CAP 6: O Preço da Liberdade
O som dos tambores da comunidade ainda ecoa na minha mente enquanto eu deslizo a taça de champanhe entre os dedos. O vidro gelado contrasta com o calor das minhas lembranças, lembranças que eu quero apagar a qualquer custo.
Meu pai sempre gostou do luxo, do poder, da sensação de ser temido. Mas quando as dívidas começaram a engolir ele vivo, o medo bateu à porta. Fraco, endividado, ele fez o que qualquer tubarão desesperado faria: vendeu o que tinha de mais precioso para não afundar.
A mim.
O tratado com Lenda, o dono do Morro do Alemão, foi um acordo sujo, selado com promessas e cifrões. Meu pai queria continuar no topo, e Lenda queria garantir que ninguém o traísse. O que era mais seguro do que unir as famílias?
O problema é que a união significava que eu tinha que me casar com Terror.
Terror.
O nome combinava com ele. Frio, violento, sem um pingo de empatia. A fama dele ia além dos becos e vielas, e eu já tinha ouvido histórias demais sobre o que ele fazia com quem tentava desafiá-lo. Um monstro criado pelo crime, moldado para matar sem piscar.
E meu pai queria que eu passasse o resto da vida ao lado desse homem.
— Você vai fazer isso pela família — meu pai disse, o olhar cortante, a voz dura.
Mas eu nunca fui de aceitar ordens.
— Eu não sou moeda de troca.
— Não é sobre você, Tiffany. É sobre poder.
Aquelas palavras ficaram presas na minha cabeça por meses. Cinco meses, pra ser exata. O tempo que levei para arquitetar minha fuga. Eu sabia que não podia só sumir sem um plano. Sabia que, se fizesse isso, meu pai ia me caçar até o inferno.
Então eu esperei.
E então veio aquela noite.
A música pulsava, as luzes dançavam sobre corpos suados e copos cheios. Eu queria esquecer, queria sentir. E então eu o vi.
Dominick.
Alto, pele bronzeada pelo sol italiano, olhos tão verdes que pareciam refletir dinheiro. O gringo era diferente de tudo que eu conhecia. Não pertencia ao meu mundo de becos estreitos e alianças de sangue. Ele era luxo, poder e liberdade.
Foi um olhar e uma faísca. Um sorriso e um convite. Uma dança e um quarto de hotel caro demais para qualquer um do morro pisar.
Eu não hesitei. Quando nossos lábios se tocaram, eu soube que aquele era o caminho que eu queria. Minhas roupas caíram ao chão junto com qualquer dúvida. Ali, entre lençóis de cetim, eu encontrei o que procurava: uma saída.
Depois do sexo, enquanto eu recuperava o fôlego, Dominick fez a proposta.
— Você tem algo que eu quero — ele disse, deslizando os dedos pela minha coluna.
— É mesmo? — sorri, virando sobre o colchão para encará-lo.
— Beleza. Personalidade. E sede de luxo. Eu vejo isso em você.
Ergui uma sobrancelha.
— E o que você quer?
— Uma mulher como você ao meu lado. Não esposa, não namorada. Amante. Você teria tudo. Viagens, joias, roupas que nenhuma outra poderia bancar. Mas sem amarras. Você seria livre.
Livre.
A palavra martelou na minha mente.
Foi ali que percebi que a liberdade tinha um preço. E Dominick estava disposto a pagar.
Sem pensar duas vezes, aceitei.
O Adeus Sem Volta
A manhã seguinte chegou pesada, mas eu já sabia o que tinha que fazer. Meu celular estava desligado desde a noite anterior. O plano já estava traçado fazia tempo, e agora era só executar.
Peguei uma folha em branco e comecei a escrever. A última coisa que eu deixaria para trás era essa carta.
"Pai, mãe, não adianta me procurarem.
Eu sei que a decisão que tomei não é a que vocês queriam, mas é a que eu precisava. Não vou ser uma peça de xadrez no jogo de vocês.
Estou indo viver a vida que escolhi, e não aquela que escolheram para mim.
Adeus."
Dobrei o papel e deixei sobre a cômoda do quarto. Peguei minha mala pequena – não precisava de muita coisa além do passaporte e do dinheiro que já havia guardado.
Antes de sair, olhei para trás. A casa onde cresci, onde vi meu pai construir seu império e agora se ajoelhar para não perdê-lo. A casa onde minha mãe viveu sua vida de rainha submissa, sempre abaixando a cabeça, sempre aceitando tudo.
Não. Eu não ia ser como ela.
Saí sem olhar para os lados. A essa hora, meu pai ainda estava dormindo. Se ele soubesse o que eu estava prestes a fazer, eu estaria morta.
Dominick me esperava no carro. O motor roncou assim que entrei. Ele me olhou de soslaio, um sorriso discreto nos lábios.
— Pronta? — perguntou.
Olhei para frente, sentindo o coração bater acelerado. Uma nova vida me esperava do outro lado daquela estrada.
— Vamos — respondi, sem hesitar.
O carro arrancou, e naquele momento, eu soube que nunca mais voltaria.