"O Peso Silencioso da Noite"

1770 Palavras
O ar noturno, pesado e úmido, envolvia Diana e Lian como um manto silencioso. Mas não era a paz que trazia o silêncio; era uma quietude carregada, quase palpável, que pressionava o peito dela. Cada passo de Diana no cascalho parecia ecoar na própria pele, vibrando com a frustração que ela tentava esconder. Lian percebeu tudo: o ombro rígido, o leve tremor das mãos, o suspiro contido que escapava por entre os dentes cerrados. Sem dizer uma palavra, aproximou-se, envolvendo-a suavemente. A mão dela encontrou a dele, encaixando-se como se sempre tivesse pertencido ali. Ela ergueu os olhos, e naquele olhar havia uma mistura de ternura, dor e súplica silenciosa. — Me perdoa... Não era minha intenção te irritar, mas ver o que aconteceu com ela, aquela tristeza no olhar dela... Senti que precisava fazer algo. O meu coração apertou, sabe? Ela parece tão doce e vulnerável... E eu não pude simplesmente ignorar a dor dela. — Diana suspirou, a voz carregada de peso. Lian a envolveu num abraço firme, mas delicado, deixando que o corpo dela se rendesse por completo. Beijou o topo da cabeça dela, inalando o aroma de frutas vermelhas misturado ao frio da noite — um cheiro que era, ao mesmo tempo, conforto, refúgio e o doce perfume do shampoo que ele tanto amava. — Amor, está tudo bem — ele suspirou, encostando a testa levemente na dela. — Eu sei… a Doutora Deneuve parece ser uma boa pessoa, mas não podemos nos envolver, não agora. O Gael está quase chegando, e tudo o que importa para mim é a sua saúde e a do nosso filho. Eu não vou colocar vocês em perigo, entende? O nosso foco precisa ser totalmente no nosso menino… e em você, no seu pós-parto. Diana assentiu. Com um beijo lento e profundo, eles selaram o pacto silencioso de que, apesar do caos do mundo, eles eram um só, um refúgio. Quando ele a soltou, a dor nos pés a trouxe de volta ao presente, como um sussurro doloroso que a lembrava da fragilidade do seu corpo. — Os meus pés… — suspirou, derrotada. — Podemos voltar para a mansão? Acho que já vi o suficiente hoje. Ainda assim, a beleza ao redor não a deixava indiferente. Um sorriso cansado, frágil, mas genuíno, iluminou o seu rosto. — Mas… — a voz suavizou, quase se dissolvendo na brisa da noite. — É lindo demais, Lian. Tão lindo que poderíamos voltar amanhã para ver o resto. Ele a observou, atento a cada nuance daquele sorriso, cada curva dos lábios que se abriam timidamente. — Claro, meu amor — disse, com suavidade quase reverente. — Voltaremos quando você quiser. Agora vamos para a mansão, eu te carrego. Antes que pudesse protestar, Lian a ergueu nos braços. Diana riu, surpresa, braços entrelaçados no pescoço dele. O vestido esvoaçava ao vento, e o cascalho sob os seus passos era a única trilha sonora. No abraço, ela se sentiu completamente segura, cada tensão se dissolvendo. O brilho dourado da mansão acolheu-os e, ao fecharem a porta pesada, o calor do lar os envolveu. Lian a colocou no chão, e o único som era o crepitar aconchegante da lareira, quebrando o silêncio. Um aroma delicioso, uma promessa de conforto e satisfação, os guiou até a sala de jantar. A mesa estava impecável, com o brilho da prata, a transparência do cristal e a delicadeza da porcelana. No centro, o banquete esperava: um folhado de pato dourado, arroz com açafrão, e o prato principal, um filé mignon suculento, cercado por batatas gratinadas e um toque aromático de alecrim. O estômago de Diana reclamou em alto e bom som e o seu corpo inteiro se rendeu ao p.r.a.z.e.r antecipado. — Isso tudo… parece maravilhoso — murmurou, sorrindo