Na imponente mansão recém-comprada, que refletia a sua ascensão profissional, Lian finalizava a sua meticulosa preparação para o dia. Dentro do seu closet espaçoso, ele deu o toque final no seu terno de lã cinza-chumbo, feito sob medida, apertando o nó da gravata com uma precisão que era mais uma demonstração de controle do que um simples ajuste.
O seu cabelo escuro, cuidadosamente alinhado com perfeição, sem um fio fora do lugar, era um reflexo da sua personalidade inabalável. Nos pés, os seus sapatos de couro preto, polidos até o brilho de um espelho, eram o símbolo silencioso de uma jornada vitoriosa.
Como último passo, ele aplicou um perfume marcante, com notas amadeiradas e um toque sutil de vetiver. O aroma forte e sofisticado que preencheu o ar ao seu redor era menos um perfume e mais uma declaração de autoridade silenciosa, marcando o espaço com a sua presença.
Lian desceu até a cozinha, a sua presença imponente dominando o ambiente onde o aroma de café e frutas frescas se misturava ao seu perfume. Lá, Diana o esperava, segurando uma xícara de café. Os seus olhos o seguiam com um orgulho radiante, uma admiração que ela não tentava esconder.
Quando ele se aproximou, ela sorriu, inalando o perfume dele com um pequeno sorriso.
— Você está deslumbrante, como sempre — ela disse, a voz cheia de carinho, enquanto lhe estendia a xícara.
Lian sorriu em resposta, um sorriso calmo e sincero. Ele se aproximou, e enquanto tomava um gole do café, inclinou-se para dar-lhe um beijo suave nos lábios. Diana pousou a mão no seu rosto, a carícia um gesto de i.n.t.i.m.i.d.a.d.e e carinho.
O momento de paz acabou no instante em que o seu olhar pousou no relógio de pulso, um modelo de luxo que marcava implacáveis 08:20 da manhã. O sorriso no seu rosto desapareceu, substituído pela expressão séria e concentrada de quem estava prestes a entrar num campo de batalha.
— Eu preciso ir — disse ele, a voz firme. — Não posso me atrasar para o meu primeiro dia no tribunal.
Diana aproximou-se, e o beijo que trocou com Lian foi intenso, um selo de confiança e admiração. Ele retribuiu o beijo com a mesma intensidade e, antes de se virar, pousou uma mão sobre a barriga dela, num gesto de carinho que era uma promessa. Ele inclinou a cabeça e, num sussurro quase inaudível, disse:
— Até logo, meu filho.
Lian despediu-se com um sorriso e saiu pela porta principal. Diana ficou na soleira, observando-o partir, com um sorriso orgulhoso que não era apenas de uma esposa, mas de uma mulher que via em seu marido toda a força e a beleza de um homem vitorioso.
O Mercedes-Benz preto blindado o esperava na frente da mansão. No volante, o motorista mantinha o olhar fixo no retrovisor, e no banco do passageiro, Raul, o chefe da segurança, falava num sussurro no seu ponto de comunicação. Ele dava as últimas ordens para a outra equipe, composta por três seguranças que, em sincronia, já ocupavam um Cadillac Escalade blindado cor chumbo, posicionado a poucos metros.
Todos vestiam ternos escuros sob os quais a silhueta dos coletes balísticos era sutilmente visível. Nos seus cintos, um volume discreto sugeria a presença de armamento, e os fones de ouvido indicavam uma comunicação constante e silenciosa. Era um comboio de proteção de alta precisão.
Um dos seguranças abriu a porta do Mercedes, e Lian entrou no banco traseiro. O som abafado do fecho selou-o do mundo exterior. O interior era um santuário de luxo e tecnologia: assentos de couro Nappa preto, macios e ergonomicamente esculpidos, o acolheram com um conforto firme. O ar, fresco e purificado, era sutilmente perfumado com o cheiro inconfundível de couro novo. Painéis de ébano polido, com veios discretos, decoravam o painel e as portas, refletindo suavemente a iluminação ambiente.
Enquanto o carro de Lian deslizava para fora do condomínio, o Cadillac Escalade de segurança o seguiu, mantendo uma distância precisa. Lian olhou para a sua própria imagem refletida no vidro blindado, uma barreira impenetrável entre ele e o mundo. Ele se viu, não apenas como um homem, mas como uma extensão do poder e da segurança que o cercavam. Naquele espaço de silêncio, a preparação mental para o dia começou, e a confiança inabalável no seu rosto era o único som visível.
Minutos depois, o comboio blindado parou com uma precisão cirúrgica no estacionamento do tribunal. Dentro do Mercedes-Benz preto, Lian deu um último e firme ajuste no nó da gravata. A porta se abriu e, ao sair, a sua presença imponente dominou o ambiente. Diferente dos advogados que entravam para lutar, ele estava ali para julgar, uma figura de autoridade inquestionável em meio ao caos da justiça.
