"O Sussurro no Lago"

1603 Palavras
Diana caminhava sozinha pelo começo da noite no condomínio, buscando alívio da tensão sufocante que sentia. A noite fria trazia o aroma de jasmim e terra molhada, enquanto o barulho do cascalho sob os seus sapatos ecoava o ritmo inquieto dos seus pensamentos. Ela se dirigia ao grande lago, seu refúgio, para encontrar distância e esquecer o peso de Lian e de si mesma. Enquanto as luzes das casas do condomínio piscavam ao longe, ela caminhava pelos jardins impecáveis. Ao chegar, a paisagem parecia se transformar. O aroma da grama recém-cortada misturava-se ao frescor úmido do entardecer. A lua despontava no horizonte, refletindo-se na superfície serena do lago — até que uma brisa suave rompeu o espelho d’água, desfazendo a imagem em delicadas ondulações. Foi neste momento que Diana notou uma figura solitária sentada na beira do tablado de madeira. A mulher, com longos cabelos n.e.g.r.o.s cobrindo parte do rosto, segurava uma taça de vinho, cujo vidro aprisionava o brilho da lua. O corpo da mulher estava curvado para a frente, e os ombros tremiam em espasmos leves, contidos. Não era um choro de desespero, nem de histeria, mas algo mais íntimo... quase sagrado. Diana permaneceu imóvel, sentindo-se uma intrusa num momento que claramente não lhe pertencia. A mulher, então, ergueu a taça num brinde silencioso ao vazio e, com a voz embargada, rompeu a quietude ao seu redor. — Pai… Mãe… hoje foi um bom dia. — Uma risada trêmula e breve escapou da sua garganta. — Consegui! Venci a causa. O senhor Pierre conseguiu uma boa quantia daqueles mentirosos do Damien e do advogado dele. O juiz… é novo, mas excelente, sabe? A voz sumiu, e o silêncio pesado retornou. Apenas o sussurro do vento entre as folhas, tão baixo que Diana quase acreditou que o mundo inteiro estava se inclinando para ouvir também. — Ah… o Damien tentou me atacar, mas eu me defendi. — Ela respirou fundo, como se a lembrança ainda fosse uma dor física. — Sabe… aquelas aulas de defesa pessoal que fiz para me proteger daquele i.m.b.e.c.i.l do Bastien Fournier? Valeu a pena. Nunca contei isso a vocês, não queria que ficassem preocupados. Mas, no fim… — a voz dela se quebrou, e um silêncio pesado caiu. — Não houve tempo. Os dedos da mulher apertaram a haste da taça, e, num gesto hesitante, ela levou-a aos lábios e bebeu um gole do líquido. — Tenho certeza… pai… que se estivesse vivo, teria acabado com ele. Um soluço mais forte escapou, e o corpo dela se curvou ainda mais, a cabeça pendendo. O timbre da voz mudou, tornando-se um sussurro ferido, quase um gemido: — Bastien… Ele me espancou… e depois me jogou escada abaixo. Fiquei em coma por meses. Por um milagre, sobrevivi. Eu menti quando disse que estava em Zurique fazendo um curso. Na verdade… estou escondida. Ainda sou casada com ele, e o mesmo se recusa a assinar o divórcio. Meus advogados estão lutando… mas, se ele me encontrar, sei que não sairei viva. O Álvaro… ele está cuidando de mim, arriscando-se por minha causa. — Uma pausa longa e pesada. — Me perdoem por não ter contado a verdade… eu sinto tanto a falta de vocês. Um soluço rompeu na sua garganta, e o corpo dela tremeu, uma onda de dor que a fez soltar a taça de vinho. O cristal escorregou do tablado e se perdeu nas águas escuras do lago, emitindo um som baixo e abafado. Ela, então, escondeu o rosto nas mãos, e desabou. Um nó formou-se no estômago de Diana, e a brisa da noite pareceu gelar, carregada pela dor invisível de Aurora. Ela deu um passo para trás, tentando se fundir com as sombras, mas o destino, com sua habitual ironia, conspirou contra o seu recuo: o estalo seco e agudo de um galho sob a sola do seu sapato rasgou o silêncio como um tiro. A mulher virou-se num movimento brusco. Os seus olhos azuis, agora arregalados e intensos, varreram a escuridão e encontraram Diana, fixando-se nela como se avaliassem uma ameaça iminente. O coração de Diana disparou, e num gesto instintivo de rendição silenciosa, ergueu as mãos, palmas para frente, num pedido mudo de desculpas. — Eu… não queria… — Diana começou, a voz travando na garganta, mas a mulher a cortou com um gesto suave. Aurora balançou a cabeça lentamente, o rosto ainda manchado de um vermelho vivo, e sua voz, um sussurro frágil, pediu a Diana que esquecesse o que tinha visto e, principalmente, o que tinha ouvido. Nesse instante, uma voz conhecida rasgou o ar da noite: — Diana? Lian surgiu da penumbra, e antes que ela pudesse reagir, a envolveu num abraço rápido. O