Pontes de Dor

1866 Palavras
Dominic ignorou Rafael, revirando os olhos. Lian voltou a se sentar, o corpo curvado, os olhos vermelhos e inchados. O silêncio deixado pela saída de Aurora parecia pesar sobre os seus ombros, sufocante. Dominic se aproximou, acompanhado de Rafael e Vicenzo, e teve lugar ao lado dele. Os dois permaneceram de pé, à frente, observando em silêncio. A sua expressão era séria, contida, como se buscasse escolher com cuidado cada gesto. — Peço desculpas. Eu não tive a intenção de ofender a advogada. Lian ergueu o olhar, uma expressão firme. — É Aurora. E, além de advogada, ela é uma amiga. Dominic, você não tem ideia do que ela passou hoje. Primeiro, um advogado c.a.n.a.l.h.a tentou a.b.u.s.a.r dela. Se eu não tivesse chegado a tempo... eu nem sei o que teria acontecido. Fechou os olhos por um instante, tragando a lembrança amarga, antes de prosseguir: — Aquele m.a.l.d.i.t.o armou tudo para desestabilizá-la. Ele sabia que perderia fácil para ela e, infelizmente, conseguiu o que queria. Na audiência, ele a humilhou diante de todos, com a cumplicidade de uma juíza com quem mantém um caso. Aurora saiu tão desnorteada, tão ferida, que caminhou sozinha sob a chuva, nesse frio... sem se importar com nada. A mão de Lian apertou o braço da cadeira, como se buscasse se conter. A voz suavizou-se ao final, revelando a preocupação que não cabia dentro dele: — Mesmo encharcada e exausta, ela fez questão de vir aqui, só para nos apoiar. Eu estou com medo de que ela fique doente por causa disso. Ela não merecia carregar esse fardo sozinha. Suspirou, o peito arfando, e recostou-se outra vez, deixando evidente que não falava apenas de um gesto de cortesia, mas de alguém por quem tinha um respeito profundo — e uma admiração que não ousava ultrapassar o limite do que lhe era permitido. — Mas… e o marido dela? — questionou Vicenzo, franzindo a testa. — Ela disse que era casada. — Sim, é casada… perante a lei — respondeu Lian, a voz amarga. Rafael o encarou, confuso. — Como assim? Lian passou a mão pelo rosto, respirou fundo, e então deixou as palavras caírem como um peso que ele não queria carregar: — Uma noite, ela estava diante do lago do condomínio… sozinha, chorando, como se conversasse com os pais que já se foram. Diana a viu ali e acabou ouvindo o seu desabafo, quando revelou a sua dor. Contava que fugiu do marido após ter sido espancada quase até a morte e, como se não bastasse, ainda foi atirada por ele escada abaixo, ficando em coma. O olhar de Lian se endureceu, a voz cortante, cheia de desprezo. Fitou Vicenzo, depois voltou-se para Rafael, como se cuspisse o nome com nojo: — Vocês devem conhecer esse verme… o juiz Bastien Fournier. — Não brinca... Está dizendo que... — Rafael murmurou, chocado. — Sim, ele é o marido dela — Lian confirmou, a voz tensa. — Aquele c.r.áp.u.l.a! — Vicenzo praguejou, batendo o punho na mesa. — Vive na mídia, derramando lágrimas de crocodilo, dizendo que não perdeu a esperança de encontrar a esposa que tanto ama. Filho da p.u.t.a! Já perdi a conta de quantas vezes o vi em jantares de gala com uma mulher diferente a cada semana. Um corrupto, um porco, não vale o chão que pisa. — Diana me implorou para castigá-lo, mas eu deixei essa vida para trás… por ela e pelo Gael. — Lian falou, a voz carregada de lembranças, o olhar distante, perdido no vazio. — Ela me disse que a Aurora a lembra muito a Alicia, e é verdade… é uma mulher de garra, corajosa, com um caráter admirável. — Agora você me deixou com um peso enorme na consciência. É como se, sem querer, eu tivesse ferido a minha Alicia… — Dominic suspira, a