O toque do celular rasgou a quietude densa, vibrando pelo ar carregado de tensão. Aurora estremeceu, os dedos tremendo ao segurá-lo. Por um instante, tudo ao redor desapareceu: o pilar que a apoiava, a presença implacável de Lian, até mesmo o vento frio que cortava o estacionamento. Era Phill, ela respirou fundo, tentando recuperar a compostura, e atendeu, a voz ainda frágil, quase um sussurro.
— Sim, estou te vendo… já vou aí. Obrigada — murmurou, enquanto os olhos vasculhavam desesperados o estacionamento em busca do motorista.
Quando o encontrou, Aurora desligou o celular e guardou-o na bolsa, a mão ainda tremendo levemente. Os seus olhos encontraram-se com os de Lian, e os lábios se moveram devagar, formando as palavras com esforço contido.
— Obrigada por tudo… de verdade. — Ela retirou o sobretudo de Lian com delicadeza e estendeu-o a ele, os dedos ligeiramente trêmulos, como se cada gesto carregasse um pouco do peso do momento.
— Não precisa agradecer. — Ele pegou o sobretudo com firmeza, os olhos permanecendo fixos nos dela por um instante, carregados de intensidade contida. — Apenas se cuide… e fique atenta. Boa sorte na sua defesa.
Aurora respirou fundo, tentando controlar o nervosismo, e respondeu com voz firme, mas ainda marcada pela tensão:
— Obrigada, senhor Lian. Vou dar o meu melhor… ou ao menos tentar, pode ter certeza.
Ele assentiu com um sorriso contido, quase imperceptível, e Aurora respirou fundo, tentando recompor-se. Com movimentos cuidadosos, ela ajeitou os braços para cobrir a blusa aberta, escondendo o sutiã à mostra, consciente de cada detalhe da sua postura. Então, começou a se dirigir rapidamente em direção ao carro, os passos precisos, medidos, quase calculados, cada movimento refletindo a tensão que ainda pulsava no seu corpo. Lian permaneceu imóvel, observando-a silenciosamente, os olhos atentos a cada gesto, cada passo, até que ela estivesse finalmente fora de perigo imediato, segura, sob a proteção de Phill e longe do alcance de qualquer ameaça.
Enquanto Aurora caminhava, cada passo parecia ecoar pelo estacionamento, mais alto do que o normal, como se o chão denunciasse a sua tensão. Phill, ao vê-la, saiu do carro rapidamente, os cabides ainda na mão, os olhos fixos nela, transbordando preocupação que ele nem tentou disfarçar. Sem hesitar, tirou o próprio terno e o colocou cuidadosamente sobre os ombros dela, tentando cobrir o seu corpo e protegê-la do frio e da chuva.
— Senhorita, o que aconteceu? — perguntou ele, a voz carregada de apreensão, cada palavra refletindo a preocupação que dominava o seu olhar.
Aurora sentiu um aperto no peito ao perceber o cuidado de Phill. Um calor sutil misturou-se à tensão ainda presente, e ela desviou o olhar por um instante, tentando controlar a mistura de alívio e constrangimento que lhe subia à face.
— Não aconteceu nada — disse ela, forçando um sorriso leve, mas os olhos traíam a inquietação que ainda a consumia. — Obrigada por se preocupar, Phill. Vou me trocar e arrumar a maquiagem. Por favor, espere aqui fora.
O som da porta do carro se fechando cortou o ar, mas Phill m*l percebeu. Os seus olhos continuavam fixos na imagem que Aurora deixara para trás: a maquiagem borrada, os olhos vermelhos e inchados, os cabelos despenteados, e a camisa… rasgada, com botões arrancados. Cada detalhe parecia gritar na sua mente que algo terrível havia acontecido, despertando nele uma mistura de choque e fúria que o deixou sem reação por um instante.
Ele buscou o culpado com o olhar, e encontrou Lian saindo de trás do pilar. A postura firme, o passo calculado, o semblante calmo e implacável — tudo parecia normal para qualquer observador. Mas para Phill, o contraste era insuportável. O seu sangue ferveu, um frio percorreu a sua espinha, e a raiva explodiu antes que pudesse raciocinar.
Sem pensar, avançou. Era menor, fisicamente mais frágil, mas o instinto de proteção o fez parecer maior.
— Como o senhor ousa? — gritou, a voz carregada de indignação e desespero. Encurralou Lian contra a parede, cada músculo tenso, olhos faiscando. — Ela é apenas uma garota indefesa!
Lian ergueu as sobrancelhas, confuso, a expressão calma agora tingida de alerta.
— Do que você está falando, Phill?
— Um homem como o senhor… um juiz, casado, responsável! — a voz de Phill cortava o ar, carregada de fúria contida, o peito arfando, cada palavra como uma lâmina pronta para ferir. — Como pode?