para Lian, os olhos brilhando entre a fome e a alegria. — Vamos lavar as mãos! M.a.l posso esperar para experimentar cada coisa. Ele sorriu, sentindo o calor dela irradiar como luz. Juntos, correram para o banheiro, rindo baixinho, o som suave da suas vozes ecoando pelas paredes. Enquanto se afastavam, Klaus os observava de longe, um sorriso discreto nos lábios. Nenhuma palavra era necessária; a espontaneidade de Diana, como se permitia ser vulnerável, dizia tudo por si mesma. De volta à sala de jantar, Lian puxou gentilmente a cadeira para Diana, olhando para ela com um sorriso que misturava carinho e atenção. — Sente-se, meu amor — disse, e ela se acomodou, sentindo o conforto do assento e a presença protetora dele ao lado. Ele serviu o prato dela com cuidado, cada gesto carregado de atenção, certificando-se de que tudo estivesse impecável. Quando terminou, Lian se serviu, escolhendo um pouco de cada prato. Sentaram-se frente a frente, trocando olhares frequentes e sorrisos silenciosos, compartilhando a alegria tranquila daquele momento. A primeira garfada de Diana trouxe um sorriso de puro deleite, quase infantil. — Uau… — murmurou, os olhos brilhando. — Está simplesmente incrível! Lian provou em seguida, não conseguindo esconder o sorriso satisfeito. — Você não está exagerando — disse, olhando para ela. — Cada sabor está perfeito, equilibrado… maravilhoso. Entre garfadas, risos suaves escapavam, acompanhados de pequenos comentários sobre o tempero, a textura e a apresentação de cada prato. Por alguns minutos, o mundo lá fora parecia ter desaparecido. Quando Diana se inclinou para pegar mais arroz, Lian, de forma protetora, pousou a mão sobre a dela, segurando-a com um sorriso cúmplice. — Espera, deixa eu te servir — disse, sorrindo. — Quero cuidar de você até nos mínimos detalhes. — Ela riu, satisfeita, sentindo-se cuidada, amada e completamente à vontade. Após o jantar, o Chefe Marcel aproximou-se com a sobremesa: um bolo de três camadas, decorado com frutas frescas e delicadas flores comestíveis. O aroma de chocolate amargo e caramelo preenchia a sala, convidativo e reconfortante. Lian olhou para o chefe, percebendo a dedicação e o esmero em cada detalhe. — Chefe Marcel — disse, com a voz calma e carregada de sinceridade — tudo estava absolutamente maravilhoso. É possível sentir o cuidado de vocês em cada detalhe. Parabéns a você e à equipe... O chefe arregalou os olhos, surpreso, como se tivesse sido atingido por algo inesperado. Acostumado a servir em silêncio, sem reconhecimento ou elogios, jamais imaginara ouvir palavras de apreço tão sinceras. Um sorriso tímido surgiu, misturado com incredulidade, e ele desviou o olhar por um instante, tentando se recompor. — M-muito obrigado, senhor… — gaguejou, a voz vacilante, mas carregada de emoção. — É… raro ouvir isso… e… é um p.r.a.z.e.r servi-los. A cozinheira ao lado observava, sorrindo discretamente, e então, em uníssono, ambos disseram: — Com licença. Lian assentiu com a cabeça, e o chefe e a cozinheira se retiraram. Diana olhou para Lian, e o seu sorriso se aprofundou; a gratidão nos olhos dela dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar. Aquele gesto, pequeno, mas cheio de significado, revelava uma faceta de Lian que o mundo jamais veria. Mas ela… sim. Mais tarde, na suíte, o vapor quente do banheiro envolvia todo o espaço. Diana soltou um gemido baixo de alívio ao tirar o vestido, e Lian a observou, os olhos demorando-se na curva suave do seu ventre, lembrando-se do que estava por vir. — Vem — sussurrou ela, voz suave, estendendo a mão. Lian despiu-se, e