voz pesada, carregada de culpa e arrependimento. Antes que Lian pudesse responder, Leonardo, o pai de Diana, apareceu, acompanhado de Clara e Miguel Marconi, os pais de Lian. — Nos perdoe, Lian… — Leonardo começou, a voz carregada de pesar — Queríamos ter vindo com Dominic e os meninos, mas surgiu um imprevisto. Clara aproximou-se do filho, envolvendo-o delicadamente nos braços, como se quisesse proteger cada pedaço da sua dor. Miguel colocou a mão nas suas costas, apertando de leve, transmitindo força silenciosa. Leonardo inclinou-se, pousando a mão no ombro de Lian, e ficou ali, presente, como um pilar firme em meio ao caos da tristeza. Por um instante, Lian sentiu-se cercado por um abraço que não precisava de palavras, apenas do calor e da presença daqueles que o amavam. Leonardo hesitou por um instante, a voz embargada pelo medo do que pudesse ouvir. — E… Diana e Gael? Há alguma notícia? — Ainda não… — Lian engoliu em seco, a voz falhando entre soluços. — Mas eu… tive que escolher… — pausou, os ombros tremendo, a dor visível em cada movimento — Entre Diana… e… o bebê… Eu não consegui salvar os dois. Eu… escolhi Diana. Eu não pude salvar… meu filho… — A frase m.a.l saiu, sufocada pelo choro que o consumia. Miguel aproximou-se e o envolveu num abraço firme, como se pudesse carregar junto toda aquela dor. Clara e Leonardo deixaram as lágrimas rolarem livremente, incapazes de conter o sofrimento que transbordava. Dominic pousou a mão no ombro de Lian, oferecendo um apoio silencioso, sem palavras, apenas presença. Lian chorava, cada soluço arrancando o ar dos seus pulmões, e ali, não havia palavras capazes de consolar, apenas a dor crua, silenciosa e inevitável, que preenchia o espaço entre eles, deixando um vazio que ninguém podia preencher. — E o Raul... — A voz dele era um rosnado, uma fúria bruta. — Ele não resistiu... e a Diana... — Ele se calou, os punhos cerrados. — Eu tive que escolher! Tudo por culpa de um filho da p.u.t.a que furou a preferência! Aquele desgraçado morreu na hora... e eu nem pude tocar nele. Por que, c.a.r.a.l.h.o? Por que tive que passar por isso, e ele não?! Lian chorou, soluçando sem controle. O som quebrou o silêncio pesado, e a fúria que ele exalava desmoronou numa dor avassaladora. Ninguém se moveu, incapaz de oferecer qualquer consolo que não fosse sua presença. O peso era palpável, mas o alívio parecia uma mentira distante. Enquanto isso, Aurora dirigia para casa, o coração pesado e a mente em tumulto, tentando processar cada detalhe do que havia vivido. A acusação de Dominic a deixara furiosa. Quem ele pensava que era para insultá-la daquele jeito? Cada palavra dele reverberava na sua mente, aumentando a frustração, a raiva e o desprezo. O volante parecia pesado nas suas mãos; os nós dos dedos se apertavam, a mandíbula cerrada, enquanto a respiração se tornava irregular. Ela respeitava profundamente Lian e Diana e jamais faria algo para acabar com o casamento deles. O seu único objetivo era apoiá-los naquele momento difícil, mas ver alguém questionar a sua integridade e intenção era quase insuportável. O silêncio dentro do carro amplificava cada pensamento, cada lembrança da cena no hospital, e Aurora sentia o peso da injustiça como se pudesse esmagá-la. Por um instante, o mundo parecia pequeno demais para conter a frustração que a consumia. Quando finalmente estacionou em casa, ainda ofegante, sentiu o corpo pesado. Antes que pudesse descer do carro, Álvaro correu até ela, trazendo um roupão. A preocupação estampada no seu rosto fez Aurora suspirar, um misto de alívio e cansaço atravessando o seu peito. Assim