O ar gélido da mansão envolvia uma jovem como um sudário. Seus dedos, entorpecidos pelo frio e pela desesperança, apertavam o casaco de seda azul-petróleo do homem à sua frente, como se pudesse extrair dali o calor e o amor que ele se recusava a oferecer.
Seus soluços ecoavam no corredor de mármore, amplificados pelo silêncio sepulcral que pairava sobre a mansão. O aroma de incenso e rosas antigas, antes tão familiar, agora parecia sufocá-la, como se a própria casa estivesse conspirando contra ela.
— Por favor, me diga o que devo fazer!!!
A sua voz embargou, lutando para romper o nó em sua garganta. Ainda assim, os seus olhos cinzas claros, marejados com lágrimas, suplicavam por uma resposta que teimava a chegar. A figura de expressão fria e olhar distante a encarava sem demonstrar qualquer emoção. Era impossível decifrar o que ele pensava.
— Faço qualquer coisa que me pedir, só peço o afeto que mereço ter!!
— Por que faria tal coisa?
O fio dourado de sua esperança, outrora tão brilhante, agora se esgarçava, prestes a se romper. O homem, que ela chamava de pai, não demonstrava um pingo de compaixão. Seus dedos trêmulos e exaustos, finalmente cederam, soltando o casaco de seda como se uma brasa incandescente.
— Porque sou sua filha…
— Quanta tolice.
Aquelas duas palavras, proferidas com desdém, foram como mil agulhas perfurando seu coração. O último fragmento de esperança se espatifou em mil pedaços. A dor, antes suportável, agora era uma onda avassaladora, afogando-a em um mar de desespero.
O homem não vacilou. Não hesitou. Não se importou.
Estava se humilhando para ter o mínimo de atenção daquele homem que carregava o mesmo sangue que o seu. Apesar das lágrimas, ela conseguia ver perfeitamente a frieza de seu pai, jovem e belo, a encarando de cima com certo mistério.
— Por que você…
— Minha nossa, ela está tentando outra vez… — ouviu sussurrar.
A jovem petrificou no lugar ao ouvir aquele comentário. Pelo canto dos olhos, percebeu que os criados da mansão estavam assistindo à sua conversa tal qual um espetáculo teatral.
— Ela não tem vergonha? Todos sabem que não passa de uma bastarda.
— O nosso senhor nunca a aceitará. Um erro como ela nunca será mais do que isso.
O sangue fervia em suas veias na mesma velocidade em que as lágrimas escorriam em seu rosto. Os dedos cerravam no casaco do homem à sua frente. Voltando a encará-lo, ela estremeceu ao perceber que sua frieza havia se aprofundado.
Por acaso aqueles comentários o deixaram ainda mais irritado?
— Não seja tão irritante, Luena. Solte-me neste instante.
— Mas, meu pai…
— Por acaso deseja ir contra uma simples ordem? — vociferou ele, dando um t**a em sua mão.
O mundo ao redor dela se despedaçou como um cristal sob o impacto de um martelo. O abismo se abriu sob seus pés, engolindo-a em trevas profundas. Seus olhos, agora marejados de lágrimas salgadas, apenas puderam testemunhar aquele homem virar-lhe as costas e partir.
Ele sequer hesitou. Nenhuma palavra, nenhum soluço, nenhuma lágrima o fizeram parar. Khait Arbane apenas deixou para trás o seu cheiro que trazia nostalgia a jovem Luena. Era um cheiro que a deixava completamente confortável e calma, ansiando por mais daquele calor paternal.
Aumentando a sua angústia. A sua ambição em ter aquilo de volta para si.
O grito rasgou sua garganta, um lamento primal que ecoou pelo corredor de mármore, carregado de toda dor e a rejeição que ela já havia suportado em sua vida.
O que estava acontecendo?
Por que o amor lhe era negado de tal maneira?
— Por favor… não faça isso comigo… não me deixe sozinha, pai!!
A dor era esmagadora, mas então, algo ainda mais terrível aconteceu.
Sua visão turvou. As bordas da realidade se desintegraram em sombras disformes, como se o mundo estivesse se desfazendo diante de seus olhos.
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— Gaah!
A jovem abriu os olhos bruscamente, arfando como se acabasse de emergir de águas profundas. O ar queimava em seus pulmões, e seu corpo tremia incontrolavelmente. O coração martelava em seu peito, mas o alívio veio quando se viu deitada na própria cama.
— Isso… foi só um pesadelo — sussurrou ofegante, observando a decoração cara e sofisticada que permaneciam frios e distantes — Ha… foi só um sonho, Luena. Não precisa… argh!
Uma dor aguda cortou sua têmpora esquerda, como uma lâmina de gelo derretendo sobre sua pele. Luena levou a mão ao rosto, pressionando os dedos contra a região dolorida, tentando suprimir qualquer gemido de dor que pudesse atrair atenção indesejada.
