"O Segredo de Aurora"

1768 Palavras
Lian fez um leve aceno de cabeça, concedendo a autorização. O oficial prontamente conectou o pen drive ao sistema, e, à medida que as luzes da sala se apagaram, o silêncio tomou conta do ambiente. O advogado posicionou-se ao lado do telão, o rosto iluminado pelo brilho frio da projeção. — Aqui está, senhor juiz — anunciou, com voz segura, apontando para a tela. O vídeo começou a rodar. Nas imagens manipuladas, o carro parecia avançar em direção ao jovem, como se ele tivesse sido atropelado de forma inesperada. Na realidade, porém, o rapaz se jogara de propósito diante do veículo, criando a ilusão de um acidente c.r.u.e.l e tentando culpar o motorista por um ato que ele mesmo provocara. A cena, cuidadosamente editada, distorcia os fatos para enganar quem assistisse. Na sua mesa, Aurora respirou fundo e pousou de leve a mão no ombro do seu cliente. O idoso tremia de indignação, visivelmente abalado pelo espetáculo. É tudo uma farsa, a sua mente gritava, enquanto repetia para si mesma que a calúnia é a arma dos fracos. Após o advogado de Damien encenar o seu espetáculo, o juiz concedeu a palavra a Aurora para que apresentasse a defesa de seu cliente. — Bom dia a todos, bom dia, Excelência. — a sua voz era firme, clara, captando imediatamente a atenção da sala. — Senhor juiz, o jovem Damien, pagou uma quantia considerável ao dono do mercado para adulterar as gravações. No entanto, o próprio proprietário, tomado pelo remorso, decidiu me procurar e se propôs a depor. — explicou Aurora, com firmeza e calma. Aurora respirou fundo e continuou: — Se o senhor permite, Excelência, a testemunha já está presente e pode esclarecer a verdade. Lian assentiu, com um gesto discreto: — Está autorizada, senhorita Aurora. Logo, o senhor Humberto, dono do mercado, entrou acompanhado de dois policiais, caminhando com expressão séria e apreensiva. Todos na sala acompanharam cada passo seu, atentos à sua postura. Assim que se posicionou, foi feito o seu compromisso solene perante a corte, garantindo a veracidade do seu depoimento. Aurora se aproximou com calma e profissionalismo, fazendo algumas perguntas precisas: — Senhor Humberto, poderia nos contar como recebeu o pedido do senhor Damien e o que foi feito em seguida? — perguntou Aurora, com a voz firme e olhar atento, buscando cada detalhe. Humberto engoliu em seco, visivelmente desconfortável, e desviou o olhar por um instante. Foi então que Damien, tentando impor pressão, disse com um sorriso forçado e um tom intimidador: — Vamos, Humberto… diga a eles a versão certa. Lian bateu o martelo com firmeza, cortando o clima de intimidação imediatamente: — Senhor advogado, controle o seu cliente! — ordenou, a voz calma, mas carregada de autoridade. O advogado de Damien, desesperado, abriu a boca, mas não conseguiu falar nada. Damien, percebendo que estava sem apoio, finalmente se aquietou, murmurando entre dentes. Humberto respirou fundo, seu rosto marcado pela tensão, e então começou a falar com sinceridade, sua voz tremendo levemente: — Eu… eu só fiz aquilo porque o mercado está indo m.a.l. Estamos com dívidas enormes… não sabia mais o que fazer. Quando o senhor Damien me procurou e me ofereceu dinheiro, achei que seria uma solução rápida. — Ele baixou a cabeça, envergonhado. — Mas depois percebi que estava errado. Me arrependi profundamente e, assim que pude, devolvi o dinheiro para Damien e decidi procurar a senhorita Aurora. O tribunal inteiro ficou em silêncio, absorvendo a confissão do mercadista. Damien, ainda tentando manter a postura, tremeu levemente, incapaz de disfarçar a frustração ao ver o seu plano desmoronar diante dos olhos de todos. Aurora fez mais algumas perguntas breves, apenas para esclarecer os detalhes: — Então, senhor Humberto, o senhor agiu por necessidade, mas depois tomou a decisão correta de reparar o erro? — Sim, doutora. Foi a única forma de fazer justiça e colocar tudo em ordem. — Humberto respondeu, com um suspiro de alívio e um leve aceno de cabeça, finalmente parecendo em paz. O silêncio da sala era cheio de tensão. Todos compreendiam a gravidade do que acabara de ser revelado: o vídeo manipulador não passava de uma fraude, cuidadosamente planejada por Damien, mas agora desmascarada pela coragem e inteligência de Aurora. Lian, na sua posição de juiz, observava com admiração. Em Aurora, havia algo que ia além da competência — uma combinação rara de intuição e convicção. Após a defesa impecável, Damien estava pálido; o advogado, mudo. Todos os olhares voltaram-se para Lian, que manteve a expressão impassível. A sua voz cortou o ar, fria e precisa: — Em virtude dos crimes de calúnia, falso testemunho e fraude processual, esta corte determina que o Sr. Damien pague ao senhor Pierre uma indenização de cento e oitenta mil francos suíços, equivalentes a um milhão, cento e setenta mil reais. Além disso, o réu cumprirá cinco anos de trabalho comunitário em hospitais e casas de repouso, a fim de compreender o valor da vida e do tempo alheio. Quanto ao senhor Humberto, considerando a sua colaboração com a justiça, não sofrerá punição. Contudo, deixo registrado que não haverá uma segunda oportunidade caso algo semelhante ocorra. Que isso sirva de lição a todos. Com um golpe firme do martelo, Lian