O clique da porta do carro cortou o silêncio com nitidez. Aurora saltou para fora, os passos apressados batendo firmes no chão, cada eco denunciando sua pressa e preocupação. Ofegante, os olhos arregalados, m*l conseguia absorver a cena diante de si: Phill, pequeno, mas carregado de fúria, pressionava Lian contra a parede. A diferença de tamanho entre os dois homens era chocante, e a intensidade da tensão entre eles fazia o ar parecer mais pesado.
— Phill, o que você está fazendo? — a voz dela soou alarmada, mas firme, tentando interromper a escalada de violência.
Phill não desviou o olhar.
— Eu vou quebrar a cara desse violentador! Como ele ousa encostar em você? — gritou, cada sílaba carregada de fúria e instinto protetor.
Aurora parou a poucos metros, ofegante, tentando controlar o terror que ainda percorria o seu corpo.
— Não, Phill! Não é nada disso... — a sua voz firmou-se, agora urgente e determinada. — O senhor Lian... ele me salvou.
Lian manteve a calma, respirando devagar, olhos fixos nela, compreendendo imediatamente o m.a.l-entendido. Phill recuou lentamente, os músculos ainda tensos, começando a assimilar a verdade. Aurora avançou mais alguns passos, levantando as mãos num gesto conciliador.
— Phill... Ele me ajudou, me protegeu. — A voz tremia ligeiramente, mas havia firmeza e sinceridade, e os seus olhos não mentiam.
Phill piscou, absorvendo cada palavra. A vergonha misturava-se à raiva ainda pulsante em seu peito, enquanto a respiração, antes acelerada, começava a se estabilizar. Com um gesto contido, deu um passo atrás, os punhos se descruzando lentamente, como se soltasse não apenas o corpo, mas também a tensão que o dominava.
— O senhor… salvou ela? — a voz saiu baixa, quase sussurrada, carregada de incredulidade e alívio.
Aurora assentiu, os olhos brilhando com gratidão, ainda tingidos pela tensão que não se dissipara completamente.
— Sim. Ele estava comigo o tempo todo… o senhor Lian não me machucou.
— Eu… — começou Phill, engolindo em seco, tentando organizar a mistura de alívio e culpa. — Me desculpem. Eu… — pausou, sem saber como expressar o turbilhão de sentimentos.
Lian deu um passo à frente, calmo, mantendo o olhar firme em Phill, mas sem hostilidade.
— Está tudo bem, ela está segura, e isso é o que importa.
Aurora respirou fundo, aliviada, e disse:
— Muito obrigada, Phill. Pode ir agora, mas, por favor, não conte nada disso para o Álvaro. Não quero que ele fique preocupado como você ficou.
— Imagina! Pode ficar tranquila, não vou contar. Estarei por perto; qualquer coisa, é só ligar. — Phill fez um leve aceno, a expressão séria, mas tranquila. Em seguida, dirigiu o olhar a Lian: — Senhor, mais uma vez, peço desculpas e agradeço por cuidar da senhorita Aurora. Sem esperar resposta, deu meia-volta e entrou no carro, fechando a porta com um clique firme.
Aurora e Lian ficaram observando o carro se afastar antes de começarem a caminhar lado a lado em silêncio até o elevador. As portas se abriram, e eles entraram. Lian apertou o botão do quinto andar, enquanto Aurora, hesitante, escolheu o terceiro. Ela lançou um olhar rápido para o relógio e suspirou, sentindo a ansiedade da audiência se aproximar.
Quando as portas se abriram no terceiro andar, Aurora sorriu suavemente para Lian.
— Boa sorte, Dra. Deneuve — disse ele, a voz firme, mas com um toque de preocupação.
— Obrigada, senhor. Obrigada por tudo. Até mais — respondeu Aurora, caminhando em direção à saída.
Lian apenas assentiu. As portas do elevador se fecharam, e a imagem de Aurora desapareceu da sua vista. Respirou fundo, tentando acalmar a inquietação que ainda percorria o seu corpo. Tinha algumas horas até a audiência que iria conduzir, e cada segundo parecia arrastado enquanto processava os acontecimentos recentes.
Com movimentos precisos, Lian apertou o botão do terceiro andar e esperou o elevador descer. Quando as portas se abriram, ele avançou com passos silenciosos, quase imperceptíveis, mantendo-se discreto enquanto se dirigia à sala de audiência onde Sigridi presidia o processo de Aurora.
Lian acomodou-se num canto, a postura relaxada, mas a mente em alerta. Ele a observou. Cada músculo de Aurora estava tenso, cada gesto um esforço para mascarar o nervosismo contido. Do outro lado da sala, Lucca Sedrini se movia com a arrogância de quem acredita no controle absoluto, cada passo e cada olhar calculados para intimidar. Mas Lian sabia a verdade, ele lia a cena como um mapa.
Lucca jamais poderia vencer Aurora no tribunal, por isso tentou e.s.t.u.p.r.á-l.a. Uma estratégia para fragilizá-la, e ele conseguiu. A raiva borbulhou no estômago de Lian. O d.e.s.g.r.a.ç.a.d.o tinha tido sucesso. E, embora a ausência da cliente não tivesse relação direta com ele, ela se tornou a cereja do bolo, desestabilizando Aurora por completo.