Seu corpo curvou-se sob a dor. A dor era tamanha que ela aprendera a sufocá-la dentro de sua boca, apesar de isso custar-lhe uma pequena ferida no lábio inferior.
— Hmmpf — gemeu ela, afundando os dedos na têmpora.
Respirando fundo, Luena tentou se acalmar. O cheiro familiar do seu quarto trouxe alguma calmaria para si. Uma aura quente e sutilmente especiada a envolveu. Havia um toque de canela e cravo, não pungente, mas suave e reconfortante como um abraço caloroso. Misturado a isso, sentia-se um aroma mais profundo e masculino, como o cheiro de âmbar quente, transmitindo uma sensação de p******o e força silenciosa.
Aos poucos foi-se acalmando. Precisava se distrair daqueles sonhos. Memórias de quando despertou aquela habilidade não eram nem um pouco agradáveis.
Ela levantou-se da cama ao ouvir um barulho. Guarda-costas e criados se movimentavam no pátio preparando os carros para uma viagem. O som de seus passos apressados criavam uma cacofonia que ecoava pela mansão. O céu cinzento na noite, prenúncio de uma tempestade que se aproximava.
Khait surgiu no pátio, trajando seu blazer escuro como a noite e um sobretudo azulado que esvoaçava ao vento. Luena apertou os braços ao redor do corpo, tentando em vão conter a onda de preocupação que a invadia. Se qualquer coisa acontecesse com seu pai, então ela seria expulsa e Khalid tomaria o título por direito.
No entanto, não era apenas a questão do seu título que a incomodava. A relação com Khait era algo tão embaraçada e cheia de nós, que chegava a dar certo de um jeito estranho. Da mesma forma que Khait Arbane era inexpressivo e distante, Luena mostrava o seu reflexo quando compartilhavam o mesmo cômodo.
— Devo fingir que me preocupo contigo? — murmurou ela ao se encostar no vidro da janela, cruzando os braços — Você é um vaso tão r**m que não quebraria tão facilmente.
Contrárias às suas palavras, as lembranças das mortes de Khait e de Khalid a assombraram num ímpeto. O sangue escorrendo de seu corpo frio, rompendo a maldição que ele carregava ao longo dos anos. Uma morte tão silenciosa, que Luena sempre fora incapaz de impedir. O seu olhar ficou ainda mais vazio com tais lembranças.
Como se tivesse escutado suas palavras — o que era impossível, já que Luena estava no segundo andar — Khait ergueu os olhos para a janela onde ela estava. Seus olhares se cruzaram por um breve instante, mas a frieza no olhar do pai fez Luena despontar um esboço de um sorriso. Khait desviou o olhar, como se Luena fosse invisível, e entrou em seu carro, partindo logo em seguida com a sua comitiva.
— Parece que as preocupações são inúteis — ela sorriu.
A lembrança de mais de dez anos atrás voltou à sua mente, do homem que permanecia sentado no gramado ao lado de uma mulher enquanto assistiam-na brincar com os criados.
A diferença entre Khait e o homem de suas lembranças era apenas o brilho no olhar. Como se a ausência da mulher tirasse sua vontade de viver.
Dando as costas para a janela, Luena sentou-se em sua escrivaninha e puxou o diário que escondia debaixo da gaveta. Folheando as páginas rabiscadas, parou nas anotações dos eventos de suas vidas anteriores. Cada ponto diferente, cada ponto de convergência.
A ponta da caneta vermelha circulou um evento que se repetiu nas suas três vidas.
— A invasão na mansão. Provavelmente alguém já deve ter passado para Ivorak sobre a ausência do Grão-duque — murmurou, anotando a frase “quem é o espião?” e circulando para dar destaque —Khalid tem dificuldades em encontrar o espião, mas é o momento que Noir aparece para bancar o herói.
Os invasores eram bandidos sobreviventes de guerras, que jamais conseguirão viver uma vida pacífica. A ânsia pelo sangue, pelo caos fazia eles aceitarem qualquer trabalho sujo como forma de acalmar suas mentes deturpadas.
Luena sabia muito bem quem tinha mandado aqueles mercenários, mas o verme era traiçoeiro demais e sabia esconder o seu r**o. Sem falar que ele tinha alguém grande o acobertando.
— Se me lembro bem, a invasão ocorrerá daqui a três dias. Momento em que Khait confirma que chegou na fronteira e que Khalid está retornando. A segurança começa a relaxar, se preparando para o retorno do jovem mestre — Luena continuou a rabiscar o papel, cruzando as pernas debaixo da mesa — Se é o momento em que ele aparecerá, então não tem nada o que eu possa fazer. Devo deixá-lo vir por conta própria.
Um sorriso surgiu nos seus lábios avermelhados.
Noir Solardus fará questão de aproveitar a chance e bancar o herói.