O salão do tribunal respirava tensão. As paredes altas devolviam cada som em eco, como se a própria Justiça, invisível e implacável, observasse todos ali dentro. O ar estava carregado, denso demais para ser apenas oxigênio — era o peso do julgamento que pairava, sufocando.
O silêncio foi cortado por um compasso firme: o estalar dos saltos ecoando pelo corredor. Cada batida parecia medir o tempo, exata e quase militar, arrancando olhares tensos e inquietos de todos, enquanto as portas de madeira maciça se aproximavam com solenidade.
As portas abriram-se com solenidade. Sigridi Leyz adentrou, cada movimento medido, carregado de autoridade silenciosa. A toga preta, impecável e severa, deslizou sobre os seus ombros, acompanhando o andar firme de quem conhece o poder que detém. O queixo erguido, o olhar cortante e calculado, cada passo parecia gravar no ar a certeza de que, naquele tribunal, a sua palavra tinha o peso do destino.
Sem pressa, ela caminhou até o púlpito, cada passo medido, ecoando pelo salão. Ajustou o assento com precisão, alisou a toga sobre os ombros como quem reafirma a sua autoridade, e então, com um gesto firme, deixou que o martelo tocasse a madeira. O som seco explodiu no ar, espalhando-se pelas paredes altas, cortando o silêncio como uma lâmina afiada.
A voz de Sigridi, afiada como lâmina, cortou o silêncio da sala, caindo pesada sobre todos. — Declaro aberta a audiência de instrução e julgamento do processo n.º 47692-13.2025.8.26.0100. As partes estão presentes?
Lucca, advogado de acusação, levantou-se primeiro. Um canto do seu lábio curvou-se num sorriso gelado, sem calor, enquanto os olhos frios e calculistas brilhavam com desprezo. Não era confiança — era puro escárnio.
— Presente, excelência
Henrique, seu cliente, levantou-se logo em seguida. Ele ajeitou a lapela do paletó com um movimento lento e cheio de desprezo, os olhos fixos em Aurora. — Presente, excelência.
Aurora respirou fundo, os dedos se apertando com força na pasta de couro, o material rangendo sob a pressão. As unhas deixavam marcas pálidas, pequenas garras tentando segurar a coragem que ameaçava escapar. Com um esforço visível, ela levantou-se, o corpo tenso, e sussurrou:
— Presente, excelência.
O olhar de Sigridi deslizou sobre ela, avaliador e predatório, antes de se fixar na cadeira vazia ao lado de Aurora, prolongando a pausa. Aquele olhar dizia mais do que qualquer palavra.
No fundo da sala, Lian permanecia imóvel, uma sombra silenciosa. Mas os olhos dele nunca descansavam, atentos a cada gesto, cada mínima mudança de expressão. Ele conhecia aquele jogo — um tabuleiro onde Lucca e Sigridi tinham apenas um objetivo: destruir Aurora em questão de minutos. Infelizmente, naquele momento, ele não podia intervir; só podia observar, sentindo o peso da impotência apertar o peito.
Sigridi pousou as mãos na mesa, os dedos se apoiando com firmeza. O olhar percorreu a sala, demorando-se em Sedrini com uma intensidade quase insolente. Um sorriso curto, cheio de cumplicidade, escapou por um instante — suficiente para que Lucca percebesse, Aurora sentisse o peso, e Lian notasse a parcialidade.
— Senhor Sedrini, a palavra é sua. Faça bom uso dela.
Lucca avançou, apoiando as mãos na bancada, o corpo dominando o espaço como um predador. A voz saiu gelada, doce e venenosa, cheia de desprezo.
— Meritíssima, meu cliente é acusado de vender um carro com defeito à senhora Jane Clark, um absurdo completo. Ele é homem de reputação impecável, sem manchas, responsável por dezenas de vendas todos os dias. E justamente a dela deu problema? Conveniente demais, não acham? — Ele ergueu a mão num gesto de desprezo, como se estivesse afastando algo indigno de tocar nele. — E onde está Jane Clark? Fugiu, é claro. Pois não teve coragem de enfrentar a situação. Uma covarde!
