Aurora se arrastou para o banheiro, onde a cascata de água quente do chuveiro de alta pressão pareceu ser a única coisa real. O vapor denso subiu e envolveu-a como um abraço morno, uma barreira efêmera contra o mundo lá fora, enquanto a água limpava não só o corpo exausto, mas tentava, em vão, levar embora o resquício de medo que insistia em ficar na sua pele como uma sombra persistente.
Após o banho, a sensação de alívio durou pouco, com movimentos lentos, ela aplicou um óleo corporal perfumado, de lavanda e baunilha, que deslizou suavemente pela pele ainda úmida, hidratando-a e trazendo uma calma temporária, como um sussurro de tranquilidade. Depois, pegou a escova secadora profissional e, com paciência, secou os seus cabelos lisos e negros, mecha por mecha, modelando-os com um brilho sedoso e um movimento leve. Para finalizar, depositou delicadamente algumas gotas de um reparador de pontas, da marca francesa Kérastase, espalhando o elixir capilar com um aroma sutil e sofisticado, selando as cutículas e conferindo um toque final impecável aos fios.
De volta ao quarto, diante do espelho, ela se sentou à sua penteadeira de madeira escura. Abriu as gavetas com um movimento suave, como se estivesse preparando a armadura para a batalha do dia. Um corretivo facial de alta cobertura foi o primeiro a ser aplicado, apagando as profundas marcas da noite insone sob os seus olhos. Em seguida, uma base leve e um pó translúcido uniformizaram a pele, conferindo-lhe um aspecto natural e impecável, uma máscara de serenidade para o mundo lá fora.
Com um rímel preto de longa duração e um lápis cremoso, ela realçou a moldura dos seus olhos, intensificando o brilho azul que carregava um misto de cansaço persistente e uma inabalável determinação. Para finalizar, escolheu um batom líquido de um elegante tom nude rosado, que aplicou com precisão. A cor sutil, mas sofisticada, complementava perfeitamente a sua pele clara e o contraste com os seus longos e lisos cabelos negros, completando a transformação de uma mulher assombrada por um pesadelo numa advogada impecável, pronta para enfrentar o tribunal.
Ela se levantou da penteadeira, a sua imagem no espelho agora a de uma mulher preparada, e caminhou até o closet, um santuário de ordem e elegância. De uma arara, escolheu o que seria sua armadura: um conjunto de alfaiataria impecável num tom cinza-carvão. As linhas retas da calça e do blazer eram nítidas, conferindo-lhe uma postura de poder e controle. Por baixo, uma camisa de seda branca, suave e fluida, contrastava com a rigidez do tecido.
Calçou os Jimmy Choo Romy 100 de salto alto em couro preto, cujos toques no piso de parquet de ébano ecoavam a sua presença. A cada passo, a sua figura ganhava uma elegância moderna e um ar de poder sutil. Para selar a sua transformação, aplicou um perfume importado, caro e marcante, com notas de jasmim e sândalo, que pairou no ar ao seu redor, anunciando a sua chegada com uma discrição sofisticada. Pegou a sua bolsa estruturada de couro escuro e, com a cabeça erguida, desceu as escadas. Cada degrau era uma fuga silenciosa da mulher assombrada pelos pesadelos, um passo firme em direção ao mundo lá fora, onde ela podia ser, por algumas horas, apenas a advogada Aurora.
O aroma tentador de café fresco, forte e encorpado, pairava no ar e a guiou, como um farol matinal, até a cozinha, um espaço amplo e bem iluminado. Lá, a cozinheira Celina, com as suas mãos ágeis já preparando a primeira refeição do dia, e a arrumadeira Maria, sempre com um sorriso fácil no rosto, estavam imersas numa conversa animada.
— A Hanna me disse que ele é o maior gato, educado e um cavalheiro — sussurrava Maria, os olhos brilhando com uma ponta de curiosidade e um sorriso sonhador que lhe curvava os lábios.
Aurora, agora um pouco mais desperta e sentindo o efeito revigorante do café no ar, franziu ligeiramente a testa, a curiosidade a cutucou e a fez interromper a troca confidencial com uma pergunta suave e direta: — Quem?
O som inesperado da sua voz fez com que as duas mulheres sobressaltassem, os seus olhares se voltando para ela com uma surpresa quase palpável. O burburinho cessou abruptamente, e por uma fração de segundo, o silêncio preencheu o espaço. Aurora sorriu levemente, divertida com a reação repentina e um tanto culpada delas.
— Bom dia, meninas — disse ela, com a voz calma.
— Bom dia, senhorita! — responderam Celina e Maria em uníssono, os seus rostos relaxando em sorrisos cordiais, aliviadas por não terem sido pegas em algo mais comprometedor.
Maria continuou, ainda um pouco sem graça, mas com um sorriso que logo retornou ao seu rosto:
— O vizinho novo, que se mudou para cá ontem.
