"Um Gosto Amargo de Corrupção"

1809 Palavras
Raul o tirou do t.r.a.n.s.e, entregando-lhe a pasta com os documentos. Ele a pegou de imediato. O peso firme nas mãos, o toque frio e liso do material — tudo aquilo era uma âncora, um lembrete de que a sua realidade disciplinada o esperava. Uma rotina que, até então, ainda lhe servia de refúgio. — Vamos lá… muito trabalho a fazer — murmurou, mais para si do que para qualquer ouvido, como se precisasse reafirmar que a ordem ainda estava no controle. Mesmo com a pasta firme nas mãos, a mente de Lian se recusava a se acalmar. Ela permanecia inquieta, arrastada de volta à conversa com a advogada, às palavras que ecoavam com um tom de urgência e advertência. Ele acelerou o passo pelo hall barulhento do tribunal, cada batida do sapato no piso frio ecoando a sua ansiedade por silêncio. Ele ansiava pelo corredor que levava ao seu gabinete, um lugar que, naquele seu primeiro dia, já havia se tornado um refúgio de paredes neutras e portas fechadas, onde o caos do mundo parecia se dissolver, mas não naquele dia. Um barulho chamou a sua atenção, e ele parou abruptamente, o corpo inteiro rígido. A porta do gabinete à frente, normalmente fechada e imponente, estava entreaberta. De lá, escapava um som abafado, impossível de ignorar: um gemido baixo, seguido por uma respiração pesada. Lian avançou alguns passos, quase contra a própria vontade, puxado por uma curiosidade doentia. A visão o atingiu como um soco no estômago, arrancando o ar que ainda restava dos seus pulmões. Um homem e uma mulher se devoravam num beijo lascivo, um choque úmido de lábios e dentes. As bocas estavam escancaradas, línguas dançando num frenesi possessivo, enquanto as mãos ávidas percorriam os corpos com uma urgência animalesca. A mão dele, já ousada e familiar, esgueirava-se sob a bainha do tecido da saia, arregaçando-o para expor a pele pálida e macia das coxas num abandono o.b.s.c.e.n.o, quase violento. A outra mão, cravada na nuca dela, apertava os fios de cabelo com a força de quem reivindica um território, um domínio carnal. O ar do corredor, até então neutro, pareceu se adensar, carregado pelo odor de e.x.c.i.t.a.ç.ã.o, que nauseava Lian. O asco foi imediato. Aquilo não era desejo, não tinha nada da pureza ou do calor de uma paixão, era um negócio frio, uma t.r.a.n.s.a.ç.ã.o sórdida, selada com saliva e toques calculados. A cena inteira era um contrato visual, um acordo de cumplicidade e poder. E, enquanto o nojo subia por sua garganta, a voz de Aurora ecoou na sua mente como uma sentença: ela, a mulher no gabinete, só poderia ser a juíza envolvida com Damien. A ficha caiu com um peso brutal, e a realidade se tornou mais suja do que ele jamais imaginara. O beijo cessou, o homem recuou, o sorriso de vitória estampado no rosto. — Conto com você para inocentar o meu cliente hoje. Se fizer isso… a noite vou te fazer g.o.z.a.r tanto que não vai pensar em mais nada. — A voz carregava a confiança arrogante de quem já havia provado o que queria. A mulher soltou um gemido baixo. — Vou fazer o impossível para que ele se livre dessa acusação. — Os olhos dela queimavam fixos nos dele. — Agora, faça a sua parte. Livre-se da sua namoradinha, porque essa noite… é só nossa. Ele assentiu, deu-lhe mais um beijo breve e, ajeitando a gravata e a camisa com a calma de quem acabou de selar um acordo vantajoso, caminhou para a porta, o sorriso de vitória no rosto do homem foi o gatilho. Por puro instinto, Lian deu um passo para trás e se esgueirou para dentro do próprio gabinete. Fechou a porta devagar, com cuidado para não fazer nenhum som. Sentou-se, as mãos apoiadas na mesa, sentindo o coração acelerar. O seu santuário de ordem e justiça estava contaminado. Uma raiva densa crescia, misturada a nojo e a um tipo de decepção que corroía por dentro. Que audácia. Que insulto à justiça. Ele já sabia que a corrupção existia, mas vê-la tão descarada, tornava tudo mais insuportável. Horas depois, a luz da tarde atravessava a janela quando a porta se abriu sem aviso. Ela, entrou como se fosse dona do lugar — saltos batendo no assoalho como um aviso de guerra, a camisa social desabotoada de forma provocante, o batom vermelho carregando a insolência no próprio tom. Fechou a porta com um chute leve, os olhos cravados nos dele. — Me chamo Sigrid Leyz, sou juíza aqui também. — A voz era baixa, carregada de intenção. — E, Juiz Lian… vim descobrir se você é tudo isso que as mulheres andam comentando por aí. — O sorriso era malicioso. Ele manteve a postura, o rosto impassível. Continuou guardando documentos na pasta como se ela não existisse. — Não me interessam os boatos. — A voz dele era calma, mas cortante. — Agora, se me der licença, já estou de saída. Lian fechou a pasta, levantou-se e passou por ela sem olhá-la. O sorriso de Sigrid se desfez, e um lampejo de raiva cruzou seus olhos. Ao sair, ele deixou claro que não havia espaço para ela ali. No elevador, finalmente soltou o ar preso. Ao chegar ao estacionamento, o motorista o aguardava. — Que mulherzinha