Correntes de Angústia

1887 Palavras
No condomínio, Aurora e Phill perceberam imediatamente que algo estava errado. Os seguranças de Lian se moviam apressados, trocando olhares rápidos e inquietos, como se cada gesto escondesse um alerta silencioso. A atmosfera parecia carregada, pesada, quase elétrica. — O que será que está acontecendo? — perguntou Phill, a voz baixa, tensa, carregada de preocupação. Aurora sentiu o peito apertar, um frio subindo pela espinha, o estômago revirando. — Não sei… — murmurou, os dentes cerrados, a voz quase um sussurro — Mas… eles parecem… assustados. O silêncio que se seguiu era estranho, denso, como se o próprio ar segurasse a respiração. Cada passo, cada olhar dos seguranças aumentava o aperto no peito de Aurora, e ela teve a sensação de que algo grave havia acontecido. Ao entrarem em casa, a tensão tornou-se palpável. Álvaro correu até Aurora, olhos arregalados, respiração curta, o corpo tenso como se estivesse prestes a quebrar. — Aurora! — chamou, a voz carregada de urgência. — A senhorita vai pegar um resfriado! O que aconteceu? — cada palavra parecia esmagar o ar ao redor. Aurora tentou manter a calma, mas a garganta seca traiu o medo que a consumia. — Não aconteceu nada… só me molhei um pouco — disse, a voz trêmula, quase falhando. — Mas e vocês? Por que estão assim? Álvaro suspirou, apertando os ombros dela com força, como se tentasse transmitir coragem a si. — Greta ligou para a Celina… — pausou, lançando um olhar pesado para Maria, que não conseguiu conter as lágrimas. — Raul, o chefe de segurança… sofreu um acidente com a esposa do vizinho… — É Diana, senhor Álvaro — murmurou Maria, a voz frágil, olhos marejados. O mundo de Aurora parou. O coração disparou, um punhal invisível cravou-se no seu peito. — O que…? — conseguiu murmurar, engolindo em seco, tentando conter o desespero que subia rapidamente. — Um carro furou a preferência e colidiu com o veículo de Raul — continuou Álvaro, a voz embargada, cada palavra carregada de dor. — Ele morreu no local. Diana… foi levada em estado grave para o Hospital Klinik Hirslanden. E o bebê… também corre risco. Aurora sentiu o chão desaparecer por um instante. As pernas fraquejaram, o estômago se revirou e cada respiração parecia um esforço impossível. O silêncio que se seguiu parecia pesar toneladas, a realidade esmagadora demais para ser absorvida de imediato. Aurora sentiu o chão desaparecer sob os seus pés. O ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões. Sem pensar, agarrou a chave do carro da mão de Phill, e correu para fora, cada passo acelerando o pavor que queimava no seu estômago. — Senhorita Aurora! Espere! — gritou Álvaro, a voz tremendo de desespero. — Para onde pensa que vai toda molhada? Vai acabar pegando um resfriado! Volte aqui, agora! Ela não respondeu. Bateu a porta com força, ignorando os gritos de Álvaro, e se lançou no carro como se cada segundo fosse vital demais para desperdiçar. Ligou o motor e sentiu as palavras dele ecoarem na sua mente, misturadas ao próprio pavor. Meu Deus… que Diana e o bebê fiquem bem… sussurrou, quase engolida pelo terror que a apertava por dentro. O peito queimava, preso por um nó que dificultava a respiração, e o coração batia tão rápido que parecia fora de controle. As mãos tremiam no volante, tentando segurar o carro, enquanto cada curva parecia arrastar tudo ao redor. A chuva batia forte no para-brisa, borrando a visão e refletindo o caos que sentia por dentro. Zurique estava cinza sob o céu carregado, e a cidade parecia distante, quase indiferente ao que acontecia com ela. Quando finalmente avistou a fachada do Hospital Klinik Hirslanden, Aurora sentiu o coração apertar ainda mais. As paredes de vidro refletiam o céu carregado, e a porta giratória girava incessantemente. Ela estacionou