Capítulo 4

1278 Palavras
Jardineiro (Aslan) À medida que eu tomava o controle me sentia mais e mais vivo. Aslan por outro lado, estava adormecendo dentro da nossa mente conturbada e deixando mais uma vez que eu ditasse nosso caminho. A mulher deitada na cama é simplesmente a cópia da nossa rosa Samia, que foi tirada de nós de uma forma brusca, sem dar-nos a chance de salva-la. _ Imaginei que você fosse aparecer. Disse Asaf. _ Ela... ela é a cópia da Samia! _ Não entendo porque meu irmão não reconheceu. _ Aslan foi o que mais se feriu, sua mente prefere negar do que aceitar os fatos. Essa mulher, é simplesmente a reencarnação da nossa Samia! Nunca estive tão falante, ainda mais com Asaf que nunca me aceitou, mas agora, olhando essa linda flor machucada, minha vontade de explodir em palavras é enorme. No início eu me escondia sempre que Asaf chegava ao jardim, deixava Aslan tomar conta do nosso corpo e virava apenas um telespectador, mas com o tempo ele percebeu a mudança de personalidade no próprio irmão, e quando me enfrentou no jardim, revelei quem eu realmente era. Parece ficção duas pessoas diferentes frequentarem o mesmo corpo, mas é isso que acontece quando sua mente se dilacera em mil pedaços depois de um trauma. Ela procura incessantemente se reconstruir, se adaptar e lidar com o que a feriu, e foi assim que eu nasci, forjado em meio ao caos e a dor que Aslan sentiu. _ Para reencarnação ela não serve, até porque essa mulher tem vinte e seis anos, e Samia teria trinta e seis hoje. Mas devo admitir que fiquei em choque quando reparei no rosto dela. Disse Asaf enquanto se aproximava da cama. _ Incrível... nunca imaginei que veria a mulher de novo. O destino realmente é brincalhão! Falei enquanto sorria. Asaf me encarou com o cenho franzido. Esse garoto terá rugas muito rápido. _ É estranho ver você realmente feliz. Geralmente te vejo no jardim concentrado nas suas... coisas. _ São flores, irmão, flores e plantas! _ Não me chame de irmão, aberração! Você habita no corpo do meu irmão, mas nunca será nada para mim! Asaf rosnou as palavras e caminhou até a porta. _ Poupe a pobre garota das suas loucuras, e a deixe em paz. Deixe Aslan assumir o controle, que certamente ele vai fazer o que é correto e saudável para todos. Ele saiu do quarto, deixando somente eu e a garota. Acariciei o rosto dela mais uma vez, sentindo a pele macia. Meu polegar deslizou pelos lábios secos e sem conseguir resistir, me inclinei para beija-la. Molhei os lábios dela com a umidade dos meus, e a respiração fraca da mulher virou canção para meus ouvidos. Por mais errado que isso fosse, ter Samia tão perto de mim mais uma vez acalentava não só a mim, mas inconscientemente Aslan também. Quando me afastei, observei mais uma vez o rosto doente. _ Você será minha, inteiramente minha. De corpo, e em breve de alma também, minha linda rosa. Ouvi passos e ergui meu corpo, aderindo à postura rígida de Aslan. Olhei para trás e vi um homem estranho, usando uma roupa que provavelmente é um pijama. _ Minha mulher! Disse ele em prantos. Então ela é casada? Bom, isso não é problema. _ Ela é sua esposa? Perguntei enquanto observava o homem dar a volta na cama. Ele agarrou a mão dela com força, justamente a única mão machucada e isso me fez perceber a falta de cuidado dele com ela. _ Sim... o que houve? O que aconteceu com ela? _ Ela levou um tiro. _ Um tiro? Como? Onde? _ Ela protegeu meu irmão. É uma mulher honrada. Ele franziu a testa me olhando, mas a mão dele apertando a mão machucada dela estava me incomodando muito. _ Samira jamais se jogaria na frente de uma arma para proteger ninguém, ficou maluco? _ Samira? O nome dela é Samira? _ Sim! Então mais uma vez estávamos no tabuleiro do destino. Agora, Samia e Samira eram as rainhas, e Aslan e eu os reis... _ Um belo nome. Virei minhas costas deixando o homem e a mulher sozinhos. _ Descubram tudo sobre os dois, e fiquem de olho neles. Ela não sai desse hospital sem a minha permissão! Dei a ordem a um dos meus soldados e mesmo sentindo a dor da perda tive que deixa-la para trás. Agora eu preciso pensar no que fazer, e em quais peças mover para ter a mulher ao meu lado. Sei que Aslan talvez não aceite, mas eu a quero, eu preciso dela! _ Me leve para casa. Ordenei. Agora, havia somente um lugar que me acalmaria e me faria pensar com lucidez. Conforme a água do regador tocava as rosas brancas, alguns pensamentos aleatórios se passavam na minha cabeça. Talvez, se eu conseguir convencer Aslan a querer a mulher tanto quanto eu, possamos transforma-la em nossa esposa. Por mais que ele negue de todas as maneiras possíveis, Aslan sente falta do calor feminino, da risada delicada e das mãos macias acariciando seu cabelo enquanto finge dormir, apenas para ficar mais tempo em contato com quem ama. Era assim com Samia, e pode ser assim com Samira também. Observei meu belo jardim que recebia agora os primeiros raios de sol, e minha imaginação fértil me fez imaginar Samira deitada na grama verde, nua e em meio as plantas carnívoras e restos humanos. Por mais aterrorizante que meu jardim seja para as pessoas convencionais, ninguém pode negar o tom poético que possui. A mistura da vida e da morte, onde os dois lados se encontram e caminham juntos. Várias rosas florescendo com vida, absorvendo os nutrientes dos crânios humanos de pessoas que um dia respiraram, que andaram pela terra e que tiveram a infelicidade de cruzar meu caminho. As plantas carnívoras que ficam do outro lado do jardim estão enormes e se alimentam dos insetos que entram aqui. É um trabalho cauteloso mantê-las vivas e depois que descobri que a carne humana é rica em nutrientes para elas sempre que desosso algum crânio separo a carne para alimenta-las. Seleciono a dedo quem vai servir de vaso e alimento para as minhas preciosas plantas, e hoje o primo de Aslan não foi um porque sua cabeça era pequena demais para comportar as rosas que quero plantar e sua saúde era r**m, mas quem sabe aquele homem que se diz marido de Samira seja uma boa opção para as minhas filhas. Sim, filhas. Loucura? Talvez, mas as rosas me lembram a Samia e eram sua paixão, e as crio como se fossem uma extensão do amor que sinto pela mulher. E as plantas carnívoras eram um sonho distante dela, que infelizmente não teve a chance de cria-las. Aqui no meu jardim Samia repousa tranquilamente. Uma coisa que ninguém sabe, nem mesmo Aslan, é que depois de alguns anos eu a trouxe para perto de nós. Invadi o cemitério e cavei até chegar ao caixão da minha amada, tirando-a daquele lugar sujo e triste trazendo-a para cá, o santuário que construí especialmente para ela. Parei em frente as rosas brancas que estavam cada dia mais bonitas e acariciei o solo até encontrar alguns pedaços do que um dia foi a melhor coisa que cruzou nosso caminho. Essa é a minha forma de amar. Dedico a ela meus sorrisos e minhas canções, dedico a ela minha vida e por mais que já tenha partido, meu coração sempre será dela, e nenhuma outra tomará, nem mesmo Samira. Ela servirá de acalento e adormecerá as feridas das duas almas desse corpo, mas nunca será o antídoto da minha dor.
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