Escoltado por sua segurança, ele atravessou o estacionamento com passos firmes, uma figura de autoridade em movimento. O elevador privativo o conduziu silenciosamente ao hall de entrada, onde um grupo de juízes e funcionários de alto escalão o aguardava. Eles aproximaram-se, cumprimentando-o com sorrisos respeitosos, e as palavras de boas-vindas ecoavam num murmúrio de deferência. Ele passava por eles como numa marcha triunfal, um tapete vermelho invisível estendido à sua frente.
Lian era conduzido por um funcionário através dos corredores movimentados do tribunal, quando a sua atenção foi capturada por uma voz alta e cheia de si que escapava de uma das salas de audiência. A porta estava entreaberta, e o tom arrogante de um jovem cortou o burburinho do tribunal, forçando-o a ouvir.
— Causa ganha, doutor! O velho é um gagá perdido, e a advogada... — a voz do jovem transbordava de desdém e arrogância — ela não passa de apenas uma gostosa. Nem vai perceber que adulteramos o vídeo. Eu vou me safar dessa e ainda vou ganhar a minha indenização.
O valor que ele esperava receber pela encenação de um atropelamento, chegava a setenta e sete mil francos suíços, o equivalente a cerca de quinhentos mil reais. Não era apenas uma quantia alta; era um golpe calculado para atingir não só o bolso do velho senhor, mas também o seu orgulho.
O sorriso que se formava no seu rosto se desfez, substituído por uma expressão de gelo. Os seus olhos, antes calmos, se tornaram duas fendas escuras, e uma tempestade silenciosa de fúria formou-se sob a sua superfície. Ele parou por um instante, a sua postura rígida, e ouviu a risada do advogado, uma confirmação de cumplicidade que o fez cerrar o punho em silêncio. Lian não disse uma palavra, mas a sua expressão era uma promessa: ele lidaria com aquela grosseria de forma exemplar.
Lian retomou o seu caminho, a raiva e o desprezo que sentiu se condensaram numa determinação fria e inabalável. Como juiz e guardião da justiça, ele jamais permitiria que o seu tribunal se tornasse um palco para desonra. O ambiente no tribunal era tenso, a sala estava cheia, e a expectativa era palpável. Todos estavam preparados, em silêncio, aguardando a entrada do juiz. Na sua mesa, Aurora estava sentada com seu cliente, um senhor de setenta anos. A sua postura era de uma elegância mortal, os olhos azuis brilhando com uma calma que contrastava com a sua determinação.
As portas do tribunal abriram-se com um som solene, anunciando a entrada de uma autoridade inquestionável. O silêncio que pairava na sala tornou-se ainda mais denso quando Lian cruzou a soleira. Todos se levantaram em uníssono, um reconhecimento tácito do poder que ele emanava. Com a altivez de um monarca, ele tomou o seu lugar na bancada.
O seu olhar percorreu a assembleia com uma intensidade p.e.n.e.t.r.a.n.t.e e, por uma fração de segundo, cravou nos olhos de Aurora. Ela o encarou de volta, sem se sentir intimidada. Os seus olhos azuis encontraram os dele numa troca de respeito silencioso, uma centelha de reconhecimento entre duas mentes brilhantes.
Nos seus anos trabalhando ao lado de Dominic, Lian havia aprimorado a arte de ler as pessoas, e ele via em Aurora não só uma profissional competente, mas alguém de caráter inquestionável. Após esse breve instante de reconhecimento, o seu olhar frio e de desprezo se voltou para o jovem e seu advogado, antes que a sua máscara impassível retornasse, dominando o ambiente e silenciando qualquer dúvida sobre quem detinha o controle naquela sala.
Enquanto ele desviava o olhar, Aurora sentiu um alarme soar na sua mente. Juiz novo? Droga. O pensamento a atingiu como um aviso urgente, afiando o seu foco.
Ela o observou com cuidado, o coração apertado, procurando por qualquer sinal de fraqueza. Não encontrou nada. O olhar dele era gélido, mas não como o de Astrid, que exalava a falsidade de quem se vende por um favor. O frio dele era de um jeito que dava medo: calmo, firme, impossível de entender. Quanto mais tentava decifrá-lo, mais percebia a própria insegurança.
Espero que ele seja bom e honesto, pensou, sentindo um nó se formar no estômago. Espero que o seu poder não me custe o caso.
O julgamento começou, e a voz do advogado de Damien preencheu o tribunal. Era um homem rechonchudo num terno caro, cujos gestos dramáticos e exagerados tentavam dominar o ambiente e cativar a audiência. Ele se movia pela sala com uma grandiosidade forçada, como se cada palavra sua fosse um golpe de martelo.
— Senhor juiz, o meu cliente, um jovem de futuro promissor, foi brutalmente atropelado por um idoso que, de forma irresponsável e sem qualquer justificativa. As consequências foram devastadoras: lesões graves, um trauma psicológico profundo e uma longa recuperação que ainda o aflige. O vídeo, Excelência, fala por si — não há margem para dúvidas quanto à violência do ato. Peço, portanto, autorização para exibir o registro original, sem cortes, que comprova integralmente a veracidade da minha alegação.