com pressa, quase escorregando na calçada encharcada, tirou os saltos e correu para a entrada, o frio da chuva grudando na pele e atravessando cada camada de roupa. — Bom dia — disse, ofegante, a voz trêmula denunciando o pavor que tentava disfarçar. — Preciso ver uma paciente chamada Diana. Ela deu entrada de urgência, após um acidente. A recepcionista assentiu rapidamente, registrou os dados e indicou o elevador. Aurora respirou fundo, mas o ar frio do saguão misturava-se ao terror que não a abandonava. Cada passo no chão liso reverberava no seu peito, fazendo o coração saltar. No elevador, os segundos se arrastavam, intermináveis. As mãos de Aurora estavam rígidas, e os dentes batiam involuntariamente, cada movimento pesado e difícil. Quando as portas finalmente se abriram, ela disparou pelo corredor, os passos ecoando no silêncio como marteladas no peito. O corpo ainda tremia, a respiração vinha curta e irregular, e o terror parecia consumir cada célula. De repente, sem perceber o chão molhado e frio, os seus pés escorregaram — ela caiu com força, sentindo o impacto gelado contra a pele e o piso duro, o ar saindo num choque surdo do peito, enquanto o frio se infiltrava em cada fibra do seu corpo. Lian, sentado logo à frente, ouviu o baque e ergueu a cabeça imediatamente. Os seus olhos, inchados e vermelhos, encontraram os dela. Aurora estava ali: molhada, exausta, mas ainda presente. O coração dele se apertou, como se uma mão invisível o esmagasse, e a preocupação tomou conta de cada gesto. Sem pensar, ele se levantou rápido e correu até ela. — Dra. Deneuve, você está bem? — a voz dele carregava tensão enquanto estendia a mão para ajudá-la a se levantar. Aurora aceitou a ajuda, sentindo o calor reconfortante da presença dele, embora consciente do limite entre eles. Lian a ajudou com firmeza, mas de maneira contida e respeitosa, e ela se apoiou brevemente nele, respirando fundo, tentando recuperar o equilíbrio sem ultrapassar a distância adequada. — Não se machucou? — insistiu ele, os olhos percorrendo rapidamente seu corpo em busca de algum ferimento, a voz carregada de preocupação e urgência. — Estou bem, senhor… obrigada! — murmurou Aurora, ainda tremendo, tentando controlar a respiração. A voz se quebrou por um instante, embargada: — Eu sinto muito… — segurou as mãos de Lian com delicadeza, transmitindo respeito e confiança. — Como ela e o bebê estão? Lian não conseguiu falar de imediato. Tremia, os ombros sacudidos por soluços profundos e irregulares. — Eu… eu tive que escolher, doutora — a voz falhou — Optei pela vida de Diana… Eu… perdi meu filho… — O choro o dominou, devastador, silencioso e pesado. Aurora avançou com cuidado, envolvendo-o num abraço firme, mas respeitoso, tentando transmitir conforto sem invadir o seu espaço. — Eu sinto muito, senhor Lian — sussurrou, acariciando as suas costas com delicadeza, sentindo o corpo dele tremer contra o seu. — Você fez o que precisava. Eles permaneceram assim, presos naquele abraço, compartilhando dor, culpa e impotência. Até que Lian se afastou, percebendo o estado dela. — A senhorita ainda está molhada — disse, a voz carregada de preocupação. — Não é nada — respondeu Aurora, tentando sorrir, mas o frio e o tremor denunciavam o contrário. — Como não é nada? — retrucou ele, firme, cada palavra carregada de autoridade e cuidado. — Está frio, e a senhorita está encharcada. Tire esse sobretudo molhado e vista o meu. Aurora hesitou, o coração acelerado, e Lian aproximou-se com calma, mas firme. Com cuidado, ajudou-a a remover o sobretudo encharcado, segurando-o para que não caísse pesadamente. Em seguida, posicionou o próprio sobretudo sobre os ombros dela, guiando-a suavemente enquanto o vestia. O calor imediato invadiu o corpo gelado, espalhando-se lentamente pelos braços e pelas