finalizou: — Caso encerrado. O impacto do veredito ecoou por toda a sala. Enquanto Humberto agradecia silenciosamente, aliviado e emocionado, Damien, consumido pelo ódio e pela frustração, explodiu: — Isso é um absurdo! O senhor é um juiz corrupto, e essa p.u.t.a de advogada vai me pagar! Aurora manteve-se serena. Um sorriso de escárnio curvou-lhe os lábios enquanto o olhava com desprezo calculado — o suficiente para inflamar ainda mais a fúria dele. Damien avançou sobre ela, mas Lian, com um gesto sutil, acionou os oficiais. Dois homens o contiveram com firmeza, arrastando-o para fora. Os gritos de Damien ecoaram pelo corredor, misturados à vergonha do advogado que o seguia. Antes que a sala se esvaziasse, Aurora e Lian trocaram um olhar. O brilho da aliança dele lembrava que havia entre eles apenas respeito e admiração. Do lado de fora, o senhor Pierre esperava. Quando viu Aurora, um sorriso emocionado iluminou-lhe o rosto. Ele se aproximou com passos trêmulos, estendendo as mãos. — Senhorita, muito obrigado! Eu… não sei como posso agradecer o que a senhorita fez por mim. Aurora sorriu, gentil. — Não há de quê, senhor Pierre. Fiz apenas o meu trabalho. Espero que o senhor e a sua esposa aproveitem bem o dinheiro. — E vamos, sim! — respondeu ele, os olhos marejados. — Vou viajar pelo mundo com a minha esposa! Do alto da escadaria, Lian observava a cena enquanto aguardava o motorista trazer a pasta esquecida no carro. De lá, podia ver os dois lados da mesma história: de um lado, a serenidade da vitória, com Aurora e Pierre sorrindo juntos; do outro, a fúria da derrota, Damien vermelho de raiva, berrando insultos. Quando Aurora gargalhou, Damien, ao ouvir, rugiu de fúria. Cego de ódio, avançou na direção dela. A advogada, concentrada na conversa, parecia distraída, mas sentia cada passo ameaçador se aproximando. Lian, observando a cena de longe, percebeu o perigo. Sem hesitar, desceu correndo a escadaria, pronto para intervir. Mas antes que pudesse alcançá-la, Aurora moveu-se. Com um giro ágil e preciso, esquivou-se do ataque e, num gesto rápido, fez Damien tropeçar. Ele caiu com estrondo, o corpo atingindo o chão com brutalidade, incapaz de reagir imediatamente. Por um instante, o juiz conteve a respiração. O susto logo deu lugar a um sorriso admirado. Aquela mulher o deixava sem palavras. Que mulher era essa? — pensou, a mente inquieta. A voz de um oficial o trouxe de volta. — A senhorita está bem? Ele não a machucou? Aurora respirou fundo, disfarçando a dor latejante no pé. — Estou bem. Apenas o tirem daqui, por favor. O oficial assentiu e, em segundos, Damien foi arrastado. — Sua vaca! Você me paga! — gritou ele, desaparecendo pela praça. Aurora soltou um suspiro cansado, o corpo finalmente relaxando. — A senhorita está bem, doutora? — perguntou o senhor Pierre, ainda chocado. — Estou, sim, obrigada. Mas é melhor o senhor ir, antes que ele volte. — Sorriu, carinhosa. — E cuide bem da sua esposa. Ele segurou as mãos dela com ternura, comovido. — A senhorita é uma mulher admirável. Obrigado, de coração. — E se afastou lentamente, sumindo entre as pessoas. Aurora o acompanhou com o olhar. Quando ele desapareceu, a dor tomou conta de novo. — Ai, meu pé… — murmurou, acreditando estar sozinha. Uma voz grave a fez se sobressaltar. — Está tudo bem? Ela virou-se, o susto estampado no rosto. — Oh, meritíssimo! Sim, está tudo bem. O senhor viu tudo, não foi? — Por favor, meritíssimo, isso é só dentro do tribunal. Aqui, a senhorita não precisa me chamar assim. — Lian sorriu, leve e sincero. — Vi, sim. E devo dizer… a senhorita é corajosa. — Eu precisei ser, ou apanharia de novo. — disse sem pensar. A lembrança veio como um golpe: Bastien Fournier. — De novo? — A voz de Lian carregava incredulidade. Aurora percebeu o deslize e apressou-se em mudar de assunto. — Obrigada pela sua postura hoje, Juiz Lian. Se fosse uma certa juíza, talvez as coisas não terminassem bem… ela tinha envolvimento com Damien. Assim que as palavras saíram, ela empalideceu. — Droga… — murmurou. — Foi um comentário terrível. Me perdoe. Lian manteve o tom sereno. — Está tudo bem. Foi apenas um desabafo. O que foi dito aqui, fica entre nós. A senhorita é uma profissional admirável, e o incidente de hoje não muda isso. Mesmo sem falar, a mente dele não parava de girar em torno daquela frase — apanhar de novo. Ele sentiu o peso e a gravidade daquilo, sabendo que era um assunto extremamente delicado. Por isso, decidiu ocultar a sua preocupação e se limitar a oferecer um conselho discreto. — Senhorita Deneuve, o que aconteceu hoje foi grave. O que acha de contratar um segurança? Aquele homem é perigoso. Aurora sustentou o olhar dele, séria. — O senhor tem razão. Já estava considerando isso. — Ela sorriu com discrição, mantendo a postura impecável. — Obrigada, Juiz Lian. Mas, se me permite, tenho um cliente esperando. Ela se afastou, firme, apesar da dor. Lian acompanhou o movimento até vê-la entrar no carro. Phill, o motorista, acenou de longe antes de partir. Enquanto o veículo sumia na rua movimentada, Lian permaneceu imóvel. O som do motor se afastava, mas a imagem de Aurora — firme, inteligente e com uma ferida discretamente perceptível — ficou gravada na sua mente.
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