juntos entraram na banheira já cheia, a água morna envolvendo-os, enquanto o vapor dançava ao redor, criando uma atmosfera í.n.t.i.m.a e protetora. Lentamente, ele pegou a bucha e ensaboou o corpo dela com cuidado, cada movimento deliberado e cheio de ternura. Diana inclinou a cabeça para trás, olhos fechados, um sorriso leve se formando nos lábios. A mão dela encontrou a dele, dedos entrelaçados — uma promessa silenciosa de i.n.t.i.m.i.d.a.d.e que ia muito além do físico. Quando terminaram, Lian colocou um roupão e envolveu Diana numa toalha felpuda, secando-a com cuidado e ternura. Ela passou desodorante, com suaves notas de bergamota, flor de laranjeira e um toque delicado de sândalo, e depois sentou-se sobre a tampa do vaso. O aroma suave do sabonete de jasmim misturava-se às nuances sofisticadas do desodorante, intensificando a sensação de relaxamento a cada movimento. Ele foi até o armário do banheiro, pegou um hidratante e colocou um pouco nas mãos, começando a massagear os pés e as pernas dela com movimentos delicados, enquanto um leve aroma de camomila preenchia o ar. Diana suspirou, o alívio evidente em cada gesto; a dor agora era apenas uma lembrança distante. Depois, Lian secou-se, aplicou desodorante com notas de cedro, âmbar e um leve toque de vetiver, e ambos escovaram os dentes. Saíram do banheiro lado a lado, ainda envolvidos na i.n.t.i.m.i.d.a.d.e e no cuidado mútuo que tornava aquele momento simples profundamente reconfortante. Com pijamas macios, deitaram-se, o calor dos seus corpos se misturando ao frio da noite. Diana adormeceu rapidamente, a cabeça repousando sobre o peito de Lian, o corpo leve como uma pluma. Ele permaneceu imóvel, os olhos fixos nela, observando a respiração tranquila, os cabelos deslizando suavemente pelo travesseiro, o contorno delicado dos lábios entreabertos. Cada detalhe parecia gravado na sua memória. Mas a mente de Lian permanecia inquieta. A imagem de Diana implorando por Aurora se repetia, assim como o sorriso humano da advogada enquanto conversava com seu cliente do lado de fora, naquela manhã. Ele lembrava-se de como ela se defendeu instintivamente de Damien, cada gesto revelando força e vulnerabilidade ao mesmo tempo. Ele e Pierre eram os únicos a testemunhar aquilo — e Lian sentia o peso da responsabilidade de protegê-la. Mas a que custo? Lentamente, levantou-se, esforçando-se para não acordá-la, e dirigiu-se ao escritório. O piso gelado sob seus pés denunciava cada passo, mas ele prosseguiu com cuidado. O ambiente era rústico e elegante, silencioso, quase reverente na penumbra. Pilhas de papéis organizadas em desalinho, canetas espalhadas e o teclado do notebook brilhando sob a luz azul solitária da luminária compunham a cena. A cadeira de couro rangeu suavemente quando ele se acomodou, e seus dedos voaram pelo teclado, digitando: "juiz Bastien Fournier". Uma enxurrada de informações inundou a tela: fotos, elogios, artigos. Bastien Fournier surgia como um homem bonito, impecavelmente vestido, com traços fortes e um sorriso que prometia o mundo — mas as fotos, especialmente aquelas ao lado de mulheres, contavam outra história. Aquele sorriso largo escondia arrogância e presunção, nuances que Lian reconhecia imediatamente, graças aos seus sentidos apurados. Ele suspirou, pesado, sentindo o peso da decisão que se aproximava, consciente de que cada escolha carregaria consequências. — Então é você quem machucou a Doutora Deneuve? — murmurou, a voz baixa, cortante, os dedos apertando a borda da mesa como se quisessem esmagá-la.
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