Aurora apenas acenou com a cabeça, um gesto de cansaço que os olhos azuis não conseguiam esconder. Celina, então, a serviu com uma xícara de café forte, do jeito que ela gostava, o aroma a fez suspirar, e ela segurou a louça quente com as duas mãos, buscando um pouco de calor. Nesse momento, Álvaro, o mordomo, aproximou-se em silêncio.
— Bom dia, senhorita Aurora. O motorista a espera — disse ele, com uma voz calma e profissional que, naquele momento, funcionou como um bálsamo para a atmosfera matinal ligeiramente agitada da cozinha.
— Bom dia, Álvaro. Obrigada — respondeu ela, e fez uma pausa para tomar um gole do café fumegante. O líquido quente desceu queimando na sua garganta, um choque visceral que a acordou de verdade, fazendo-a sentir-se mais viva do que o toque estridente do alarme. — Eu já estou indo.
Álvaro a observou com carinho. Como alguém que a conhecia bem, ele captou a fragilidade por trás da maquiagem e da postura perfeita. Na sua expressão cansada, ele viu a prova silenciosa de que a noite de tormento não havia lhe dado trégua.
— A noite não a deixou descansar, não é? — perguntou ele, a voz baixa e carregada de uma tristeza que ele tentava, em vão, esconder.
Aurora soltou um suspiro pesado, e com aquele som, a máscara de determinação que ela havia maquiado por tanto tempo desmoronou por um instante. O peso da sua alma pareceu cair sobre os ombros, e ela confirmou, a voz um sussurro rouco de cansaço:
— Não, aquele pesadelo de novo.
Álvaro soltou um suspiro em resposta, e o som parecia ecoar a exaustão de Aurora. Ele a olhou com a ternura de quem a conhecia de perto, a preocupação genuína gravada em cada linha do seu rosto.
— Não se preocupe, senhorita. Eu preparo um chá calmante para a sua volta.
Com um sorriso que, por um instante, foi totalmente dela, genuíno e livre do cansaço, Aurora se levantou.
— Obrigada, Álvaro. Preciso ir agora. Não estarei para o almoço, então, por favor, cuidem-se e se alimentem bem. Tenham um bom dia.
Ela saiu em direção à porta principal, o som dos seus Jimmy Choo ecoando no corredor até desaparecer por completo. Na cozinha, o silêncio tomou o lugar da conversa animada, e Celina e Maria observaram a porta com a preocupação estampada nos rostos. Celina virou-se para Álvaro, que também tinha o olhar fixo na saída.
— Ela é tão boa e tão jovem para sofrer tanto assim... — a voz da cozinheira saiu como um sussurro quebrado pela tristeza.
— Nem me fale — respondeu Álvaro, a voz baixa. O seu olhar permaneceu fixo na porta por onde Aurora acabara de passar, como se pudesse ver a armadura de seda e confiança que ela vestia se desfazendo a cada passo. Por baixo de toda aquela elegância, ele sabia, a alma dela estava ferida e assombrada pelos fantasmas de um passado que a perseguia implacavelmente.
Do lado de fora, Phill, o motorista, a cumprimentou com um caloroso "Bom dia". Ela sorriu, retribuindo a saudação com um aceno de cabeça. Ele apressou-se em abrir a porta do Range Rover preto, e o interior espaçoso e silencioso do carro a acolheu como um santuário. Aurora entrou, o som suave do clique da porta fechando-se a selando do mundo lá fora.
Enquanto o Range Rover deslizava em silêncio pela estrada do condomínio, Aurora olhou pela janela e notou uma dezena de seguranças de terno preto posicionados estrategicamente ao redor da casa do seu novo vizinho. A segurança era tão ostensiva que a propriedade parecia uma fortaleza.
Quebrando o silêncio, Phill murmurou, a voz carregada de surpresa:
— Essa família deve ser muito importante — comentou Phill, a voz baixa de quem fazia uma observação notável. — Nunca vi tanta segurança assim. Pelo visto, não é qualquer um que mora na casa ao lado.
Aurora acenou com a cabeça, mas sua mente já havia fugido, se perdendo na sombra persistente de Bastien Fournier. As palavras saíram da sua boca num sussurro baixo, mais para si mesma do que para Phill:
— Pelo menos será difícil que alguém invada o condomínio — sussurrou ela, as palavras mais para si mesma do que para Phill. — Já éramos seguros com os nossos vigias, mas agora... estamos ainda mais protegidos. É um alívio enorme.
Phill sorriu, concordando com a observação dela sem saber a profundidade do seu alívio. O carro seguiu o seu caminho em direção à audiência, e enquanto o mundo de contratos, leis e clientes a aguardava, Aurora permitiu-se um instante de paz, sabendo que, por algumas horas, estaria protegida dos fantasmas que a perseguiam.