Aurora ergueu-se com firmeza, o rosto levemente corado pela indignação, mas a postura impecável. — Protesto, meritíssima! O advogado está não apenas ofendendo, mas caluniando minha cliente. Solicito que tais acusações sejam registradas e desconsideradas.
Sigridi ergueu a mão lentamente, o gesto carregado de controle absoluto. Um sorriso quase imperceptível curvou os lábios, revelando cumplicidade com Sedrini e desprezo pelo restante da sala. — Protesto negado. Prossiga, doutor.
Lucca inclinou-se em falso respeito, o sorriso gelado fixo no rosto. — Como eu dizia… Jane Clark é uma covarde.
Risadas abafadas percorriam a sala como pequenas faíscas. Aurora fechou os olhos por um instante, respirou fundo, mas o corpo traía o seu esforço: os dedos tremiam levemente sobre a mesa, e a respiração vinha curta, quase forçada. Quando abriu os olhos, o semblante ainda buscava firmeza, embora a instabilidade fosse visível. — Minha cliente não veio por motivos de saúde — disse, a voz firme, apesar do ritmo acelerado da respiração. — Não por medo.
Lucca esboçou um sorriso venenoso, fingindo surpresa.
— Saúde? Ou seria medo tentando se disfarçar? — Pausou, deixando o silêncio trabalhar a seu favor. — Convenhamos: com a doutora Deneuve como representante inexperiente, ela já sabia que perderia. Sério, senhorita, deveria ter desistido desse caso desde o início. Lembra da nossa “conversinha amigável” de manhã? Pois é… — o sorriso alargou-se, c.r.u.e.l
Aurora travou. A lembrança daquela manhã apertava o seu peito com força quase física. Ele a tinha encurralado, e as palavras se dissolviam na boca, cada protesto morrendo em sussurros inaudíveis. Sentia o peso dos olhares da sala, mas nada saía. O silêncio da sua i.m.p.o.t.ê.n.c.i.a gritava mais que qualquer som.
O martelo bateu na mesa, firme e impiedoso, cortando qualquer possibilidade de reação, não apenas a dela, mas de qualquer um que se atrevesse a intervir. — Já que a autora não compareceu, encerro a audiência. Senhor Henrique, está livre de qualquer obrigação — decretou Sigridi. A sua voz, gélida, cada sílaba carregada de c.r.u.e.l.d.a.d.e calculada, selando o veredito.
A sala mergulhou em silêncio absoluto, pesado e sufocante. Aurora permanecia paralisada, consumida pela humilhação diante de todos.
Com um esforço quase sobre-humano, ergueu a pasta, a voz tremendo de indignação. — Meritíssima! Tenho provas, laudos, testemunhas… por favor…
— Caso encerrado! — a voz de Sigridi cortou-a como lâmina, definitiva e implacável.
Aurora sentiu-se aprisionada em pedra, sepultada viva pelos olhares curiosos. Lucca sorriu, lento, saboreando a vitória como um carrasco que contempla a própria execução.
Ela respirou fundo, o ar pesado queimando nos pulmões, fechou a pasta com um estalo seco, como um grito contido preso na garganta, e caminhou até a porta. Cada passo ecoava pelo corredor vazio, um ato de resistência contra a vontade de desmoronar ali mesmo, frente a todos.
Ao sair do prédio, a chuva caía com fúria. Aurora ignorou o aguaceiro e deixou-se encharcar, cada gota queimando a pele, misturando-se à humilhação que parecia gravada em cada poro. A água escorria pelo rosto, levando embora lágrimas que ela nem percebia derramar, carregando junto os fragmentos do orgulho esmagado.
Lian estava furioso, consumido por uma raiva intensa, desejando enfrentar Sigridi e Lucca e vingar a humilhação de Aurora. Por ora, se conteve. Levantou-se às pressas, o coração apertado, tentando alcançá-la.
