"Sob o Olhar do Predador"

1758 Palavras
Lian fechou o notebook com um baque surdo que reverberou pelo escritório silencioso, cada eco refletindo a frieza que agora dominava cada fibra do seu corpo. Os seus olhos brilhavam com uma raiva contida, cada músculo rígido, respirando de forma calculada — a calma letal de quem sempre avalia o próximo movimento antes de agir. Já decidido, levantou-se com firmeza e caminhou para fora do escritório. Um arrepio percorreu a sua espinha, como se a própria noite tivesse p.e.n.e.t.r.a.d.o na sua alma. Inspirou fundo, sentindo o ar pesado arranhar os pulmões, e soltou um suspiro longo, quase sombrio. Cada passo pelo corredor parecia ecoar mais alto do que deveria, o piso gelado denunciando o peso da sua decisão. No quarto, deitou-se sem aliviar a rigidez do corpo, os músculos tensos como cordas prestes a romper. O sono não vinha; a sua mente girava num turbilhão de estratégias e cenários, afiando cada detalhe como lâminas em silêncio. Só quando o cansaço o venceu, lentamente, os olhos fecharam-se — mas mesmo na escuridão, a inquietação permanecia queimando por dentro. O celular despertou às 08:00. Lian desligou o alarme com um gesto preciso e deixou o olhar repousar sobre Diana, adormecida ao seu lado. O semblante tranquilo dela suavizou a rigidez da sua expressão, arrancando-lhe um sorriso discreto. Inclinou-se e roçou os lábios na pele dela, num beijo leve, quase reverente, antes de se afastar. No banheiro, a água quente deslizou por seu corpo, desfazendo a tensão acumulada nos ombros e nas costas. Escovou os dentes, ajeitou o cabelo com naturalidade e aplicou o desodorante — notas amadeiradas e aromáticas, firmes e elegantes, refletindo a sua essência de homem controlado e sofisticado. De volta ao quarto, abriu o closet e percorreu as peças como quem avalia armas antes de uma batalha. A escolha foi precisa: terno azul-escuro de corte impecável, camisa preta e gravata na mesma tonalidade do terno — uma harmonia sóbria que dialogava com a chuva e o céu cinzento lá fora. Um sobretudo preto, meias discretas e sapatos sociais reluzentes completaram a figura de autoridade impecável. Diante da cômoda, a mão de Lian pairou sobre as opções de fragrâncias. Optou pelo Clive Christian No.1, borrifando nos pontos exatos — pescoço e pulsos. A essência rica espalhou-se pelo ar, selando a sua presença como uma assinatura invisível: marcante, luxuosa, impossível de ser ignorada. Virando-se em direção à cama, encontrou Diana desperta, os olhos curiosos acompanhando cada gesto seu. Ela se levantou lentamente, sentando-se, os lençóis escorrendo por seus ombros. Lian aproximou-se sem pressa, e ela o recebeu com um abraço apertado. — Eu vi um shopping aqui perto, acho que vou aproveitar para comprar algumas coisinhas para o nosso Gael — disse ela, com um sorriso tímido e um brilho especial no olhar. — Vai, sim, meu amor — respondeu Lian, com a voz baixa e carinhosa. — Só se cuida, por favor… A chuva está intensa. Ela assentiu, sorrindo suavemente. — Eu te amo, Lian. — E eu te amo além de tudo o que posso sentir — murmurou ele, com intensidade, fazendo-a suspirar. Ela pressionou os lábios nos dele num beijo demorado, carregado de carinho e despedida. Quando se afastou, sussurrou: — Até mais tarde. — Até, meu amor — disse ele, sem desviar os olhos dela, como se cada segundo fosse um tesouro. Lian deixou o quarto e desceu com passos firmes. A mesa de café estava farta, com frutas, pães e bolos ainda quentes, mas ele se limitou a uma xícara de café preto, forte, sem açúcar. Levantou-se logo em seguida, despedindo-se de Klaus com um sorriso breve. Do lado de fora, a chuva caía em silêncio pesado. Lian permaneceu sob a marquise da mansão, a primeira do condomínio, próxima à saída principal. A alameda interna, úmida e deserta, refletia a luz difusa dos postes, projetando sombras que se moviam lentamente com o vento. Enquanto esperava o veículo, notou Phill atravessando a alameda, conduzindo o carro de Aurora. O homem ergueu a mão num aceno contido; Lian respondeu com um gesto igualmente discreto. O vidro escuro do veículo ocultava Aurora, preservando a sua privacidade. Por um instante, os pensamentos de Lian perderam-se na voz de Diana, ecoando na mente, até serem interrompidos pelo rugido do motor do seu carro. Raul desceu, abriu o guarda-chuva e aproximou-se de Lian, cumprimentando-o com um caloroso “bom dia” enquanto o conduzia até o carro, protegendo-o da chuva. Lian entrou com calma, sentindo a porta ser fechada suavemente por Raul. Segundos depois, o segurança assumiu o volante sem pressa. O motor ronronou, e o carro deslizou pela alameda em direção ao tribunal, cada gota de chuva refletindo a tensão silenciosa daquele início de dia. No tribunal, Raul estacionou o carro numa vaga privada. Lian desceu com passos firmes, atento a cada detalhe do ambiente. Caminhou até o elevador, que descia silenciosamente. Quando as portas se abriram, Aurora tropeçou e caiu nos seus braços. A maquiagem borrada, os olhos vermelhos e a marca no rosto denunciavam o ataque que havia sofrido. — Dra. Deneuve… — sussurrou Lian, a voz baixa, carregada de preocupação e firmeza. — Eu... eu preciso sair daqui… — murmurou ela, cambaleando, tentando se soltar. Mas ele segurou-a com delicadeza, oferecendo apoio sem jamais tocar de maneira invasiva. Aurora desviou o olhar e, pelo reflexo, Lian notou outro elevador sendo chamado para o segundo andar, onde advogados costumavam receber clientes. O pânico tomou conta dela; soltou-se dele de repente e saiu apressada, os passos trôpegos, arrastando-se pela parede para não desabar. Sem hesitar, Lian avançou até ela com passos firmes, transmitindo urgência contida, e estendeu a mão com cuidado e respeito. Aurora hesitou por um instante, mas acabou aceitando o apoio, confiando nele por sua integridade e pelo fato de ser casado — um gesto silencioso de proteção mútua e confiança. Com passos precisos, ele a conduziu para trás de um robusto pilar de concreto, criando uma barreira entre eles e o resto do espaço, garantindo proteção momentânea. Lian segurava o braço de Aurora com firmeza, mantendo cada gesto cuidadosamente calibrado. Aurora respirava com dificuldade, o corpo ainda tenso, quando as portas do elevador se abriram. De dentro surgiu o advogado que no dia anterior estivera com Sigridi — mancando, o rosto contraído pela dor, como se cada passo ainda denunciasse os golpes sofridos. Poucos minutos depois, voltou ao elevador e desapareceu, sem sequer perceber a presença de Lian e Aurora. Lian observou Aurora, ainda trêmula, e ao perceber a camisa rasgada e botões estourados, retirou o próprio sobretudo e colocou sobre os ombros dela. — Esse m.a.l.d.i.t.o… — murmurou Lian, a voz baixa e cortante, firme como uma lâmina. Os olhos, escuros e gélidos, ardiam de uma raiva contida, silenciosa, mas devastadora. Ele pousou as mãos nos ombros de Aurora com delicadeza, não para contê-la, mas para oferecer a firmeza de um abrigo em meio ao caos que a despedaçava por dentro. — Você precisa denunciá-lo — disse, cada sílaba firme, impregnada de autoridade e da urgência de quem não admitia silêncio diante da injustiça. Aurora engoliu em seco, a garganta apertada, os soluços misturando-se às palavras que m*l conseguiam sair: — Eu… eu já tentei… — sussurrou, os olhos turvos de lágrimas, a respiração trêmula e descompassada —, mas como? Ele tem poder demais… e a Sigridi… ela nunca deixa de protegê-lo. Lian respirou fundo, o ar pesado queimando nos pulmões, a frustração pulsando em cada veia como fogo contido. — Nenhum deles tem o direito de te intimidar — murmurou, a voz baixa, quase um sussurro áspero. — Eu vou garantir que nada encoste em você. Mas precisa reagir, Aurora… precisa agir... Antes que pudesse responder, o celular dela tocou dentro da bolsa, ecoando pelo estacionamento e fazendo-a pular de susto. Ela rapidamente atendeu; do outro lado estava Álvaro. — Oi, Álvaro… — disse, a voz firme, mas carregada de tensão. — Eu sei… obrigada por se preocupar. Mas esses documentos… hoje não vou precisar deles. Por favor, peça ao Phill para trazer outra camisa… e um sobretudo para mim. Sim… está tudo bem. Não… não estou chorando… — respirou fundo, cada palavra custando esforço — não estou chorando, de verdade. Obrigada, Álvaro. As lágrimas ameaçavam escapar, mas ela as conteve com força, negando qualquer sinal de fraqueza. Não queria preocupar Álvaro, nem mostrar vulnerabilidade diante de Lian. Cada respiração era um esforço consciente para se manter firme. Quando desligou, o celular tocou novamente. — Senhora Jane? — disse a voz do outro lado. — Sim… já cheguei ao tribunal. O quê? Não vem? Entendi… farei o meu melhor. Aurora suspirou, sentindo o peso do pensamento apertar o peito. Lian permaneceu ao lado, observando cada gesto, cada sombra de emoção no seu rosto. — Minha cliente está doente e não poderá comparecer — disse Aurora, apoiando-se levemente no pilar, a voz trêmula, mas firme. — Não há tempo para adiar a audiência, e, para piorar, a juíza é a Sigridi. — Eu sinto muito… se pudesse ir no lugar da juíza Sigridi, eu iria… faria tudo para ajudá-la. — Fez uma breve pausa, desviando os olhos, como se o peso da impossibilidade apertasse o seu peito. — Mas, infelizmente, não é possível. Aurora ergueu o olhar, prendendo o dele. — Está tudo bem… o senhor já me ajudou muito — disse, gratidão misturada com tensão visível em cada gesto. — Obrigada! — acrescentou, suspirando levemente ao relaxar os ombros. — Imagina! Não fiz nada de mais. — Ele mudou de assunto, a voz baixa e cortante, gélida como aço, mas ainda carregada de uma preocupação contida. — Pelo jeito, ele já te persegue há algum tempo, certo? — Sim… e certamente não será a última — suspirou Aurora, a derrota e o medo refletidos nos olhos, a mão tremendo levemente sobre a bolsa. — Que seja a última vez. Da próxima, não haverá piedade. Se ele encostar em você de novo, a punição será pessoal… muito pessoal. Não vou apenas quebrar os dedos dele. Vou arrancar a única coisa que o faz se sentir um homem, a própria fonte do seu orgulho, com uma navalha de barbear afiada. Ele vai implorar, gritar… e eu saborearei cada segundo da sua dor. Aurora recuou, mas o pilar a manteve firme, ela ergueu os olhos, assustada, e encontrou os de Lian — gélidos, implacáveis, como os de um predador prestes a atacar. Um arrepio percorreu a sua espinha, e ela estremeceu, congelada no silêncio denso, pesado, que parecia apertar cada centímetro do ar entre eles.
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