calor de seu corpo era um contraste gritante com a frieza que Diana sentia por dentro. Quando os olhos dele finalmente saíram dela e encontraram a mulher no píer, a surpresa no seu rosto era tão genuína que era quase palpável. — Doutora Deneuve… — Boa noite, senhor juiz. — O sorriso dela foi breve, polido, mas havia algo no seu olhar que não se dissipava. A cortesia na sua voz era um verniz fino que m.a.l escondia a tensão. Diana alternou o olhar entre os dois, confusa. — Vocês se conhecem? Lian a puxou para perto com um sorriso largo. — Sim! Fui o juiz do caso que a Doutora Deneuve ganhou com louvor, hoje. Aurora assentiu, um breve brilho nos olhos. — Sim. Ele proferiu a sentença final que salvou meu cliente. — Ela olhou de Diana para Lian, um sorriso leve se formando no seu rosto. — Então quer dizer que somos vizinhos? — Parece que sim. Nos mudamos ontem à noite — Lian respondeu, mantendo o sorriso. Aurora deu um passo à frente. Seus olhos, agora menos tensos, se fixaram na barriga de Diana, e um sorriso sincero se formou no seu rosto. — Sejam muito bem-vindos. É ótimo morar aqui. — O sorriso dela se aprofundou. — E parabéns pelo bebê. O rosto de Diana iluminou-se. — Obrigada, Doutora. — Por favor — Aurora disse, com a voz baixa e gentil —, só me chame de Aurora. Agora preciso ir, tenham uma ótima noite! — Para você também — responderam Lian e Diana em uníssono, as palavras pairando no ar. Diana a acompanhou com o olhar, intrigada. Ela via em Aurora a mesma audácia e a mesma luz de sua amiga Alicia. Mas, por baixo daquele brilho, Diana sentiu algo mais, algo que a outra mulher tentava esconder. Havia rachaduras, uma fragilidade quase imperceptível, mas que Diana, com a sensibilidade aguçada pela gravidez, pôde sentir. — Ela não lembra a Alícia? — Diana murmurou, o olhar ainda preso na mulher que desaparecia na escuridão. Lian parou ao seu lado. — É verdade. Tem o mesmo brilho no olhar… e a mesma coragem. Diana hesitou. Por um momento, o peso do segredo de Aurora pesou na sua língua, mas ela não conseguiu se calar. — Eu ouvi… sem querer… — Ouviu o quê, meu amor? — A voz de Lian tornou-se um murmúrio suave, carregado de preocupação. — Ela estava falando com os pais — a voz de Diana era um sussurro assombrado. — Com os pais que morreram. Ela chorava muito… E então… ela revelou algo, algo que não era para ser ouvido por ninguém. — O que ela disse? — A voz dele era grave e direta. Diana respirou fundo, e as palavras saíram de uma só vez, um fluxo ininterrupto de revelações: a violência de Bastien Fournier, o divórcio que se recusava a sair, o esconderijo em Zurique, e o medo de ser encontrada. Lian fechou os olhos, absorvendo as palavras de Diana, a sombra de preocupação cruzando o seu rosto. — Lian… nós precisamos ajudá-la — Diana insistiu, a voz carregada de urgência. Lian abriu os olhos, um brilho sombrio tomando conta do seu olhar. — Diana… não é da nossa conta. — Não é? — Diana aproximou-se, a voz agora um sussurro tenso. — Ela está sozinha, Lian. E aquele homem… aquele monstro… ele a espancou e a jogou de uma escada. Você aprendeu com Dominic maneiras de lidar com vermes como ele. Encontre-o. Faça-o pagar antes que ele a encontre novamente. Lian sentiu o passado bater à porta, pesado e incômodo. Ele se afastou do toque de Diana, um gesto quase imperceptível. — Diana, pare — a voz dele era um fio de aço, sem espaço para negociação. — Só desta vez, Lian. Por favor. — Não — a palavra saiu fria, um corte no ar. O silêncio que se instalou entre eles foi espesso, quase palpável, como se uma parede de vidro tivesse acabado de se formar. Diana entendeu. Havia tocado em algo perigoso, uma ferida que ela não tinha o direito de abrir. Foi Lian quem o quebrou, a voz voltando a um tom mais controlado. — Vamos continuar o passeio? — perguntou, a frase soando como um pedido de paz. Diana o encarou por um instante, a mágoa e a preocupação ainda visíveis no seu rosto. Mas, lentamente, ela assentiu. — Sim. Seguiram lado a lado, mas a distância invisível entre eles parecia crescer a cada passo. Atrás deles, o lago refletia a lua como um olho que tudo observava. O que nenhum dos dois sabia era que Bastien Fournier, o homem que assombrava o passado de Aurora, não estava tão longe. Um juiz famoso na França, ele estava prestes a desembarcar em Zurique para um evento importante. E, quando isso acontecesse, o perigo deixaria de ser uma memória, transformando-se numa ameaça real.
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