****1 SEMANA DEPOIS***
STEFANY
Já faz uma semana que estou morando aqui no meu morro do Alemão e ainda não tive coragem de sair desta casa. Não vejo ninguém além de Dona Rosinha, que tem sido minha única companhia durante o dia. Ela chega às 7h da manhã e vai embora às 18h. Depois disso, fico sozinha. Só eu e Deus.
Passo o tempo no meu celular e nas minhas séries favoritas. Sinto falta de sair? Nem um pouco. Mesmo quando morava com meus pais, nunca fui de sair. Nunca gostei. Odiava estar na rua e ouvir aquele comentário maldito: "Ah, você não é a gêmea diferente da Tiffany?" Como isso me irritava... até que parei de sair de vez.
Minha mãe me sacaneou. Colocou roupas na minha mala que eu nunca usaria. Coisas que a Tiffany escolheria. A diferença é que ela é uma Barbie — nela tudo fica lindo. Em mim? Nem digo o mesmo. Cada dia que passa, fico mais frustrada. Essa casa está se tornando uma tortura. Meu medo? Que o Terror entre aqui armado e já sabendo de tudo.
Sempre oro a Deus e, ao mesmo tempo, me amaldiçoo por ter nascido gêmea. Por que eu não vim primeiro? Por que tinha que ser depois da Tiffany? O destino é um filho da mãe, gosta de brincar com a vida das pessoas.
Nunca fui romântica. Não sou boba. Sei que homens só gostam de uma coisa: mulheres no plural e muito luxo. E como Tiffany sempre dizia:
— Você só não é romântica porque é considerada esquisita. Se não fosse, seria uma tonta apaixonada.
Reviro os olhos com essa lembrança.
Olho no relógio do quarto. 21h. Não desci para jantar e nem vou. Estou sem fome. Entediada.
Vou até a janela e vejo a piscina na área de lazer do sobrado. Uma ideia me vem à mente. Acho que vou dar um mergulho. Terror não dá mais as caras mesmo, então não teria problema.
Vou até meu closet e só agora me dou conta: não tem maiô, só biquínis. Suspiro, frustrada. Minha mãe me paga um dia. Pego um preto, que destaca meu tom de pele, e visto.
Desço.
Me sento na borda da piscina, mergulho os pés e, sem pensar muito, pulo de uma vez. A água fria arrepia meu corpo, mas logo me acostumo. Mergulho algumas vezes e, quando me canso, apenas boio ali, de olhos fechados, aproveitando o momento. Pela primeira vez em dias, sinto algo parecido com paz.
Mas essa paz dura pouco.
A voz que faz minhas pernas fraquejarem ecoa no ar:
— Você é mais gostosa assim do que com aqueles vestidos que a Rosinha te deu. Te deixam mais velha e estranha.
Meu coração dispara. Meu corpo paralisa. Terror.
Viro o rosto devagar, e lá está ele, me olhando como um predador.
— Eu gosto do meu novo estilo — respondo, tentando manter a compostura. — E não sou mais uma Barbie pra ficar usando aquelas roupas.
Ele solta uma risada debochada.
— Engraçado que, no seu closet, só tem roupas ousadas... Roupas que te deixariam uma delícia.
Engulo em seco.
— Foi minha mãe que fez essa mala. Ela só queria que eu voltasse a ser como antes... — minha voz falha. — Mas a depressão não deixa mais sermos as mesmas.
Ele dá um passo à frente, inclinando a cabeça.
— Senta no colo do pai que eu te curo dessa depressão... — ri de forma cínica.
O ódio sobe até minha garganta.
— i****a.
Saio da piscina, pego meu roupão e vou para dentro. Meu coração ainda está disparado. Tento me acalmar. Tento esquecer o olhar dele sobre mim.
Entro no quarto e vou direto para o banheiro. Visto minha camisola, ainda com a respiração pesada. Mas então...
A porta do banheiro bate com força.
Dou um pulo. Terror está ali. E ele está puto.
Meu estômago se revira. Meu corpo gela. Fico com os olhos arregalados, o roupão ainda entreaberto. Agora vai dar merda.
Ele se aproxima devagar, o olhar carregado de fúria.
— Tá dando uma de santinha por quê, hein, p***a? — Ele cerra os punhos. — Cê acha que me engana? Acha que eu não tô ligado nos paranauês?
Tento falar, mas a voz não sai.
— Tô achando que escolhi a irmã errada. — Ele solta uma risada seca, c***l. — Talvez eu devesse ter ido atrás da tua irmã feia.
Meu peito aperta.
— Não é assim que a chamam? Feia? Esquisita?
Minhas mãos tremem.
— Nunca vi e também não me importo, mas... imagina que humilhação? Ser trocada pela irmã que todo mundo fala m*l.
É como se meu coração tivesse sido esmagado. As palavras dele me cortam como lâminas.
As lágrimas descem com força. Meu corpo inteiro treme. Tento responder, mas só consigo balançar a cabeça em negação.
Ele sai do banheiro, me deixando ali. Sozinha. Despedaçada.
Me jogo na cama, o peito subindo e descendo em soluços.
Então é assim que as pessoas me veem? Como um nada?
Fecho os olhos com força. Por que eu me sinto tão fraca diante dele?
E pior…
Por que, mesmo depois de tudo, meu coração ainda bate tão forte?