que se aproximou, ele a envolveu com o roupão e disse, com a voz carregada de cuidado: — Senhorita Aurora, pelo amor de Deus! Vai acabar pegando uma pneumonia! Que teimosia sair encharcada com este frio! Aurora entrou, apoiando-se levemente nele, e respondeu, a voz trêmula e carregada de pesar: — Não se preocupe, Álvaro… vou ficar bem… — Ela suspirou, a voz carregada de peso. — Foi uma escolha impossível para o Lian… entre salvar a Diana ou o bebê… — Engoliu em seco, a garganta apertada, os olhos marejados. — Ele salvou a Diana… mas perdeu o filho. O silêncio caiu sobre a sala como um peso esmagador. Álvaro ficou imóvel, a expressão tensa; Celina e Maria trocaram olhares, incapazes de encontrar palavras. Cada um sentiu o impacto da notícia, a dor invadindo o espaço sem aviso. Aurora, sentindo que não havia nada mais a dizer, subiu as escadas em silêncio, deixando-os absorver, pouco a pouco, a gravidade do que acabara de ouvir. No quarto, ela caminhou direto para o banheiro, o corpo pesado de exaustão. O roupão encharcado caiu no chão sem cerimônia, com o restante das roupas. Ligou a cascata de banho no máximo, deixando a água quente escorrer, lavando o frio, a chuva e a tensão acumulada. No refúgio do vapor, Aurora finalmente se permitiu chorar. As lágrimas se misturavam à água, e os soluços ecoavam pelo amplo espaço, quebrando o silêncio pesado. Ela permaneceu ali por um longo tempo, liberando cada fragmento de sofrimento, como se a água pudesse levá-los embora. Meia hora depois, de pijama e com os cabelos secos, deitada na cama, o corpo ainda tremendo pelo esforço físico e emocional, Aurora ouviu batidas suaves na porta. Álvaro entrou, segurando cuidadosamente uma xícara de chá de leite quente com mel, o aroma reconfortante preenchendo o quarto. — Aqui — disse, com a voz calma, sentando-se na beirada da cama. — Para você se aquecer. Aurora pegou a xícara, o olhar distante. — Obrigada... — murmurou, a mente ainda na cena do hospital. — Ele fez o que precisava, Álvaro. Ninguém pode culpá-lo. Álvaro passou a mão pelos cabelos de Aurora, um gesto carinhoso e paternal. — Eu sei, minha querida. Foi a escolha mais difícil que um homem pode fazer. Mas... — ele continuou, a voz mais suave —, eu sinto que não é só isso que a deixou tão abatida. Quer conversar? Os olhos de Aurora encheram-se de lágrimas, e ela sussurrou: — Hoje foi uma manhã horrível, Álvaro... Lucca, aquele asqueroso... — Ele ainda a persegue, Aurora? — o tom de Álvaro endureceu. Aurora fechou os olhos e assentiu. — Ele tentou me… me e.s.t.u.p.r.a.r… — Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, traçando um caminho quente na pele. — Se Lian não tivesse chegado a tempo… eu nem sei o que teria acontecido. Os olhos de Álvaro arregalaram-se, o corpo se tensionando como se cada músculo estivesse prestes a se partir. — D.e.s.g.r.a.ç.a.d.o. Eu vou denunciá-lo, Aurora! Se eu não fizer isso, sou capaz de matá-lo com as minhas próprias mãos! — A fúria na voz de Álvaro era palpável, cada palavra carregada de indignação e desespero. Aurora começou a soluçar, e ele a puxou para um abraço firme, envolvendo-a como se pudesse protegê-la de todo o m*l do mundo. — Shiuuu… Eu estou aqui, minha querida. — A voz dele se suavizou, mas ainda carregava força e determinação. — E, como sempre, farei o possível para te proteger. Enquanto a segurava, os seus pensamentos se dividiam entre a raiva e a razão. Ainda bem que o novo vizinho tem bom caráter… não posso deixar de agradecê-lo, refletiu Álvaro, sentindo um misto de alívio e preocupação.
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