nojenta… — murmurou, baixo e com um nojo que não precisava de explicações. No estacionamento do tribunal, Raul, que já o aguardava, abriu a porta. Lian entrou, e o carro partiu, levando consigo não apenas um juiz, mas um homem que acabara de testemunhar a podridão de perto. No silêncio tenso do banco de trás, o mundo exterior passava como um borrão. A imagem de Sigrid, com sua vulgaridade e olhos famintos, continuava a assombrá-lo. Era como se cada detalhe da cena estivesse gravado na sua mente: o beijo, o acordo, a maneira repugnante como o advogado e a juíza falavam de pessoas, de vidas, de audiências, como se tudo fosse apenas peças num jogo sujo de poder. A fúria no seu p.e.i.t.o, antes quente e descontrolada, agora se transformou numa raiva fria e densa. Um pensamento claro e inegociável tomou conta da sua mente: ele não era apenas um juiz. Ele era Lian e ele não descansaria até que cada pedaço daquela podridão viesse à tona e a justiça fosse feita. O carro deslizou silenciosamente até a entrada da casa. A luz morna que vinha das janelas contrastava com o frio do entardecer — um abrigo acolhedor após a dureza do dia. Raul abriu a porta e, ao pisar no cascalho, o som firme dos sapatos foi o primeiro sinal de que finalmente estava de volta ao lugar que tanto desejava. A porta abriu-se antes que ele pudesse sequer tocar a maçaneta. Diana estava ali, a luz dourada da casa a emoldurar o seu sorriso, um farol de calma em meio à tempestade que ele carregava. — Pensei que não vinha mais — ela disse, mas seu sorriso se desfez e uma sombra de preocupação cruzou os seus olhos quando ela notou a rigidez na postura dele. — O que houve, meu amor? Você está tenso. Lian engoliu em seco, aquele era o momento. Ele podia mentir, dar uma desculpa vaga sobre a papelada, mas a honestidade era o alicerce da sua relação. — Sente-se comigo — ele disse, a voz mais rouca do que ele gostaria. Ela o seguiu até a sala de estar, a preocupação no seu rosto cada vez mais evidente. Ela sentou-se numa poltrona, as mãos aninhadas no colo. Lian sentou-se à sua frente, a pasta de documentos ainda nas suas mãos, um escudo entre ele e a mulher que amava. — Eu vi algo hoje, Diana — ele começou, a voz baixa, buscando as palavras certas. — É o meu primeiro dia, mas já vi que o nosso trabalho... as pessoas com quem trabalhamos... são muito diferentes do que eu imaginava. A expressão de Diana tornou-se sombria. — O que você quer dizer, Lian? — ela sussurrou, a voz carregada de uma confusão genuína. — Eu te vi sair hoje com tanta convicção. O que pode ter mudado num único dia? Lian engoliu em seco, o ar parecia ter se adensado na sala também. Ele segurou as mãos de Diana e a forçou a encará-lo, a voz baixa, quase um sussurro rouco. — Eu vi a podridão — ele começou, a palavra "podridão" parecia amarga na sua boca. — E não foi num arquivo, Diana. Foi na sala à frente do meu gabinete. A porta estava entreaberta e... eu vi uma juíza e um advogado se beijando. Não era um beijo de paixão. Era um beijo de negócio, de t.r.a.n.sação. Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos dela, como se a imagem estivesse se projetando para ela através do seu olhar. — Eu ouvi a conversa — continuou, a voz agora mais firme, misturada com nojo. — Ele disse: "Se fizer isso… a noite vou te fazer g.o.z.a.r tanto que não vai pensar em mais nada." E ela… ela prometeu que faria o impossível para que ele se livrasse da acusação. Diana ofegou, a mão dela apertando a dele. — O nome dela é Sigrid Leyz. Ela é juíza, e ele… — Lian hesitou por um segundo, a raiva voltando com força. — Ele parecia confiante, um ser arrogante. Para eles, a justiça não é uma lei, é um jogo sujo onde pessoas e audiências são meros objetos para serem manipulados. — Isso é… doentio — ela murmurou, a voz quase inaudível, mas seus olhos, fixos nos dele, mostravam uma determinação inabalável. — Mas eu sei o homem que você é. Eu sei que lá dentro, você fará a coisa certa, e eu estarei do seu lado, para sempre. Eu prometo! A promessa de Diana foi o porto seguro que Lian precisava. O olhar dela, agora livre de confusão e cheio de uma determinação inabalável, acalmou a tempestade no seu peito. — Eu vou dar uma volta. Quero conhecer o lago do condomínio — ela disse, e, após uma breve pausa, o convite foi mais uma oferta de paz do que um pedido: — Quer se juntar a mim? Lian hesitou por um segundo, ele sentia o desejo de ir, de afastar a sujeira do dia com a presença de Diana. Mas o trabalho que Sigrid havia interrompido de forma tão grotesca ainda estava inacabado. — Vá na frente, meu amor — ele respondeu, a voz rouca. — Eu preciso finalizar umas coisas para a audiência de amanhã. Diana assentiu, o sorriso no seu rosto era compreensível. Ela se levantou, inclinou-se sobre ele e deu-lhe um beijo terno e demorado. — Não demore muito — ela murmurou, antes de se afastar. Pela janela, viu Diana caminhando em direção ao lago. Sorriu, mas a paz dela só reforçou a tempestade dentro dele.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR