva, não queria escutar sua voz. Porque é nítido que não se importa comigo. Recordo que quando era criança, era totalmente o oposto de hoje. O que tinha mudado? Eu era o problema é isto? Estava pronta para me deitar. Quando avisto Talita se ajoelhando no chão.
__O que vai fazer? Pergunto com a expressão neutra.
___Vou agradecer a Deus por esse dia, e você deveria fazer o mesmo, afinal hoje ele te salvou de uma grande encrenca, julgo que merece um obrigado? - Sugeriu sorrindo, me sento na cama envergonhada. Até tinha me esquecido do livramento de horas atrás.
__Não sei como fazer isso. - suspiro pesadamente.
___ Vem cá, que eu te ajudo. Orar não é tão difícil como pensa, é como conversar com um amigo, apenas feche os olhos e tenha certeza de que Deus está te ouvindo. Entendeu? Me explica e desço da cama indo perto dela e me ajoelhando.
__Meu Deus, obrigado por esse dia, por ter nos guardado e ter me usado para ajudar nossa amiga Sara quando estava em perigo, sabemos que nada é por acaso e tudo tem um proposito, o senhor a escolheu, sim, sabemos o quanto o senhor a ama, e mesmo todas às vezes que ela se sentia sozinha, as vezes que achava que ninguém a amava o senhor sempre esteve lá, tentando fazer com que ela veja o quanto é amada não só por mim, pelo pai e sua família também, mas principalmente pelo senhor, e foi por esse motivo que atendeu seu pedido e secou suas lagrimas e é por esse motivo que ela está aqui, sabemos que o senhor jamais desampara um filho.
__ Cada palavra que ela falava, era exatamente como me sentia nesse exato momento, sentia como se minha alma fosse despida e ao mesmo tempo constrangida. Comecei a chorar sem me conter, como se tudo que estava guardado dentro de mim fosse exposto. - Ela me abraçou de forma aconchegante, e fiz o mesmo. Tinha algo nessa professora que fazia com que me abrisse com ela. Algo que nunca cogitei fazer nem com minha própria mãe.
__Shiii, coloca tudo para fora o que está sentindo. Fale com ele, sei que você tem muita coisa para conversar. - Afasto limpando o rosto e a olhando.
___Eu não sei. - Pronuncio.
___Sim, você sabe, apenas não está com coragem para falar, mas essa é a hora Sara. Ele está aqui e quer te ouvir dá forma como está. Vou te deixar sozinha para ficar mais à vontade. - Passa a mão sobre meu rosto e se retira, permaneço um pouco pensativa. E por fim resolvo tomar coragem.
___Eu não sei ao certo como dizer isso ao senhor, porque na realidade eu sempre me questionei sobre a sua existência, mas hoje tive a certeza de que o senhor existe, não foi por m*l, apenas entendia que se meu próprio pai não se importava comigo e tem coisas mais importantes para fazer, por que alguém dono do universo se importaria?
Porém, quando aqueles caras levantaram aquela barra de ferro na minha direção, eu estava preparada para morrer, mas no último segundo eu tive medo e pedi ajuda ao senhor e de repente, eles a jogaram no chão e correram, naquele momento tive a certeza que era comigo, não penso que mereço alguma coisa do senhor, mas se realmente me escolheu, eu quero mudar, quero te conhecer e ser diferente, eu não sei como vou fazer isso, mas acho que o senhor vai me mostrar e espero que o senhor tenha paciência comigo e não desiste de mim. _Muito obrigada por me salvar hoje, e por colocar a professora no meu caminho, e se pudesse escolher uma mãe eu queria que fosse alguém como ela, alguém que me amasse pelo que eu sou, e não que tentasse me mudar e me forçar a ser a filha perfeita, como todos querem que eu seja. - Desabafo me sentindo leve por dentro.
Depois dessa noite, eu tive a certeza que não estava sozinha.
???????????????
No dia seguinte, meu pai veio me buscar e depois de uma típica cena dele, fomos para casa. Me despedi da Talita prometendo que sábado estaria na igreja. Minha vó já frequentava, então iria com ela. Depois de tantos anos parece que realmente estou disposta a me entregar a Deus. Fui recebida pela dona Esther com beijos e abraços, se existia alguém que não poderia me queixar era dela. De fato, teria feito a pior burrada da minha vida, se não fosse as palavras daquele garoto.
Não fazia ideia de como chegaria na escola depois do que houve, no entanto, estava disposta a enfrentar meus medos.
Me aprontei colocando a mesma roupa de sempre e a maquiagem forte como sempre faço, estava decidida em enfrentar as coisas de frente de hoje em diante. Olhei para meu reflexo no espelho fazendo um r**o de cavalo. Sorri internamente, respirando fundo desci para tomar o café da manhã.
__ Bom dia. - Sorri me sentando na mesa, meu pai me olhou de r**o de olho.
__Que bicho te mordeu? De repente resolve acordar cedo. - Falou enquanto come.
___Para o senhor ver, como milagres acontecem. - Sorri irônica.
___Querida, tem certeza de que quer ir hoje? Deve estar em um momento difícil. - Minha avó segura minha mão.
___É claro que ela vai, já mandei Yuri ir denunciar os pivetes que fez aquilo com você, e amanha irei pessoalmente na escola ver se eles realmente foram expulsos. - Disse sério sem me olhar. Meu coração se acelerou, não sabia que tipo de pessoa era o Mark, mas temia que algo acontecesse com ele, afinal, ele foi o responsável por eu ter mudado de ideia.
___Pai, não precisa é sério, não acho que irão tentar algo contra mim novamente. - Solta os talheres na mesa e me encara semicerrando os olhos.
___Como é? Está defendendo aqueles pivetes? - Exalta a voz me fazendo abaixar a cabeça.
___Acho que todos merecem uma segunda chance.
Se fosse antes, não me importaria com eles, na realidade não sei se realmente me importo. O garoto que me salvou, ele sim merece minha consideração.
__ O senhor nunca fez nada r**m quando adolescente? - O encaro novamente e vejo seu corpo ficar tenso. Ele engole seco e desvia o olhar disfarçando.
___Que seja, se eles tentarem algo novamente, não deixarei passar. - Se levanta jogando o guardanapo e suspiro aliviada. Foi mais fácil do que esperava.
Segui para o colégio, pela primeira vez estava feliz porque o senhor Ricardo tinha me escutado. Sabia que era errado defender um desconhecido, mas se não fosse ele eu teria feito uma grande burrada. E não sei por que, de alguma forma não parecia ser tão r**m.
Despedi do meu pai, entrei na escola e meus olhos o procuraram instantaneamente em algum lugar, queria agradecer o conselho que me deu antes. Segurei minha bolsa com força, indo em direção ao corredor até que senti alguém puxar meu braço, arregalei os olhos o mirando, seu rosto estava roxo como se tivessem o acertado. Seu olhar era totalmente intimador, parecia desnorteado e ao mesmo tempo aterrorizado.
___É bom que você não diga a ninguém o que houve na noite passada. Aquilo nunca aconteceu. -Aperta meu braço fazendo latejar de dor, engulo seco.
__ Eu não vou contar nada. Fica tranquilo. - Mordo o lábio inferior e me solta.
___Vejo que é esperta. Boa aula gatinha. - Segura meu queixo saindo. Seu celular toca e olha o aparelho, retornando logo em seguida.
__Me desculpa por aquilo, não vai voltar acontecer. Não irei tocar em um único fio de cabelo seu. Diga isso a ele se por acaso te perguntar, e peça para me deixar em paz. - Dessa vez sua expressão era de raiva. Aceno comprimindo os lábios e quando some do meu campo de visão me encosto no armário aliviada. Olho em volta e entro na classe, de quem estava falando?
As aulas seguem normal, quando finalmente chega o intervalo, fui para onde fica as mesas para ver se o encontrava por lá, mas não o vi, o que será que aconteceu? Eu não o conhecia, nem se quer sabia direito como é seu rosto. Ele colocava aquela touca quase tampando sua face, nem sei como conseguia ver algo com aquilo. Dei de ombros e decidi sentar-se no mesmo lugar que ficava, já que estava vazio. Comecei a comer tranquilamente. Tudo na escola era estranho para mim, não podia evitar de me sentir sozinha, minha única amiga tinha me traído da pior maneira possível. Então apenas decidi enfrentar a c***l realidade que sempre seria a estranha deslocada e nada iria mudar.
Só então, que como estalo na minha mente me lembrei do que aquela garota havia me dito, que seu irmão trabalhava de garçom em um restaurante aqui perto. É será para lá que vou!