costas, trazendo um conforto que ia muito além do físico, aquecendo também o coração. Ela acomodou-se ao lado dele, os músculos ainda tensos, sentindo o perfume marcante e agradável que o envolvia, preenchendo o ar com uma presença firme, segura, mas contida. O frio ainda insistia nas extremidades, mas o calor do sobretudo e a proximidade silenciosa ofereciam um conforto inesperado, que aquecia o corpo sem ultrapassar limites. Silêncio pairou entre eles, pesado e expectante, cada respiração carregada de medo e esperança, enquanto aguardavam notícias, compartilhando, de forma respeitosa, a mesma tensão e vulnerabilidade do momento. Horas depois, Dominic entrou no hospital, acompanhado por Vicenzo e Rafael. Os seus olhos percorreram o corredor, detendo-se primeiro em Lian e depois em Aurora. Dominic franziu o cenho, desconfiado, tentando decifrar quem era aquela mulher que parecia ter uma presença tão firme. Eles aproximaram-se, e Lian levantou-se rapidamente, abraçando os amigos. Dominic, com um meio sorriso, disse: — Alicia mandou um abraço, não teve como vir. Está m.a.l de gripe, e Tacinha está lá cuidando dela. — Não precisava deixá-la sozinha, Dominic — disse Lian, a voz carregada de leve reprovação. — Imagina — respondeu Dominic, tentando aliviar a tensão — você precisa muito de mim agora, meu amigo. Ele então olhou para Aurora, percebendo o sobretudo que ainda estava sobre os ombros dela, e olhou novamente para Lian, esperando alguma explicação. Lian entendeu rapidamente a situação e disse: — Vicenzo, Rafael, Dominic, esta é a senhorita Aurora. Ela é advogada e uma amiga. — Amiga? — perguntou Dominic, surpreso, a voz carregada de incredulidade — Mas não faz nem três dias que está aqui e já tem uma amiga? Diana sabe disso? — Ele olhou para Aurora, hesitando por um instante, e acrescentou com cuidado — Nada contra você, tá? Mas não é adequado uma mulher solteira ficar sozinha com um homem casado. Aurora se levantou, mantendo a postura firme e o olhar sereno. Respirou fundo e falou com clareza: — Olá, prazer em conhecê-los. Está tudo bem, senhor Dominic — disse, com firmeza — Não sou uma ameaça. Perante a lei, também sou casada e só vim para ajudar. Sei perfeitamente o meu lugar. Com dignidade, Aurora retirou o sobretudo e estendeu-o para Lian. Ele hesitou por um instante, sentindo o peso do gesto, mas acabou aceitando. Ela então foi até o local onde estava sentada, pegou o outro sobretudo que estava ao lado e voltou a se aproximar dele. — Quando houver notícias, por favor, peça para um dos seus funcionários me avisar — disse com educação e firmeza — Quero ver Diana. Em seguida, virou-se e começou a se afastar, caminhando em silêncio, cada passo medido, carregado de compostura. Lian deu um passo à frente, a voz baixa, mas firme, carregada de preocupação e súplica: — Senhorita Deneuve… por favor, não vá. — os seus olhos imploravam por um instante de atenção, e a mão estendida tremia levemente no ar, como se quisesse segurá-la sem invadir o seu espaço. Cada músculo dele parecia rígido, denunciando o esforço para controlar a ansiedade que crescia enquanto via Aurora se afastar com dignidade, mantendo-se firme e serena, apesar da tensão palpável entre eles. Vicenzo observou a cena, sorrindo levemente para Dominic. — Gosto dela. Uma gracinha. Já você… foi grosso, sem modos. Ela não parece nada com uma destruidora de lares. — E não é — disse Lian, aproximando-se com um suspiro, a voz carregada de sinceridade — Nós nos respeitamos profundamente. Dominic ergueu as mãos em sinal de desculpas, o rosto carregando leve arrependimento. — Não quis, de forma alguma, ofender a advogada. — Mas ofendeu! — retrucou Rafael, cruzando os braços e fixando o olhar em Dominic — Você foi um insensível!
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