O celular vibrou na mão, estridente, quebrando a sua fúria silenciosa. Por um instante, permaneceu imóvel, dividido entre a tela que se acendia e a silhueta de Aurora desaparecendo na chuva. O peso esmagador da impotência apertava o peito, uma dor tão real quanto a própria raiva.
— Sim? — atendeu, a voz carregada de impaciência.
Do outro lado, uma única frase atingiu Lian como um punhal no peito. O rosto dele perdeu toda a cor.
Anthony, juiz veterano e um dos poucos homens íntegros que Lian respeitava, aproximou-se para cumprimentá-lo e percebeu a tensão imediatamente. — Bom dia — disse, com voz calma e cuidadosa. — O que houve, Lian? Parece que viu um fantasma.
A voz de Lian saiu como um sussurro quebrado. — a minha esposa… sofreu um acidente. Ela está grávida de sete meses e meio. Eu… eu não posso…
Anthony pousou a mão firme no seu ombro. — Sinto muito. Vá. Pode deixar que eu assumo a sua audiência.
Lian m.a.l conseguiu entregar os documentos, a gratidão engolida pela pressa. Saiu em disparada, cada passo carregado de desespero e medo pelo que o aguardava.
O táxi cortava a cidade, mas para ele tudo era borrão, como se o mundo tivesse deixado de existir. O coração batia fora de ritmo, o ar sumia dos pulmões. Cada segundo era uma eternidade que o separava de Diana e Gael.
Já na recepção do Hospital Klinik Hirslanden, a sua voz m.a.l saiu:
— A minha esposa… Diana Marconi. Sou o marido, Lian Marconi. — disse, as palavras saindo atropeladas.
As atendentes trocaram olhares preocupados. Uma delas pegou o telefone e fez uma ligação rápida; ao desligar, conduziu-o por um corredor mais isolado. No final, um médico o aguardava, o semblante carregado de sombras.
— Bom dia, senhor Lian. Sou o doutor Matthias Roth. A sua esposa está no centro cirúrgico. Mas antes… — o médico suspirou profundamente, o semblante pesado — preciso lhe dizer… que... sinto muito.
Lian fitou-o nos olhos, o desespero irrompendo como uma explosão contida. — Sente muito pelo quê?!
O olhar de Roth era uma sentença gravada na pele. — O senhor Raul Luns… não resistiu.
As pernas de Lian cederam. O chão pareceu desaparecer, e o ar ao redor ficou pesado, sufocante. O mundo despencou em silêncio.
— Não… não… — murmurou, a voz engolida pelo vazio, a garganta ardendo, cada palavra presa entre medo e incredulidade.
O médico respirou fundo, cada sílaba caindo como um golpe: — Há mais uma complicação. A sua esposa está em risco grave. O bebê também. Temos que decidir agora: salvar Diana… ou tentar salvar a criança.
O coração de Lian disparou, pulsando tão forte que parecia querer escapar do peito. A visão tremia, e um frio cortante subiu pela espinha, drenando a sua força.
— Não! — gritou, agarrando o jaleco do médico, tremendo involuntariamente, mãos frias e úmidas, cada músculo em tensão total.
— Salve os dois! Eu pago o que for!
Roth pressionou o ombro dele com firmeza, mistura de compaixão e dureza: — Não é possível. Se não escolher agora… perderemos os dois.
As lágrimas brotaram incontroláveis, escorrendo pelo rosto de Lian. A respiração tornou-se irregular, ofegante, cada soluço atravessando o peito. A voz despedaçou-se em ruídos de desespero:
— Salve ela… salve a minha Diana…
O médico assentiu e entrou no centro cirúrgico. A porta fechou-se atrás dele como um portão de ferro, fria e definitiva, destruindo qualquer esperança imediata.
Lian caiu ao chão, tremendo. O mundo girava ao redor, indiferente, enquanto dentro dele algo se partia em pedaços que nunca se recompuseram. O coração latejava dolorosamente, a cabeça girava, a respiração faltava — e a sensação de impotência o engolia, uma onda n***a prestes a afogá-lo ali mesmo, naquele corredor silencioso.